Boca a Boca #63 – A Presença e o Presente (em Natureza Fantasma) 

Crónica de Patrícia Portela

O que fascinava Roland Barthes numa fotografia era o facto de tudo o que se via nela ter acontecido. Corpos reais em lugares reais cumprindo ações reais num tempo e espaço reais eram capturados por olhos mecânicos e podiam ser revisitados infinitamente quando só tinham acontecido uma vez. A fotografia repete na imagem aquilo que não se pode repetir na existência. É a presença da ausência, tal como os raios de luz de estrelas há muito emitidas no universo e só agora visíveis, diria Sontag. No século que inventou ao mesmo tempo a história e a fotografia, olhava-se para uma imagem fotográfica e sabia-se que determinada realidade já tinha existido. 

Hoje não é bem assim. Hoje temos a manipulação da imagem e a sua transmissão e difusão em direto e em diferido, dentro e fora de contexto. Hoje temos o Deep Fake e a rede de histórias quotidianas que descrevem os nossos dias resulta da compra, venda, montagem e colagem de bocados de imagens, umas reais outras fabricadas, histórias que nos conduzem a viver por vezes mais do que uma vida em paralelo: a que o corpo sente e se obriga, voluntária ou involuntariamente, e a que construímos para nos mostrarmos aos outros. 

Foi num tempo que tem na fotografia múltiplas realidades existentes e não existentes que uma pandemia ceifou a presença imediata nos palcos um pouco por todo o globo. E foi nesse mesmo contexto que Marco Martins convocou a fotografia enquanto memória e como presença de uma realidade só que já existiu (bem ao jeito de Roland Barthes em Câmara Clara) e criou a instalação “Natureza Fantasma” para a Companhia Maior.   

A Companhia Maior é um projeto de artes performativas desenvolvido por artistas séniores e que, anualmente, desde 2010, convida um artista ou um coletivo por ano a criar uma obra original  — Pedro Penim, Jorge de Andrade, Sofia Dias e Vítor Roriz, Mónica Calle, Joana Craveiro ou Tiago Rodrigues foram já alguns dos artistas convidados. 

Em 2020 o convite foi endereçado a Marco Martins. E em março do mesmo ano, uma pandemia pôs em causa a natureza dos espetáculos ao vivo e considerou a maior idade um grupo de alto risco. As impossibilidades pareciam muitas e pertinentes, mas as questões que o projeto levantava, exigiam respostas mais urgentes: Que sociedade é esta que isola os mais velhos? Em que sociedade nos tornamos quando deixamos de velar os mortos? O que somos quando aceitamos a suspensão do tempo para que o tempo passe sem nós? E que espectáculo se pode fazer para continuar a convocar a presença no tempo presente? Até onde vai o compromisso, até onde pode ir a transformação de um objecto sem desvirtuar a vontade e a paixão que o originaram? 

Marco Martins decide conversar. Decide descobrir e pensar as realidades de cada um dos seus intérpretes através de velhos álbuns de fotografias de família. Inicia um processo de combustão entre as histórias que ouve e as fotografias que todos podemos ver. Marco Martins converte memórias privadas em fantasmas coletivos e descobre o ouro indispensável de que as artes vivas são feitas: A presença no presente. A confusão, neste caso necessária, entre o Real e o Vivo. Através da emoção, da recordação e do encontro: com o passado, com os outros e com que ainda está para vir. 

Afinal, ainda há muitas maneiras de se habitar um espaço que reclama distância. Há muitas formas de estarmos colados uns aos outros por corpos intangíveis e no entanto muito reais. A fotografia e a imagem em movimento são um encontro com esses corpos. 

Tal como Roland Barthes olhava uma fotografia de 1852 do irmão mais novo de Napoleão e se deslumbrava com a ideia daquele olhar já ter olhado para o Imperador, também nós em “Natureza Fantasma” olhamos para pessoas que já olharam para os intérpretes e criadores desta peça, que já conviveram ou ainda convivem com quem tem agora voz nesta instalação. 

Ou seja, Marco Martins reinventa a presença no teatro convocando a sua mais antiga missão: o ritual de passagem entre a vida e a morte através da convocação da presença dos nossos fantasmas. E tudo isto perante a ausência de um tempo de acção presente que se viveu em 2020 e 2021. Haverá algo mais crucial no Teatro do que a sua eterna relação com o culto da vida mas também da morte?  

Foi uma felicidade do destino ver-me atravessada no percurso desta obra que me caiu no regaço quando cheguei ao Teatro Viriato. Aquilo que começou por ser uma co-produção que previa uma companhia com duas dezenas de actores em palco, transformou-se num clássico grego com centenas de figurantes e intérpretes que transformam a garagem no piso -3 do parque de estacionamento do Forum Viseu num anfiteatro no cume de uma montanha olímpica. É lá que assistimos à história de todos nós.  

Patrícia Portela 

Boca a Boca #62 – Tristany acorda-nos

Crónica de Patrícia Portela

Enquanto um estudo de dois anos intitulado Pandora Papers, envolvendo 600 jornalistas em 117 países, revela a riqueza oculta de centenas de líderes e celebridades mundiais, António Saraiva, Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa considera irracional o plano do Governo Português de aumentar o salário mínimo em 2022 para 705€. 

Enquanto se discute a irracionalidade de aumentar um salário tão mínimo, professores de todo o país escolhem leccionar no Algarve na esperança de entrarem mais cedo para os quadros, e alugam quartos minúsculos por preços absurdos com a garantia de serem despejados antes de cada verão para que os seus senhorios ganhem o dobro alugando-o a turistas. 

Enquanto os senhorios aproveitam as últimas semanas para albergarem os turistas que agora enchem os aeroportos e cumprem as city trips em falta, centenas de pessoas no aeroporto de Cabul já correram atrás de aviões que descolaram sem lhes abrirem as portas. Enquanto a Europa continua a discutir se deve ou não abandonar o Afeganistão à sua sorte uma explosão junto à mesquita de Cabul faz cinco mortos  e um estudo das Nações Unidas denuncia que apenas 5% da população afegã consegue pôr comida no prato todos os dias. Enquanto uns não conseguem pôr comida no prato com o salário que têm, outros esquecem-se da vida que levam assistindo à final do campeonato de Futsal de onde saem campeões mundiais ou ao último James Bond com Daniel Craig no papel principal, um filme que celebra uma era que teima em não se finar. Enquanto uns fazem o que outros desfazem, e uns têm a mais e outros nada terão, passa mais um fim de semana.  

O fim de semana em que fui ao Teatro ver Tristany pela primeira vez ao vivo.  

