Temporadas Ilustradas


Quando termina o desenho da programação de uma temporada de um teatro, começa-se a desenhar outro: o da imagem que a vai comunicar ao mundo. 
Em 2021, a partir dos espetáculos escolhidos e do manifesto de intenções da direção artística para cada temporada, convidámos três artistas — Bárbara Assis Pacheco, Alice Geirinhas e Pedro Vieira — a conceberem uma imagem.
O convite à Bárbara, à Alice e ao Pedro foi que partilhassem a sua leitura da nossa programação e acrescentassem a sua voz à voz dos artistas. Voz essa que num Teatro deve ecoar por todo o lado: no palco e fora dele, na presença e na memória. E que essa leitura se repetisse na capa de um programa na mão de um espetador, em cartazes dispostos em lojas, em ruas, em escolas e paredes de colecionadores, para além do telão com que anunciamos que somos um Teatro e dizemos: Entrem, a casa é vossa.
Mal sabíamos nós que seria muito mais do que uma ilustração o que fariam. Com os seus olhares, desafiaram-nos a estabelecer um pacto: escrevermos um conto a partir de cada imagem de temporada, conto esse que, abriria cada programa, antecipando o editorial onde falamos da programação.
E assim nasceu mais um diálogo entre os artistas, os que pisam o palco e os que pintam a tela, e o público.
Esta exposição nasce da vontade de colocar, lado a lado, o trabalho destes três artistas e os contos que as suas obras espoletaram, desejando que estes novos diálogos se prolonguem para além dos meses que foram fachada e programa, encontros e pretextos. Porque estamos sempre a combater o efémero.

Os músicos de Bremen*

Conto lido por Sandra Correia

Era uma vez o último auroque à face da Terra. Passava os dias escondido ou a fugir de caçadores. Vivia lá para os lados do Côa e carpia noites inteiras, pedindo aos deuses, aos da terra, que o ajudassem na sua tamanha solidão. Um dia, enquanto tricotava um pé de meia com uma moura encantada, o sol bateu de maneira diferente no xisto do seu álbum de família. Um auroque, um outro auroque, robusto, gravado na pedra, um seu igual que nunca tinha visto. Encostou a sua orelha àquele dorso martelado e ouviu:

– Vai-te embora daqui! Vai ser músico em Bremen! Lá encontras outros como tu, montas uma banda e serás feliz para sempre!

E como uma multidão de caçadores apareceu a correr na sua direção, o auroque não pensou duas vezes e fugiu na direção contrária. Ele não sabia onde ficava Bremen mas estava decidido a fazer-se à estrada sem olhar para trás.

*

Era uma vez um ser humano que se queria livrar de um burro-de-miranda, que durante muito tempo lhe carregara os fardos, o levara a todos os cantos da aldeia e ainda lhe entretera filhos e netos. Mas agora o burro estava velho e cansado, e o dono achou que o bicho já não lhe podia prestar serviço e queria substituí-lo rapidamente por um burro mais novo. Começou a diminuir a ração do bicho, para que passasse fome e definhasse. Mas o burro-de-miranda, que não era nada burro, ou não fosse ele de Miranda, percebeu logo a marosca e em bom tempo se fez à estrada.

– Se não posso mais ser burro de carga, quero ser músico! Vou para Bremen! Lá encontrarei outros músicos, e juntos faremos uma banda!

Mal disse isto, deu de caras com o auroque solitário.

– Também vais para Bremen? – perguntou o burro-de-miranda.

– Como é que sabes? – perguntou o auroque, começando a acreditar em magia.

Sem trocarem sequer um relinchar, fizeram-se os dois à estrada, lado a lado, a caminho de Bremen.

Já tinham caminhado um bom bocado quando encontraram um pangolim ofegante:

– Porque estás tão ofegante, pangolim? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oooh – reclamou o pangolim. – Ando a fugir. Uns querem vender-me no mercado, outros querem as minhas escamas para curas médicas, outros ainda acham que sou a causa de uma doença que todos têm e querem dar cabo de mim. Não tenho poiso nem sei como fazer para ganhar o pão de cada dia.

– Olha, nós vamos para Bremen – disse o burro-de-miranda.

– Vamos ser músicos e tocar numa banda.

