Sobre o espetáculo “Framework”, de Mário Afonso, pela espectadora Cristina Reis

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“Convite para ir ao teatro. Bora lá!

Na maioria das vezes não sei o que vou ver, muito menos quem vou ver, mas isso não me impede de beber tudo, sem deixar um pingo perdido desse néctar a que teimosamente chamamos arte como ideal estético, transgressor, que expõe ao mundo uma visão crítica que nem sempre é a agradável parte da realidade, e não falo do corpo nu, que o tempo não perdoa em transformar, mas sim do mundo das ideias.

Mário Afonso, coreógrafo e intérprete de “Framework” desenvolveu a sua performance, mantendo uma linha condutora entre as diferentes linguagens (corpo, escrita/grafismos e espaço), deambulando entre o nu real e o “pôr a nu”, numa dimensão intelectual, estabelecendo assim, a primeira dualidade de pensamento.

A nudez, física e real, foi a “porta de entrada” para “o pôr a nu”, metáfora ideológica, que nos remete para uma dimensão intelectual, considerando-se desta forma, que a nudez é parte acessória para captar a nossa atenção. Creio que essa terá sido a verdadeira intenção do autor, intérprete e protagonista, que contracenou com o seu público, “pondo a nu” as fragilidades e inquietudes da vida real.

Nesta contracena, incessante e em “looping”, Mário Afonso inscreveu-nos e convocou-nos para fazer um exercício de pensamento simples de um tema complexo – não terá cada um de nós de “pôr a nu”, num exercício de desconstrução do próprio sentido da vida, as nossas fragilidades, opiniões, conceitos, interesses, entre muitos outros valores éticos e morais? Não estamos muitas vezes confortavelmente “vestidos” de ações pré-estabelecidas e por isso aceites e incontestáveis? Se nos despirmos de pré-conceitos, estereótipos, caixas e outras balizas não somos mais nós, com todas as fragilidades, medos, angustias e realidades desprovidas de hipocrisias? Convoquem-se novos olhares, novas janelas de pensamento e novos discursos.

Não existem tábuas rasas, nem quadros brancos. Mesmo quando somos concebidos, o ser unicelular carrega a matriz genética dos progenitores. Nada é branco, no sentido de pureza, de descontaminação. Nascemos e vivemos contaminados e, por isso, a importância de “pôr a nu”. Para Kant a arte estética é o sentimento do prazer, não apenas o prazer ligado às sensações, mas também ao prazer da reflexão. Essa foi a provocação feita por Mário Afonso.

– Dispam-se e escrevam vezes sem conta no quadro branco das vossas vidas, apesar de ser arriscado e pesado. Construam-se e desconstruam-se vezes sem conta.  Gritem bem alto para acordar os pensamentos interiores”

Cristina Reis
Viseu, 15 de Janeiro de 2022

Judith Teixeira

(Vila Meã, 15 de outubro de 1922 — Porto, 3 de junho de 2019)

por Rosário Pinheiro


Embriaguei-me
num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago … no indeciso
Não me encontro, não me vejo –
Perscruto a imensidade
E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!
Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

JUDITH TEIXEIRA

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Porto, 6 de novembro de 1919 — Lisboa, 2 de julho de 2004)

por Rosário Pinheiro



A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha paiticipação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia a qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.

E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Hilda Hilst

(Jaú, São Paulo/Brasil 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo/Brasil, 4 de fevereiro de 200

por Beatriz Rodrigues

Hilda Hilst



Te amo como as begônias tarântulas amam seus congêneres, como as serpentes se amam enroscadas lentas algumas muito verdes outras escuras, a cruz na testa lerdas prenhes, dessa agudez que me rodeia, te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade.

HILDA HILST