Em palco, na companhia de mais quatro músicos, Tristany habitou Viseu como se viajasse pela linha de Sintra. Puxou a meia por cima da calça, abraçou os seus parceiros como se fosse um fauno, cantou de pé, de costas, de cócoras, sentado no chão do palco, ouvindo os outros tocar e enquanto cantava perguntou-nos:  

Vocês acordaram hoje com vocês? E o sol? Acordou com vocês hoje?  

A plateia, calorosa e em sintonia com a magia do concerto respondeu que sim, mas eu fiquei na dúvida.  

Quantas vezes perdemos o lugar onde acordamos quando o mundo acorda a despenhar-se, a brunir fortunas irracionais e a questionar a subida de salários que mal põem comida na mesa? Quantas vezes não me quero acordar enquanto o mundo se explode em cima daqueles que não podem mas querem viver mais do que outros que procrastinam o seu acordar?  

Tristany acorda. Tristany acorda-nos. Tristany vive e canta acordado. Tristany faz a ligação entre os cheiros, as mágoas, as línguas, as periferias, os centros, os mundos velhos e os sempre novos, os que fazem sentido e os que não fazem sentido nenhum mas habitamos todos os dias. Canta como se fosse uma linha que não sendo reta vai, vermelha, a direito, pelo ar. E acende. Canta como se não se pudesse calar. Até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar. 

Boca a Boca #61 – Não chega só fazer teatro

Crónica de Patrícia Portela

Na passada sexta feira recebemos  Paisagens para não colorir do grupo La-Resentida com encenação de Marco Layera, a partir das histórias e entrevistas realizadas a 170 adolescentes vítimas de violência nas ruas do Chile. No palco 9 adolescentes entram em cena. O espetáculo começava assim:

“Temos entre 14 e 17 anos. Somos 9 e entre todas há: Uma que dorme com um peluche. 6 que não acreditam em Deus. 5 que já pensaram em suicidar-se. Uma que nunca deu um beijo. 3 que já tiveram relações sexuais. Uma que viu o pai cuspir na mãe.Duas que foram ameaçadas de norte no thiscrush.com. Uma que abortou com misotrol. 7 que foram vítimas de bullying. 9 que marcharam no 8 de março. 5 que foram agredidas físicamente pelos pais. 9 que sofreram de assédio na rua. 9 que foram chamadas de puta. 9 que querem deixar de ser invisíveis. 9 que precisam urgentemente de ser ouvidas.”

A realidade é excessiva. E contra ou a favor da realidade, já não chega só fazer teatro, afirma o encenador desta peça. Se fazemos uma peça sobre uma comunidade que não vem ao teatro, fazemos esta peça para quem? E para quê? E Para quê?

A pergunta ecoou por toda a sala durante todo o espectáculo. A pergunta fazia ricochete e cada espectador se perguntou certamente? Porque vimos ao teatro, porque estamos sentados a ver este espectáculo? Para que serve estarmos a ver este espectáculo e o que vamos fazer depois de o ter visto? Não chega só ver teatro e reconhecer em cada cena algo que já presenciámos, que sabemos que existe, que sabemos que se perpetua, que, quem sabe, também perpetuamos ou justificamos.

A certa altura em cena um técnico da companhia faz de Pai e lê um jornal enquanto a filha grita: Papá, ouve-me! Papá ouve-me! Papá ouve-me! Cada vez mais alto. 

Não há resposta.

Do outro lado, na plateia, nós, que já fomos todas filhas, algumas são mães, a grande maioria nesta sala adultas, já nos vimos nesta situação. A de não ser ouvidas, mas também a de não ouvir. E já não chega termos voz. Já não chega termos consciência dos nossos erros. Já não chega assinarmos teatro, fazermos teatro, irmos ao teatro. Mas é sem dúvida um princípio fundamental. O começo de uma viagem através de um encontro, através de uma partilha para que todas e todos, juntos, lutemos por um lugar mais igualitário, mais livre, mais democrático, mais empático, mais justo. Assim o fizemos na passada sexta feira, numa sala quase esgotada. A ovação de pé que se ouviu soou a pacto. Ninguém se vai calar, até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar.

Boca a Boca #60 – Menus inteiros, almas preenchidas

Crónica de Patrícia Portela

Começamos a nossa temporada de braço dado com o Dino D’Santiago. Ao primeiro segundo estávamos de pé, ao segundo estávamos a dançar, ao terceiro estávamos a gritar com ele:

Saibamos ser Nós!

Se nos estivéssemos esquecido do que era estar numa plateia, do que era sentir esta ligação inesperada através da música e da energia que cresce quando estamos todos juntos a partilhar um concerto ou um espectáculo, Dino D’Santiago fez arrepiar uma sala inteira que, com ele, celebrou estar vivo no Teatro Viriato. Não poderíamos começar melhor. Talvez por isso tenhamos sido ambiciosos e tenhamos subido a parada. E decidimos dar o braço ao FORUM Viseu  e abrir temporariamente uma loja no seu piso 0 entre o fitness e o supermercado, para marcarmos encontros fora de horas e fora da nossa casa com os nossos espectadores. Como explicar o que é esta MEIA DOSE que abrimos já quarta feira pelas 12h 30?

Imaginem que, como sempre, vamos a correr ao supermercado para comprar algo embalado, que vamos comer a correr, sentados num banco do centro comercial, enquanto, também a correr, espreitamos nos nossos telemóveis as últimas notícias que já conhecemos. Imaginem que nessa pausa, em vez de nos perdermos mais  uma vez nos comentários das redes sociais, ou de continuarmos a matutar naquele  documento que já não conseguimos (re)ler…. Imaginem que nesse curto espaço de tempo de paragem no dia podemos assistir a um mini concerto, ou ouvri uma pequena conversa, ver um filme que está a passar na nossa loja, ouvir/ler os contos que acompanham a exposição dos desenhos dos telões de Alice Geirinhas, Bárbara Assis Pacheco e Pedro Vieira que desenharam as imagens das nossas três temporadas?  Ou que espreitamos um livro que desconhecíamos e nos sentamos nos belos assentos de uma sala acolhedoramente Pela movecho para nos receber?

É tudo isto o nosso novo espaço! Entre setembro e dezembro 21 a MEIA DOSE estará aberta a todos os visitantes de quarta a domingo, entre as 12h e as 18h. Durante esse período poderá descansar no nosso espaço, ver a nossa exposição, assistir a um vídeo ou ouvir um conto, falar com um dos membros do Teatro Viriato presentes no espaço, consultar a nossa programação, ou só sentar-se para respirar e descansar, ou ainda, acompanhar a nossa programação gratuita elaborada de surpresa e com todo o carinho pelos artistas desta temporada, especialmente para si, que vai a passar, na sua azáfama, e se deixa surpreender por aqueles que desejam conhecê-lo, ou conhecê-la e actuar para si. Porque sim. Porque o encontro e a presença são a maior dádiva que se leva desta vida. São as musas que nos fazem aguentar os dias.