Eu toco alaúde, ele toca adufe. E tu? Queres vir? – convidou o auroque.

E fizeram-se os três à estrada.

Não durou muito até encontrarem uma marta encharcada, a carpir à beira-rio.

– Que se passa, amiga, porque estás tão desanimada? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Como posso eu estar animado se todos querem dar cabo de mim? Vivi sempre em cativeiro, vi os meus familiares e amigos partir, um a um, para servirem de casacos a senhoras que vão ao teatro. E agora procuram-me por causa de uma doença que todos os humanos têm e que acham que é por minha causa. E agora? Para onde ir?

– Vem connosco para Bremen. Já percebemos que cantas bem quando choras, podes juntar-te à nossa banda municipal!

E fizeram-se à estrada para logo encontrarem um pato-mudo branco.

– Então, que grasnar é esse? Estás aflito? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oh, nem sabes da desgraça da minha vida – disse o pato-mudo.

– A vida corria lindamente, vivia na fonte do jardim central da minha aldeia, um senhor muito simpático visitava-me todos os dias, alimentava-me, falava comigo e até tocava guitarra ao final da tarde, mas agora, por causa de uma doença que todos têm, as ruas estão desertas e o senhor simpático perdeu o emprego e já não cuida de mim. E hoje ouvi-o mesmo murmurar: «Ah! Que bela canja posso fazer contigo! Anda cá que já te torço o pescoço.» E eu desatei a grasnar e nunca mais parei!

– Deixa-te disso, pato-mudo branco – disse o burro-de-miranda. – Traz a guitarra que já não toca e vem connosco ser músico em Bremen.

E lá se fizeram os cinco à estrada, seguindo as curvas de um rio, as suas vinhas douradas e as suas amendoeiras em flor. E atravessaram um planalto. E uma serra. E tudo isto sem ver vivalma, muito menos humana. Mas perceberam que não chegariam a Bremen antes de escurecer. Por isso, quando avistaram, ao longe, um teatro com as luzes acesas, lá para os lados de Viseu, aproximaram-se, encavalitaram-se uns sobre os outros e espreitaram por uma janela.

– Epá, tantas iguarias! – partilhou o pato-mudo branco.

– Ah! Essas iguarias seriam perfeitas para nós – salivou o auroque.

– Ah! Se conseguíssemos entrar! – suspirou a marta.

– Até abríamos as portas a todos os bichos que quisessem entrar, humanos ou não – prometeu o burro-de-miranda.

– Era bom, sim, mas como conseguimos entrar? – alertou o pangolim.

Nisto, caíram com grande estardalhaço e assustaram um morcego-vampiro que há muito ali vivia, pendurado de cabeça para baixo. Em tempos, um guardador de almas e longevidades, era agora odiado pelos demais por causa de uma doença que todos os humanos têm.

– Saiam todos daqui! Já! – ralhou o morcego, que não era Drácula mas conhecia bem a escuridão dos tempos que esta Europa atravessava.

– Chiiiu! – pediram o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco. – Nós não somos perigosos. Ajuda-nos a entrar e nós prometemos abrir o teatro a toda cidade, e ainda te podes juntar à nossa banda. Vamos todos para Bremen.

E assim foi, reuniram-se e desenharam um plano para entrar.

Num silêncio pétreo, estes equilibristas estavam todos preparados para dar um concerto mágico que abriria as portas desta casa das artes.

Concentrados na mais profunda das suas dores, o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco cantaram em silêncio com toda a sua força. E o morcego, que ouvia o que os humanos ainda não sabiam ouvir, emitiu a bela composição, através de ondas ultrassónicas, para dentro do Teatro, mapeando todos os obstáculos que os impediam de entrar. O eco era tão encantador que os obstáculos se afastaram e a porta se abriu.

Conta o resto da história que os músicos nunca chegaram a Bremen nem a porta do teatro se voltou a fechar. Desde então, todos são bem-vindos naquela casa, bichos, pessoas e plantas, e conta-se que, juntos, em conversa, em concerto ou através de equilíbrios mágicos, lá vão encontrando, juntos, a cura para todos os males.