Tudo pode acontecer a cada semana. Para participar, basta lá passar à hora combinada… e entrar!

Contamos com a sua visita?

Boca a Boca #59 – Ser e não estar? Estar e não ser?

Crónica de Patrícia Portela

Ser ou não ser,  

Estar ou não estar 

Ser mas não estar 

Estar sem o ser. 

Hoje estamos ausentes na presença, ligados à corrente, ao telemóvel, à plataforma digital que nos deixa cumprir o horário de trabalho no local da família e do lazer. 

E estamos presentes na ausência, relembrados pelas cadeiras vazias em teatros e cinemas, em jantares e aniversários. Passamos o tempo a pensar que queríamos estar noutro lado, porque longe daqueles que amamos e que estão doentes. Distantes. 

Ser e não estar 

Estar sem o ser,  

Será mais nobre aceitar o infortúnio, resignada. 

Ou insurgir-me contra as provocações e os impropérios, contra as injustiças e as desigualdades? 

Estaremos mais à altura quando vamos à luta 

Ou quando, imóveis, decidimos pôr fim à angústia com o sono, empurrando a dor para o dia seguinte, até à morte? 

Dormir, talvez sonhar, com a presença dos ausentes,  

Com a ausência de um contágio que não convidámos a entrar no nosso estar. 

Ser e não ser 

Estar e não estar. 

Este trimestre convocamos a sua presença – física, grande, pronta, decidida, de todo o ser – no nosso teatro. Queremos ouvir a plateia, aplaudindo, pateando, discordando, acrescentando, sempre, a tudo o que apresentamos. 

Queremos saber a altura e o cheiro do nosso público, como se ri, como entra na sala, se sai a correr ou se fica para conhecer os artistas e dar a sua opinião. 

Queremos conversar. Através da arte e através do encontro, antes e depois de cada espetáculo. 
Porque são as cogitações que constroem os obstáculos e a melancolia, a vontade de escapar ao tumulto da existência através do repouso e da morte. Mas também são, na presença de outro, daquele que de nós difere, o que nos acorda, o que nos faz amenizar o cenário mais negro, o que nos dá coragem para enfrentar todos os males, a irrisão do mundo, 

O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, o desprezo do amor, a insolência oficial, as dilações da lei, a impaciência dos tempos, o mérito imerecido dos traidores. 

É o pensamento que nos acobarda perante a possibilidade da morte, e é esse medo, na companhia de outros que connosco partilham tantas ansiedades, o que nos conduz à possibilidade da ação. 

O teatro é esse lugar onde todas as noites se está para se poder ser, e onde se é tanta coisa, quando não se pode estar em mais lado nenhum. 

Ação, Palavra, Missão. É esta a nossa questão! 

Consulte toda a programação desta nova temporada do Teatro Viriato nos locais habituais. E pode procurar-nos, queremos a vossa presença nas perguntas e nas respostas. 

Boca a Boca #36 – A Tua Presença

Crónica de Patrícia Portela

A partir desta semana, os operadores de telecomunicações podem limitar ou mesmo bloquear o acesso a serviços de banda larga de internet considerados não essenciais. 

O objetivo é dar prioridade e proteger os serviços críticos do Estado, como os hospitais, as forças de segurança, a transmissão de avisos à população ou a distribuição de sinais de televisão linear e televisão digital terrestre. 

O congestionamento das redes é uma preocupação crescente neste novo estado de emergência, e as empresas de telecomunicações, sempre que necessário, podem, a partir de agora, interromper o acesso a plataformas digitais como a Netflix, o Youtube, ou as plataformas de videojogos. Neste grupo de plataformas prescindíveis, podem mesmo estar as plataformas escolares de aulas online ou mesmo o nosso SubPalco que, como tantas novas plataformas, transmite espectáculos, conferências e outras actividades que gostaríamos de partilhar ao vivo. Nesta lista não estão os livros, nem os espectáculos ao vivo que agora ensaiamos mas não podemos partilhar na nossa sala.

O ser humano tem esta tendência para carregar no acelerador quando se vê perante abismo. Parece ser mais difícil dar meia volta e regressar a um lugar onde se pode ser feliz. Preferimos alternativas e sucedâneos que nos entretenham a mudanças de rumo e de fundo para a vida que levamos.

As ruas estão desertas. E os seus habitantes obrigados a recolherem-se em casa, saindo apenas para adquirir os tais bens essenciais (medicamentos e alimentação).  

Dentro de casa, todos nós, de formas mais ou menos obsessivas, procuramos formas de continuar a viajar e a encontrar o que nos faz falta. Através de conversas com os vizinhos, telefonemas intermináveis com amigos distantes, devorando episódios de séries na internet, começando aqueles cursos de yoga ou de culinária online para os quais nunca tivemos tempo antes.

O mundo lá fora grita por uma desaceleração, grita para que notemos o seu desmoronamento, e nós, com saudades desse mesmo mundo, partimos para um outro, paralelo, que nos preencha o espaço vazio que sentimos neste.

Ocupamos um espaço virtual que na verdade não nos satisfaz nem nos pertence e entretemo-nos com sucedâneos anestesiantes que nos relembram, não sem alguma crueldade, do que se passa lá fora. 

Somos um bicho com mais de cinco sentidos que nunca poderá exercitar a sua condição humana na íntegra apenas frente a um ecrã. 

Ocupamos o espaço virtual porque nos é essencial regressar ao espaço físico.

A um jantar a dois, a um passeio a quatro, a um salão de festas a abarrotar, a um concerto numa sala sem cadeiras, a uma performance onde podemos cheirar e sentir as actrizes e os actores, próximos, que para nós representam.

É para esse regresso que continuamos, no Teatro Viriato, a ocupar e a testar espaços de reencontro, acrescentando, a cada peça, a cada obra, mais uma possibilidade, microscópica ou gigante, de uma experiência ao vivo. 

Boca a Boca #15 – Da Boca Para Fora

Na crónica semanal de “Boca a Boca”, Patrícia Portela reflete sobre a natureza da verdade versus realidade em tempos de pandemia, e como esta dinâmica influencia o empenho e a energia com que se constrói um projeto cultural.
Em “À Boca da Bilheteira” reforçamos o convite de subscrição dos “Gráficos da Cidade e das Coisas” de Gonçalo M. Tavares, e partilhamos mais informação sobre como podem efetuar as inscrições no “Summer Lab – Guests Online”.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do episódio.

Crónica de Patrícia Portela – Da Boca Para Fora

Uma afirmação pode não ser correta e ser generalizadamente aceite e até celebrada como solução; basta que seja capaz de se afirmar.

É mais incómodo reconhecer a validade a um facto que se julga não ter acontecido (ou que se deseja que não tenha acontecido) do que acreditar numa mentira que sirva uma convicção. Com inesperada regularidade, construímos histórias paralelas, optamos por rotinas complexas ou evitamos determinados tópicos, só para podermos enfrentar os dias com algum grau de certeza do que somos e do que andamos por aqui a fazer.

Podemos chamar-lhe negação, descrença, indiferença, cinismo, estratégia política, ilusão. Depende da situação e do lugar que ocupamos a cada momento… Não é fácil viver em dias de epidemia e manter uma rotina que nos dita “normalidade”.

A capacidade de ver apenas aquilo em que se crê  é um dos maiores fascínios e uma das maiores tragédias da condição humana. Seja essa crença num Deus, num amante ou numa missão de vida. O que nos leva a perseguir um sonho, uma profissão ou uma forma de estar não é a garantia de que essa escolha seja a melhor ou a mais vantajosa mas sim a possibilidade de a sentirmos como a mais certa. 

A “verdade”, na verdade, nunca foi uma prioridade para o ser humano, e, no entanto, a realidade, secretamente, sempre o foi, sobretudo a da morte, sobretudo a de cada dia. E essa realidade treina-se, disciplina-se, contorna-se, reformula-se, imagina-se, melhora-se.

Penso em tudo isto enquanto estou sentada numa sala onde em breve vou ouvir, discutir e decidir, entre pares, a atribuição de uma bolsa a um novo artista, para um novo projeto , entre setenta e oito candidaturas. Uma decisão que mudará por certo a vida de quem escolhermos (e, inevitavelmente, dos restantes 77), mas também a nossa, que teremos de assumir o resultado. Na sala ao lado, ensaiam São Castro e António M. Cabrita, diretores artísticos da nossa companhia de dança residente. Treinam arduamente o gesto que ainda desconhecem e que irão partilhar connosco em novembro, na estreia da sua nova peça intitulada “Sinais de Pausa”. No palco, mais tarde, estará a equipa inteira do Teatro a receber uma formação em primeiros socorros. De uma perna partida à falta de ar (ou de ideias), estaremos todos preparados para acolher todo o tipo de espectadores e de artistas nesta casa, na próxima temporada.

Uma afirmação pode não ser correta e ser aceite, sendo celebrada e até espalhada como solução; mas uma ação necessita de energia, de impulso e de mestria para se concretizar da melhor maneira. Energia e vontade, que pertencem aos audazes, aos lutadores e aos que, mesmo no mais negro dos cenários, acreditam no que fazem e acreditam que o que fazem deve ser partilhado com o próximo. Trabalho num desses lugares, cheios de audazes, onde essa chama olímpica arde. Chama guardada pelas musas, é certo. Cuidada, felizmente, por Hígia, deusa da saúde e sanidade. Mas sobretudo acesa e a vibrar, graças àqueles que não afirmam, apenas, não sonham, apenas, mas fazem, constroem os nossos dias, mesmo que, por vezes, essa construção nos pareça invisível.

À Boca da Bilheteira

Este mês, fechamos esta temporada da melhor maneira: O Teatro Viriato e a Companhia Paulo Ribeiro promovem o “SUMMER LAB – Guests Online”. De 13 a 17 de julho os bailarinos e coreógrafos Cyril Baldy, Kristian Lever, Barbara Griggi, Hugo Marmelada e Sadé Alleyne (Akram Khan Company) partilham, através da plataforma Zoom, linguagens, metodologias e técnicas de dança, numa aula diária, das 18h00 às 19h30.

As inscrições para este programa de formação em dança online estão abertas até dia 06 de julho.

Cada aula está limitada a 25 participantes, por isso, faça a sua inscrição atempadamente. 

No dia 18, regressamos ao Museu Nacional Grão Vasco com Leonor Barata para a última visita guiada “Às Cegas” desta temporada. Os bilhetes estão disponíveis na BOL e na nossa bilheteira.

Esta semana, o conjunto de “Gráficos da Cidade e Das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares, traz-nos tabelas, inquéritos e diagramas que exploram temas como as razões para a impureza do mundo, a utilidade de um tremor de terra ou a melhor localização para um farol.

Conheça esta nova criação na íntegra em http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog e faça a sua inscrição

junto da nossa bilheteira. Todas as segundas feiras, pelas 18h00, serão publicados novos conjuntos de gráficos, símbolos ou tabelas para imaginar outros mundos possíveis e pequenas histórias humanas.

Se está ansioso por espreitar o futuro, pode também começar a planear uma visita ao Teatro Viriato para assistir a um dos espetáculos que foram adiados para a próxima temporada. Já pode comprar bilhetes para Aurora Negra, de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema e para os concertos de Dino D’Santiago ou de Luís Lapa. Os bilhetes estão disponíveis na BOL e na nossa bilheteira.

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do email bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110.

Não se esqueçam: Mesmo quando a montanha pode descer até ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se até à montanha. E entre estes dois movimentos, descobriremos novas formas de estarmos juntos, de desfrutarmos a vida em conjunto e de criarmos novas possibilidades de vislumbrar quem somos e para onde vamos, a cada etapa deste caminho. Assistindo a uma peça num palco. Lendo um gráfico que nos altera a percepção dos dias,  espreitando uma peça no subpalco online, recebendo em casa um postal, um telefonema e, muito em breve, um novo programa para uma nova temporada cheia de curiosas propostas.

Saudações viriáticas e até para a semana.

“Boca a Boca”
podcast do Teatro Viriato
Crónica “Boca a Boca”: Patrícia Portela
“À Boca da Bilheteira”: Liliana Rodrigues
Genéricos: Pedro Pires
Jingles: Nuno Veiga e Virgílio Oliveira
Edição: Zito Marques
Parceria: Rádio Jornal do Centro
Produção: Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Viseu

Boca a Boca #14 – Sócrates ou a Dança do que não se sabe

No “Boca a Boca” desta semana, a crónica de Patrícia Portela recorda o filósofo Sócrates para nos lembrar que a sabedoria será sempre alimentada pelo convívio com o que se desconhece.
No segmento “Na Boca do Mundo” Albino Moura fala-nos das apresentações das provas de aptidão artística dos alunos da Escola de Dança Lugar Presente, que acontecerão no Teatro Viriato.
Em “À Boca da Bilheteira” apresentamos-lhe a formação em dança “SUMMER LAB – Guests Online”, entramos no nosso palco com os alunos finalistas da Escola de Dança Lugar Presente e regressamos ao nosso blogue para consultar os “Gráficos da Cidade e das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do episódio.