*


ESPELHO, ESPELHO MEU, QUEM SOU EU?*

Conto lido por José Carlos Leorne

Num tempo muito anterior a este abril, ainda a neve cobria metade destas terras o ano inteiro, uma rainha costurava, distraída, à janela, quando se picou na agulha. Três gotas de sangue mancharam o manto de neve que se estendia lá fora. O vermelho no branco era tão vivo que ela desejou: “Fosse eu branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira desta janela, e não de uma cor só.” Pouco tempo depois, deu essa rainha à luz uma filha, branca como a neve, intensa como o vermelho do sangue, e com uma farta cabeleira tão negra como a madeira da sua janela. O parto foi demorado e doloroso, e a rainha morreu nesse mesmo dia, nunca chegando a pegar ao colo a sua cria que não era de uma cor só. O pai, o rei, para curar a profunda tristeza em que se afundara e esquecer a ansiedade dos múltiplos negócios de estado, voltou a casar com a dama mais bela do reino, obviamente, uma mulher orgulhosa e prepotente, como sempre são as mulheres de segundas núpcias em contos de fadas, sempre madrastas antes de serem mães.

Essa dama cedo foi votada à mesma solidão da rainha anterior e, não sabendo costurar, perdia os dias à conversa com o seu reflexo, a sua única companhia. Não tendo mais do que a sua beleza, vivia apavorada com a ideia de envelhecer, e passava horas a fio a esconder as rugas que via nascer à volta dos seus belos olhos azuis, a arrancar os cabelos brancos da sua farta cabeleira dourada e a disfarçar as pequena manchas que contrariavam a sua pele de mármore. E, sem ninguém que a elogiasse, a rainha terminava todos os seus dias perguntando ao espelho se era bela, e, julgando ouvir-lhe um elaborado sim, adormecia certa de que valeria a pena acordar.

Por sua vez, o espelho, que há gerações vivia pendurado naqueles aposentos reais e conhecia com detalhe todas as caras que por ali tinham passado, suspirava não raras vezes com saudades de muitos deles porque aprendera a amá-los a todos e, por isso, a mostrar-lhes apenas o que desejavam ver. Foram muitas as gerações de mulheres e de homens que lhe perguntaram se eram belos, que perante ele ensaiaram discursos, que nele confirmaram as certas indumentárias para as muitas celebrações da corte. À sua frente, muitos duvidaram fraquejaram, ganharam forças, choraram, recuperaram confiança.

Apenas esta rainha parecia não querer saber de mais nada que não fosse a sua beleza, e, assim, os dias para este espelho sucediam-se sempre iguais, perante uma mesma face de uma só rainha, sem nenhuma outra faceta.

Até ao dia em que, já crescida, a princesa Branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a janela de sua mãe entrou à  socapa no quarto da rainha, sua madrasta, para procurar uns brincos. Tencionava usá-los para um encontro secreto com alguém que, assim o desejava, fosse na sua vida um príncipe. Vasculhou todas as gavetas, todas as caixas, et voilà!, encontrou o que procurava. Sem hesitar, colocou os brincos e olhou-se ao espelho. Foi nesse momento que ouviu

o espelho:

– De quem és tu?

– De quem sou eu? Como assim?

Branca como a neve nunca tinha ouvido um espelho a falar, muito menos para fazer perguntas sem sentido. Fugiu, apavorada, do quarto. E nunca mais ao quarto voltou.

O resto da história já muitos de nós conhecemos. Um dia, o espelho deu uma resposta indesejada à rainha, a rainha julgou poder mudar essa resposta se mandasse um caçador matar a nova mais bela do reino, que por acaso era sua enteada, o caçador matou um javali no lugar da donzela e enganou a rainha com as vísceras do bicho. Branca de Neve fugiu, encontrou sete irmãos, todos do mesmo tamanho e com muita barba, e viveu com eles por uns tempos. O espelho não sabia mentir, e a rainha descobriu que a mais bela de todas ainda vivia. Seguindo um sábio conselho, a rainha acatou a tarefa de a matar com as suas próprias mãos, descobriu onde a Branca de Neve vivia e, disfarçada, tentou, primeiro, vender-lhe um corpete que a asfixiasse, depois um pente que lhe arrancasse os sentidos pelos cabelos, mas, não resultando nenhum destes planos, acabou por lhe oferecer uma bela maçã de um paraíso perdido, ou não fosse esta a eterna e trágica primeira história do fim do mundo de qualquer mulher. Branca de Neve agradeceu, trincou a maçã e engasgou-se. Um príncipe que ia a passar deu-lhe uma palmada nas costas a tempo de a salvar – a história do beijo é o que se conta só porque foi nesse momento que chegaram os sete irmãos e os apanharam em flagrante gesto, já o pior tinha passado.