Crónica de Patrícia Portela – Sócrates ou a Dança do que não se sabe

Este homem já tinha percorrido o mundo inteiro antes de chegar ali. Ou pelo menos assim o sentia. Já tinha feito muito, discutido muito, discordado muito, aprendido muito, mas queria saber mais. Não lhe parecendo valer qualquer das soluções encontradas para os problemas colocados, o homem determinou que era mais sensato parar.

E assim o fez. Ficou onde estava, a pensar, o dia inteiro, de pé, sem se mexer, frente a uma árvore. A sua concentração era tanta que conseguia ouvir, dentro do seu pensamento, o mundo inteiro a mover-se. 

Antes de retirar qualquer conclusão, teve o homem tempo de rever a sua longa caminhada até ali. A sua e a de tudo o que se movera com ele até ali. Lembrou-se do oráculo que lhe dissera que ele era o bicho mais sábio do mundo. E como ele acreditou que os deuses não mentiam, partiu à descoberta da sua própria sabedoria pois não a conhecia; quando se deitava à noite, era atormentado pela incerteza e pela dúvida porque, no fundo, sabia que não sabia assim tanto. Lembrou-se do momento em que decidira parar, e de como, após um longo tempo parado, decidira voltar a falar. E partiu de novo. Procurou o ser humano mais sábio de todos e percebeu que  não era assim tão sábio. Decidiu ir falar com um poeta – e também ele não era assim tão sábio. Foi falar com um político, com um governante – e também eles não eram sábios. Decidiu falar com um economista, com um arquitecto, com um médico, e concluiu, com mais desapontamento do que desilusão, que, afinal, ele era o mais sábio de todos. Simplesmente porque sabia que nada sabia, enquanto todos os outros, que sabiam muito, eram inconscientes do seu não saber. Invadiu-o uma felicidade que há muito esquecera. E ali mesmo decidiu que iria ensinar o que não sabia a toda a gente. Que em vez de dar respostas faria perguntas, em vez de certezas lançaria dúvidas, suposições, possibilidades.

Tantas perguntas fez, que arranjou, o homem, muitos inimigos, todos ilustres e poderosos conhecedores das mais variadas matérias, mas todos incomodados com a ideia de alguém sem pedigree poder questionar a sua sabedoria. E porque podiam, prenderam o homem e condenaram-no à morte. E a morte era tema sobre o qual sabia ainda menos do que tudo o que não sabia da vida. Bebeu um copo com uma infusão de flores, fez uma última homenagem a Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade, e fechou os olhos. 

O que terá aprendido com a sua morte não se sabe, mas deixou viva esta vontade de conviver com o que se desconhece. Talvez por isso, hoje, o teatro, filho das musas mas também da filosofia, seja o lugar mais apropriado para se aprender com os que desconhecem e por isso sabem mais do que nós. Talvez por isso, hoje, o Teatro Viriato, alinhado com todos aqueles que preferem perguntar a responder, convide a escola de dança Lugar Presente a habitar o seu palco e a apresentar as provas de aptidão artística dos seus finalistas. 

Os nossos futuros mestres são aqueles que nos fazem perguntas às quais não sabemos ainda responder. E é para o que ainda não sabemos que queremos caminhar. 

Na Boca do Mundo

Albino Moura sobre a Escola de Dança Lugar Presente

Esta quinta-feira iremos apresentar as provas de aptidão artística dos nossos alunos finalistas da Escola de Dança Lugar Presente. Este ano são dois finalistas que terminam o 12º ano do curso secundário de dança e é um privilégio esta relação com o Teatro Viriato, no sentido em que as apresentações destas provas em contexto real, em contexto profissional de apresentação dos espetáculos é de facto uma situação ideal para finalizar um curso deste tipo.

Eu penso, e nós pensamos, que é uma situação muito rara existir, nomeadamente no país, esta relação entre um teatro profissional e uma escola de dança que beneficia muito os nossos alunos e tem beneficiado os nossos finalistas em particular, mas também todos os nossos alunos porque podem assistir regularmente a espetáculos de dança, de teatro, de música e, portanto têm uma formação também como públicos das várias áreas que acompanha a sua formação na área da dança e, portanto é de facto um privilégio e nós estamos muito felizes por ter estas condições.

Estas apresentações são o culminar de um trabalho que é feito ao longo do ano. Portanto, estas provas são constituídas por uma prova de interpretação de uma coreografia já existente, de um coreógrafo à escolha dos alunos, e de um trabalho de composição que é feito pelos próprios alunos a partir de um tema, que eles próprios decidem, desenvolvem e depois projetam numa coreografia que é explorada ao longo do ano, terminando numa apresentação pública em contexto profissional, portanto neste caso no Teatro Viriato, onde também terão que defender por escrito e com uma prova oral, incluindo uma apresentação de um PowerPoint onde defendem todo o seu trabalho e toda a sua, digamos, tese de exploração.

Este ano temos dois alunos finalistas, o Tiago e a Mafalda que têm percursos muito diferentes. A Mafalda começou na nossa escola com três anos de idade, portanto muito pequenina. O Tiago começou mais tarde. Começou com treze ou catorze anos, no oitavo ano, teve ali um intervalo em que foi para Lisboa por razões familiares e também teve uma experiência no Chapitô, nas artes circenses, portanto, ele está um bocadinho dividido entre a dança e o circo. Mas são ambos alunos muito especiais.

Estes alunos têm já, com base nas suas pretensões, têm já algumas ideias de como é que vão prosseguir os estudos. No caso da Mafalda, em princípio ela irá para a Escola Superior de Dança, já tentou algumas escolas no estrangeiro e ainda está à espera de resposta, mas com certeza que terá entrada na Escola Superior de Dança, como tem acontecido até a alguns alunos dos nossos cursos secundários dos últimos anos. No caso do Tiago, ele eventualmente irá prosseguir mas na área do circo que é uma área que o fascina também bastante e já fez provas para isso e, portanto, em princípio irá para uma escola dentro dessa área. Em termos de carreira penso que a escola tem feito um trabalho adequado que lhes permite prosseguir tanto os estudos como iniciar uma carreira e eles têm aproveitado bem essa oportunidade.