O que não se tem contado quando se conta esta história é que o rei soube desta tragédia, e a rainha teve de fugir do reino, e só muitos anos mais tarde pôde voltar a conversar com o espelho no dia em que regressou ao palácio para chorar o rei que acabara de se finar naquele quarto que já não era seu.

O rei deixara para ela o espelho embrulhado num pano de algodão onde se poderia ler, bordado a fio de ouro: a beleza está no olhar de quem a vê.

Mas a rainha tinha a sua própria pergunta para fazer ao espelho e convenceu-se que aquela não seria a sua resposta.

– Espelho, espelho meu, o que viste tu em Branca de Neve que não tinha eu?

E o espelho respondeu. Disse-lhe que vira em Branca de Neve todas as caras que conhecera naquele palácio e das quais tinha saudades. Viu o nariz da sua mãe, os olhos da sua avó, os lábios da sua tia, as orelhas do seu avô, o sorriso de uma prima direita, a tristeza do seu pai, e até a expressão de uma tribo ancestral que desparecera da face da terra, e ainda os cabelos da sua bisavó. Viu nela tantas outras vidas que se entristeceu ao se aperceber de quanta gente sentia falta. Nessa mesma noite, quando a rainha madrasta voltou a perguntar-lhe quem era a mais bela, o espelho respondeu que era ela mas também a Branca de Neve.

Disse-o na esperança de reaver, naqueles aposentos, aquela cara tão cheia de memórias de tantas outras caras, nunca imaginando a tragédia que acabaria por promover.

A conversa entre a rainha e o espelho foi longa, e não contaram as lendas mas hoje sabe-se que foi de uma sinceridade sem precedentes. A rainha percebeu então que não faria sentido aquele espelho terminar os seus dias a olhar sempre a mesma cara e teve uma ideia:

– Gostavas de viver num camarim de um teatro?

E assim foi. Desde então, vive esse espelho nos bastidores do nosso teatro, reencontrando em todos os artistas que por aqui passam, um olhar, um gesto, uma maneira de ser de alguma das mais belas e amadas mulheres e mais belos e amados homens da sua vida.

* Conto de Patrícia Portela, a partir de “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm

A casa de chocolate

Conto lido por Gaspar Machado Gomes

Era uma vez uma família peculiar que vivia num planeta onde mal se podia viver. As geadas davam cabo das searas, as cheias e os incêndios destruíam os campos e cidades, as ondas de calor e de frio matavam os mais velhos e fechavam os mais novos em casa.

Esta família, como tantas outras, tinha insónias, e à noite, alguns davam voltas na cama, enquanto elaboravam formas de se sustentar e de sobreviver às intempéries. Mas enquanto outras famílias decidiam partir para outros lugares, mudar de emprego, duplicar os turnos e os trabalhos ou assaltar bancos para melhorar o nível de vida, esta família peculiar teve uma ideia peregrina:

– Ó Zé, e se abandonássemos os nossos filhos à sua sorte, no meio da floresta? Acendemos-lhes uma fogueira, damos-lhes um bocadinho de pão, dizemos que já voltamos e nunca mais aparecemos.

O Zé, que apesar das costas partidas, de um dedo amputado e duas úlceras, ainda tinha um bocadinho de coração, hesitou, mas logo a Elvira o confortou com argumentos imbatíveis:

– Então vamos morrer os quatro para não deixar morrer dois, que nem sequer podem ajudar na labuta por causa das malditas leis contra o trabalho infantil?

O Zé encolheu os ombros, o rabo entre as pernas, e concordou com o plano. Mas porque a fome não deixa só os crescidos insones, João e Maria, no quarto ao lado, ouviram o plano maquiavélico dos pais. Mas não se deixaram ir abaixo. Encheram os bolsos de pedrinhas e, de manhã, já eles estavam preparados.

O Zé e a Elvira levaram os filhos, por muitas voltas, até ao centro mais denso da floresta, acenderam uma fogueira e deram um bocadinho de pão a cada um.