Gostava ainda de referir que estas provas têm na sua composição um júri externo e interno. O interno é formado por docentes da nossa escola e pela direção e o júri externo são pessoas que normalmente convidamos de vários setores. Neste caso vamos ter a Patrícia Portela, que é a Diretora Artística atual do Teatro Viriato, temos a Leonor Keil que é a Diretora Artística do Festival “Lugar Futuro” e o João Fernandes que é um dos membros da direção da Escola Superior de Dança. Portanto, este ano temos um painel bastante diversificado que eu penso que será uma mais valia para a avaliação dos nossos finalistas.

Termino só desejando boa sorte para os nossos finalistas e esperando que corra tudo bem e certo que irão ter um futuro que corresponde às suas expectativas porque são ambos alunos muito especiais e penso que vão ter a maior sorte na suas carreiras e desejo-lhes as maiores felicidades.

À Boca da Bilheteira

Este verão, a formação em dança regressa ao Teatro Viriato mas, desta vez, através da plataforma zoom com “SUMMER LAB – Guests Online”. 

Ainda que a realização presencial do “SUMMER LAB” tenha sido adiada para 2021, entre os dias 13 e 17 de julho acolhemos um conjunto de aulas diárias com os formadores que integravam o programa de formação em dança deste ano: Cyril Baldy, Kristian LEver, Barbara Griggi, Hugo Marmelada e Sadé Alleyne (da Akram Khan Company).  A cada dia, entre as 18h00 e as 19h30, serão explorados: o método de improvisação de William Forsythe, a linguagem de movimento e pedagogia Gaga desenvolvida por Ohad Naharin, o repertório da Akram Khan Company, mas também outros estilos de dança de presença regular no “SUMMER LAB”, como Laboratório Coreográfico ou Dança Clássica.

As inscrições estão abertas até dia 06 de julho, e cada aula está limitada a 25 participantes, por isso, faça a sua inscrição atempadamente. 

O “SUMMER LAB – Guests Online” é um iniciativa do Teatro Viriato e da Companhia Paulo Ribeiro.

Amanhã, dia 25 de junho, será também a dança que ocupará o nosso palco, com as provas de aptidão artística dos finalistas da escola Lugar Presente. Por algumas horas, o palco será dos alunos que se apresentarão perante um júri e seus convidados. 

Chegados à quinta semana de “Gráficos da Cidade e Das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares, analisamos razões para um ser vivo se apaixonar ou o grau de sensatez na cabeça em diferentes situações quotidianas. Estarão estas questões relacionadas? 

Para saber, e conhecer na íntegra esta nova criação, faça a sua inscrição junto da nossa bilheteira e aceda a http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog. Todas as segundas feiras, pelas 18h00, serão publicados novos conjuntos de gráficos, símbolos ou tabelas para imaginar outros mundos possíveis e pequenas histórias humanas.

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do email bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

Não se esqueçam: Agora a montanha pode descer até ao teatro, mas o Teatro continuará a deslocar-se até à montanha. E entre estes dois movimentos, descobriremos novas formas de estarmos juntos, de desfrutarmos a vida em conjunto e de criarmos novas possibilidades de vislumbrar quem somos e para onde vamos, a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

Boca a Boca – episódio 14
podcast do Teatro Viriato
Crónica Boca a Boca 
Patrícia Portela
Na Boca do Mundo Albino Moura sobre a Escola de Dança Lugar Presente
À Boca da Bilheteira Liliana Rodrigues
Genéricos 
Pedro Pires
Jingles Nuno Veiga e Virgílio OliveiraEdição Zito Marques
Parceria Rádio
 Jornal do Centro
Produção Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Vise

Boca a Boca #13 – A Minha Vida por um Zombie

No décimo terceiro episódio do “Boca a Boca”, a crónica de Patrícia Portela reflete sobre o papel dos que se deparam com uma sociedade no limite e se atrevem a imaginar uma outra realidade, e questiona: “quando o escritor executa a tarefa hérculea de reimaginar o mundo fá-lo por necessidade de procurar a mudança, ou fá-lo porque não tem como não o fazer?”
No segmento “Na Boca do Mundo” ouvimos Alex Cassal, que nos dá o contexto do momento da sua vida em que escreveu “Ex-zombies: uma conferência”, o texto que será encenado e interpretado na oitava edição de Noite Fora.
Em “À Boca da Bilheteira” falamos-lhe de noites no Teatro Viriato, de segredos partilhados dentro de armários, sobre visitas guiadas e gráficos que nos desafiam a imaginar novos mundos possíveis.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do Podcast.

Crónica de Patrícia Portela – A Minha Vida por um Zombie

Um grupo de cientistas franceses, num centro de controlo de doenças contagiosas, está muito próximo de encontrar a cura para zombies, mas uma “falha de energia” não permite avançar na pesquisa. Sem acesso a eletricidade, todos os aparelhos no laboratório deixam de funcionar e, por razões de segurança, o edifício prepara-se para se autodestruir em 1 minuto e, com ele, o futuro da humanidade. Um dos cientistas, sem poder sair, comenta com os outros antes de morrer: 

– Quem é que teve esta tão estúpida ideia de alimentar computadores a energia fóssil?

Estes eram os últimos minutos do sexto e último episódio da primeira temporada da série norte-americana “Walking Dead”, em 2010, uma série baseada no livro gráfico com o mesmo nome, de Robert Kirkman e Tony Moore.

Surgem sempre mortos-vivos, vampiros, fantasmas ou extraterrestres todo-poderosos quando a sociedade parece atingir um limite. Como em 1815, após a erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, que colocou a Europa às escuras e lançou Mary Shelley na escrita de “Frankenstein” e John William Polidori na escrita de “O Vampiro”, ambos a pernoitar em Villa Diodati, no lago de Genebra. Como em 1897, quando Bram Stoker imagina “Drácula” a partir da história e da geografia de uma região como a Transilvânia e revela uma escuridão imensa por trás das glórias industriais da era vitoriana. Ou ainda como em 1968, onde “A Noite dos Mortos-Vivos” se filma durante a revolução Flower Power nos Estados Unidos e a revolta dos estudantes em França. Ou como hoje, dia em que sobe ao palco do Teatro Viriato a leitura encenada de “Ex-Zombies: uma conferência”, de Alex Cassal. A emigração forçada, as alterações do clima, o pré e o pós-apocalipse, são alguns dos temas regulares deste dramaturgo e encenador brasileiro a viver em Lisboa. 

A tarefa daquele que escreve é captar o que há de virtual no atual, compreender o que já lá está mas ainda não é visível, criticar a sociedade presente. Mas quando o escritor executa a tarefa hercúlea de reimaginar o mundo, fá-lo por necessidade de procurar a mudança ou fá-lo porque não tem como não o fazer? E o que escreve tem impacto naquele que lê?

Numa das últimas entrevistas feitas a Fidel Castro perguntaram-lhe:

Se lhe dessem a escolher entre escrever a obra da sua vida e com ela mudar o mundo dramaticamente, sem que o mundo alguma vez soubesse quem tinha promovido essa mudança, ou ser considerado o melhor escritor do seu tempo, tornar-se famoso, escrever obras-primas lidas por muito poucos mas consideradas por muitos como um retrato rigoroso da sociedade como ela é mas sem a alterar, o que escolheria? 

Alex Cassal talvez respondesse: mais do que saber onde estamos ou para onde vamos enquanto escrevemos, “é importante escolher ao lado de quem queremos estar”. Presentes. Fisicamente. Apesar de uma pandemia. 

Venha ler o mundo pelo olhar de Cassal. Quem sabe, pode chegar a casa com um antídoto contra a atitude contagiante de carregar o seu telemóvel na corrente elétrica para ver mais uma série na Netflix. Mas antes contagiado, sim, pelo encontro com as musas e com Hígia, deusa da saúde, limpeza e sanidade, para muitos também chamada de Lua, que hoje, se reparar, está quase nova.

Na Boca do Mundo

Ex-zombies: uma conferência”, por Alex Cassal

Comecei a escrever este texto em 2016, depois de estrear um espetáculo sobre três refugiados à deriva numa balsa no meio do mar Mediterrâneo que passam o tempo a imaginar “As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. Eu próprio era mais um migrante recém-chegado à Europa e via por todo o lado sinais de que as pessoas estavam a armar-se com cacetes para enfrentar ameaças desconhecidas. 

Era como se estivéssemos a viver numa das distopias cinematográficas que marcaram a minha adolescência: nós contra extraterrestres invasores, nós contra robôs assassinos, nós contra macacos falantes, nós contra mutantes deformados. Nenhuma possibilidade de acordo, apenas a destruição (o mais das vezes mútua). 

Agora, quatro anos depois, os números de africanos e árabes mortos no mar Mediterrâneo (e ao redor do mundo) continuam a crescer, bufões fascistas como Trump e Bolsonaro inundam as manchetes dos jornais com mentiras, o aquecimento global já é uma realidade inegável. E uma pequena pandemia mostrou-nos como o nosso modo de vida pode mudar de um momento para o outro. Não sei se estamos no pré ou no pós-apocalipse. Mas sei que estes são tempos em que devemos escolher ao lado de quem queremos estar.

À Boca da Bilheteira

Esta noite, pelas 21h30, a nossa sala recebe a oitava edição de “Noite Fora: Leitura e Conversas sobre Teatro”, um projeto do Teatro Viriato e Sónia Barbosa que, desta vez, convida o encenador Alex Cassal para conduzir a sessão.

“Ex-Zombies – uma conferência”, da autoria de Alex Cassal será o texto encenado e interpretado por Guilherme Gomes, Leonor Barata, Roberto Terra e Sónia Barbosa. Uma obra que reflete sobre temas como a alteridade, a xenofobia, a tortura e a banalização do mal.

No próximo sábado, dia 20, a companhia Amarelo Silvestre convida-nos a “entrar” num guarda-fatos montado  no palco do nosso Teatro. Através de uma videochamada, assistimos a “Guardar Segredo”. Um conjunto de espetáculos que serão apresentados ao longo de cinco horas. Cada espetáculo terá apenas um espectador, a medida certa para se presenciar um segredo. O que se irá passar lá dentro é coisa que não deve ser sabida por mais ninguém. 

Também no sábado, às 16h00, regressamos à coleção do Museu Nacional Grão Vasco, com “Às Cegas”, de Leonor Barata. Uma visita sensorial para conhecermos os Tesouros Nacionais e Acervo do museu sem o vermos. 

E como tem sido habitual, a próxima semana começará com “Gráficos da Cidade e Das Coisas”. Todas as segundas-feiras, pelas 18h00, a nossa Sala de Ensaios digital, o blogue do Teatro Viriato, permite partilhar, na íntegra, esta nova criação de Gonçalo M. Tavares. Não perca o quarto conjunto de gráficos, já publicados, basta inscrever-se junto da nossa bilheteira e aceder a http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog. 

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do e-mail bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

E não se esqueçam: Ainda que a montanha desça ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se à montanha. E entre estes dois movimentos encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

Boca a Boca #12 – As Pedras Dançam por Dentro

No Boca a Boca desta semana, a crónica de Patrícia Portela remete-nos para a adolescência, para lembrar pessoas e projetos que, mesmo quando tudo parece estar do avesso, nos ajudam a ser quem somos.
Na Boca do Mundo apresentamos o projeto PEDRA pelas vozes de Vera Mantero, coreógrafa convidada desta terceira edição, Leonor Barata, coreógrafa assistente no Teatro Viriato e alguns dos participantes de Viseu, Lisboa e Porto.
Em À Boca da Bilheteira reforçamos o convite para assistir à apresentação de PEDRA no nosso SubPalco, falamos-lhe sobre o regresso de Noite Fora com o encenador Alex Cassal e lembramos que, todas as segundas-feiras, pode acompanhar Gráficos da Cidade e das Coisas, de Gonçalo M. Tavares.
Boca a Boca 
é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do podcast.

Crónica de Patrícia Portela – As Pedras Dançam por Dentro

Alguém, como eu, ou tu, acaba de celebrar 16 anos quando o mundo, lá fora, furioso e sem aviso, lhe puxa o tapete e lhe mostra que não é o que sempre foi, como aliás, há muito já se suspeitava. 

Alguém, como tu, ou como eu, passa agora o seu tempo fechado no quarto por causa de um vírus. Não passa as quartas-feiras com os avós nem as sextas-feiras com os amigos do skate. A pessoa que mais vê acaba por ser aquela professora, de olheiras até ao queixo, que, sem conseguir disfarçar as recorrentes insónias, crasha à tua frente, no ecrã do computador, enquanto te dá uma aula sobre uma matéria em que nenhum dos dois, neste momento, acredita. 

Alguém, como tu, ou como eu, de 16 anos, fechado num quarto, conclui que ninguém o deixa fazer nada do que o faz feliz, e que todos fazem questão de o obrigar àquilo que, tem a certeza, não lhe vai fazer falta nenhuma nem para concretizar os seus sonhos, nem para amar, nem para ser melhor pessoa. 