– Não saiam daqui, nós já voltamos.

E nunca mais apareceram…

Mas o João e a Maria, destemidos, não porque tinham um cavalo que só falava inglês (como na canção do Chico) mas porque tinham, mui prevenidos, largado as pedrinhas que traziam nos bolsos para assinalarem o regresso, puseram-se a caminho de casa. Chegaram com o rouxinol (ou terá sido com a cotovia, qual dos dois cantou a aurora a Romeu?) e bateram à porta. Elvira, quando os viu, escondeu o espanto e gritou-lhes com toda a fúria que sempre tinha:

– Ai filhos malditos, que quase nos mataram de angústia, que andaram vocês a fazer toda a noite fora de casa? E chegam de mãos a abanar? Sem lenha rachada para nos aquecer nem nada? Ficam de castigo, hoje não comem!

Nessa mesma noite, os filhos ouviram a gritaria dos pais, a lista das contas por pagar, a falta que a mobília penhorada lhes fazia, mais o anel de rubi, mais o terceiro emprego que tinham perdido, etc. etc. etc…

E, no dia seguinte, a Elvira ordena de novo, como se nada fosse: – Vá, ala

para a floresta cortar lenha, que se faz tarde!

O João e a Maria olharam petrificados um para o outro. Não lhes ocorreu que os pais repetissem o plano. Mas não desanimaram. Pegaram no pão que os pais lhes deram como farnel e, migalha a migalha, foram marcando o caminho.

– Não saiam daqui, que nós já voltamos.

E nunca mais apareceram.

Puseram-se os dois de novo a caminho mas, quando olharam em volta não encontraram uma única migalha. Os rouxinóis (ou teriam sido as cotovias?) tinham-se regalado com as migalhinhas de pão e não havia como saber o caminho de volta. O João entrou em pânico. Mas a Maria, que era mais velha, teve uma ideia:

– Oh, para quê regressar a casa? Amanhã põem-nos aqui outra vez. Porque não nos fazemos à estrada?

E lá foram. A chatice é que eles não sabiam onde estavam nem que direção deviam seguir e, depois de andarem um dia inteiro, acabaram no mesmo sítio.

Ainda assim, continuavam destemidos (eram novos) e com muita vontade de fazer alguma coisa pela vida (eram ingénuos). E voltaram a caminhar. E voltaram ao mesmo lugar.

À terceira vez que encontraram as cinzas da sua própria fogueira no caminho, e apesar de ainda destemidos e com vontade de fazer alguma coisa pela vida, veio-lhes um enorme cansaço, a única coisa que consegue atirar os corpos contra a insónia da fome e pesar mais sobre os olhos.

Adormeceram. Debaixo de uma árvore. E como acontece a muitos que assim dormem, sonharam.

Sonharam que ouviam uma cotovia a cantar maviosamente para um rouxinol.

Sonharam que viam no bico do rouxinol as suas migalhinhas. Sonharam que o rouxinol lhes dizia para o seguirem. Sonharam que o seguiam. Sonharam que o rouxinol depositava a migalhinha na boca de Romeu, como uma mãe-pássaro faz a um filhote-pássaro. Sonharam que corriam para a boca de Romeu a tempo de ver que a migalhinha tinha manteiga e que por ela poderiam escorregar. Sonharam que escorregavam pela migalhinha,

caindo os dois pela goela do Romeu abaixo. Afinal não era Romeu mas Hamlet.

E, sem saber muito bem o que fazer com essa descoberta, mas ainda destemidos, João e Maria seguiram na sua viagem e aventuraram-se pelas artérias e veias, pelas cartilagens e pelos músculos do Reino da Dinamarca. Era tudo tão bonito, ali dentro daquele corpo que ainda não era um fantasma!

Nunca lhes tinha ocorrido pensar que um corpo era um sítio tão impressionante! Nem um órgão fora do sítio, nem osso sem função! Até a fome lhes pareceu bonita por um momento, e foi nesse momento que avistaram ao longe, na palma da mão direita do príncipe, um teatrinho de chocolate. A barriga apertou, relembrando-lhes da fome que tinham. Deram as mãos, e com muito cuidado desceram pelo braço direito, até às falanges do dedo mindinho, e lá chegaram ao teatrinho de chocolate.