Já nem faz sentido trancar-se no quarto como forma de protesto. 

Há uma diferença entre não poder sair e não querer sair. E alguém, como tu, ou como eu, está agora fechado à chave num castigo sem culpa. E telefona todos os dias quando acorda àquele amigo com quem começou mesmo há dias a jogar à bola. E passa a noite a conversar com aquela amiga que fez já depois da pandemia, numa reunião de um projecto estranho, com um nome estranho, sobre uma dança estranha. Um projecto que juntou, em abril passado, muitos alguéns como tu, ou como eu, de Viseu, de Lisboa, e do Porto, mesmo com um vírus pelo meio a querer estragar tudo. 

– Onde já se viu uma pedra dançar?! – Estranhaste tu, em Viseu, antes de começares os ensaios a partir do repertório da coreógrafa Vera Mantero. – As pedras dançam por dentro – esclareceu ela, que já participava no projecto pela segunda vez. 

E por vezes precisamos só disto, não é? De alguém que nos ajude a ser quem somos, mesmo quando estamos obrigados a ser quase nada, fechados num quarto, a tentar dançar por dentro. 

Durante dois meses e meio desarrumámos esse quarto sem tapete, fizémos do chão um palco, e colocámos a música no máximo (e os auriculares). O resultado são três vídeos fora da caixa. 

PEDRA foi um projecto com a duração de três anos que teria terminado com um grande encontro em Lisboa. Dadas as circunstâncias, só terminará quando os participantes assim o entenderem. 

E enquanto houver musas e hígias, deusas da limpeza, da sanidade e da saúde, haverá sempre pedradas no charco. Venham ver o resultado, e participem na conversa de 14 de Junho, pelas 18h nas plataformas digitais da Culturgest, em Lisboa, do Teatro Municipal do Porto, no Porto, e do Teatro Viriato em Viseu. 

Até já!

Na Boca do Mundo

Projeto PEDRA pela coreógrafa Vera Mantero, pela voz dos participantes e pela coreógrafa e assistente em Viseu Leonor Barata, via Zoom

Vera Mantero

Eu fiquei muito contente quando me convidaram para o PEDRA porque me parece muito importante que haja pessoas destas idades que contactam com a dança contemporânea. Fiquei muito contente por poder também – como já tinham feito a Clara e o Francisco – participar nesta aventura. Também é preciso ver que dentro dos grupos há pessoas com experiência e pessoas sem experiência e isso cria mais um lado aventureiro, porque toda a gente tem que se adaptar às diferentes experiências de cada um.  Depois este nosso PEDRA atravessou uma ocasião histórica – que ninguém que nós conheçamos tenha alguma vez atravessado e que nós não sabemos quando se irá atravessar outra vez –  e de repente ficámos neste isolamento e para mim foi muito interessante a forma como fomos passando para este formato que vamos apresentar no dia 14, porque foi uma descoberta gradual. E uma das coisas que ajudou a caminharmos para este formato foi o facto de alguns alunos terem ficado com trabalhos para fazerem em casa, que iriam mostrar na próxima aula, nos estúdios, e como ficaram sem poder sair de casa começaram a enviar esses trabalhos de casa por vídeo. E isso foi uma coisa muito importante de ter acontecido e muito reveladora e despoletadora de começarmos a achar que este projeto tem uma hipótese à distância, tem uma hipótese em imagem e vídeo, tem uma hipótese online. 

Leonor Barata

O PEDRA é um projeto absolutamente fundamental no panorama artístico na área da dança porque permite esta ideia de cruzar linguagens com adolescentes, ou seja, a criação artística passa para eles, sendo mediada por um contexto que tem a ver com o coreógrafo que é escolhido – que este ano é a Vera – mas também por esta possibilidade de praticarem com os seus próprios corpos e reinventarem com os seus próprios corpos um património que já é da nova dança portuguesa e, portanto, esta ideia de partilhar com eles um passado que já não é deles, mas que se vai tornando deles, que eles se apropriam dele, é muito importante, parece-me.

Participantes

– Para mim o PEDRA é uma grande pedra que se deconstrói em pedacinhos e esses pedacinhos somos nós. E somos leves e flexíveis porque podemo-nos juntar à pedra grande, a pedra mãe. E é isso para mim, o PEDRA somos todos nós. 

– O PEDRA está a ser uma experiência fantástica e eu tenho a certeza que assim o será até ao final. Mesmo com estes obstáculos do corona vírus.

– O PEDRA é renovação e imaginação. 

– Sair da caixa, sim, sair da caixa. Foi isso que o projeto PEDRA me trouxe. Aprender a ver a dança de outra forma, comunicar através da arte e romper todas as suas barreiras convencionais e descobrirmos a nossa identidade através das emoções sentidas. Sair da caixa, sim, sair da caixa. 

À Boca da Bilheteira

Este domingo, convidamos todos aqueles que estão em casa a acompanhar-nos na apresentação final de PEDRA – Projeto Educativo em Dança de Reportório para Adolescentes

Passados 3 anos chegamos ao fim deste projeto coproduzido pelo Teatro Viriato, a Culturgest e o Teatro Municipal do Porto, desta vez, online, através do nosso SubPalco, das redes sociais da Culturgest e do Teatro Municipal do Porto. 

No dia 14 de junho, pelas 18h00, será transmitido um encontro nacional com a apresentação do exercício final de cada grupo e uma conversa entre Vera Mantero, a coreógrafa convidada desta edição, os coreógrafos assistentes – Henrique Furtado Vieira, Vera Santos e Leonor Barata – e os participantes. A conversa será moderada por Pedro Santos Guerreiro.

Já no próximo dia 17 de junho, voltamos a uma produção que nos traz muitas memórias felizes: Noite Fora. Desta vez, a leitura encenada terá lugar na nossa sala de espetáculos e Alex Cassal como encenador convidado, que nos apresenta um texto da sua autoria: Ex-Zombies – uma conferência. Leonor Barata, Sónia Barbosa, Guilherme Gomes e Roberto Terra serão os intérpretes. 

Às segundas-feiras continuaremos na companhia de Gonçalo M. Tavares e Gráficos da Cidade e das Coisas na nossa Sala de Ensaios, o blogue do Teatro Viriato, que pode conhecer através do endereço http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog.

Para reservar um lugar na plateia para Noite Fora ou para ter acesso a Gráficos da Cidade e das Coisas contacte a nossa bilheteira através do e-mail bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

E não se esqueçam: Ainda que a montanha desça ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se à montanha. E entre estes dois movimentos encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.