O teatrinho era lindo e cheirava muito bem. Tinha um telão com um príncipe igual ao seu e de cada lado, um pendão que dizia: Ser ou não ser? Eis a questão. A Maria, sempre a mais destemida e a mais esfomeada, pegou na maçaneta da porta e tentou abri-la. Ficou com a maçaneta na mão. Qual não foi o seu espanto ao perceber que o interior da maçaneta de chocolate era feito de pão-de-ló.

Comeu a maçaneta. O João era mais tímido, mas fixou o chão e, sem pensar duas vezes, deu duas dentadas num rodapé. Era de massapão.

– Olha, João, os vidros são de algodão-doce!

– Maria, as cadeiras são cavacas de ovos-moles!

– João, os bilhetes são bolachinhas!

– Maria, o palco é feito de sonhos de abóbora e rabanadas! Podemos viver aqui para sempre sem nunca mais passar fome!

Mas dos bastidores, chega-lhes uma voz retumbando:

– Quem está a comer o meu lindo teatrinho de chocolate? Era a

bruxa má, claro, disfarçada de velhinha inocente e querida.

– Que lindos meninos! Comam à vontade! Venham comigo, que vou mostrar-vos as melhores guloseimas.

E a bruxa fez-lhes uma visita guiada ao teatrinho de chocolate enquanto lhes

oferecia leite morno, bolinhos, maçãs e nozes.

Eles comeram até mais não.

– Ai Maria, adoro a Dinamarca!

– Ai João, eu também, e se ficássemos cá a dormir?

E logo apareceram duas caminhas para eles pernoitarem no teatrinho de chocolate. Caminhas que se podiam comer ao pequeno-almoço quando acordassem.

Tudo indicava que tinham encontrado o paraíso nas vísceras de um príncipe conturbado. No dia seguinte é que foram elas. De chocolate ou de folhado, a maçaneta não rodava e os vidros de açúcar das janelas não abriam. Procuraram outra saída e acabaram por encontrar a porta dos artistas, e, já fora do teatro e quase fora da palma da mão direita do príncipe da

Dinamarca, estava a bruxa a aquecer um grande caldeirão, enquanto se ria:

– Estão tão gordinhos! Vão dar um belo petisco! Já é o terceiro casalinho de garotos que encontro esta semana na floresta! Esta crise tem sido uma festa!

A Maria, que mesmo com excesso de açúcar no sangue continuava destemida, nem pensou duas vezes, correu para a velha bruxa e empurrou-a para dentro do caldeirão que, afinal, era um buraco sem fundo na mão de Hamlet. Ainda foi a tempo de salvar a colher de pau, que era de rebuçado, e ficou a ver a bruxa a cair, qual Alice pelo buraco das maravilhas, até deixar de ouvir os seus gritos.

Maria nunca pensou que pudesse ser tão fácil emancipar-se. Mas Maria também não imaginara encontrar um teatrinho de chocolate. Nem ser abandonada pelos pais. Nem perder o caminho para casa porque um rouxinol lhe comera as migalhinhas que assinalavam o caminho de volta.

Maria fica muito tempo a olhar para o abismo, sem saber o que fazer.

Eis se não quando uma caveira de algodão-doce aparece e lhe pergunta:

– Ser ou não ser, é essa a questão? A sobrevivência? A insistência? Ou a procura do sublime? Do belo? Do transcendente? O que será mais nobre? Aceitar o infortúnio? Ser almejada por setas? Seguir pedras e migalhas que nos vão assinalando o caminho?

Ou devemos insurgir-nos contra as provocações e os impropérios, contra as injustiças e as desigualdades? Estaremos mais à altura quando vamos à luta? Seremos mais altos quando, imóveis, decidimos pôr fim à angústia com o sono, empurrando a dor para o dia seguinte? Comendo apenas em sonhos, portas e janelas de um teatro anatómico de chocolate quando deveríamos comer a vida como se fosse um banquete onde todos se servem à mesma mesa?

A Maria não percebeu.

O João também não percebeu mas decidiu:

– Anda! Vamos construir a nossa própria casa de chocolate!

Patrícia Portela “O Teatro de Chocolate” é o terceiro conto de Grimm reescrito para os programas do Teatro Viriato, desta feita a partir de “Hensel e Gretel”