Boca a Boca #63 – A Presença e o Presente (em Natureza Fantasma) 

Crónica de Patrícia Portela

O que fascinava Roland Barthes numa fotografia era o facto de tudo o que se via nela ter acontecido. Corpos reais em lugares reais cumprindo ações reais num tempo e espaço reais eram capturados por olhos mecânicos e podiam ser revisitados infinitamente quando só tinham acontecido uma vez. A fotografia repete na imagem aquilo que não se pode repetir na existência. É a presença da ausência, tal como os raios de luz de estrelas há muito emitidas no universo e só agora visíveis, diria Sontag. No século que inventou ao mesmo tempo a história e a fotografia, olhava-se para uma imagem fotográfica e sabia-se que determinada realidade já tinha existido. 

Hoje não é bem assim. Hoje temos a manipulação da imagem e a sua transmissão e difusão em direto e em diferido, dentro e fora de contexto. Hoje temos o Deep Fake e a rede de histórias quotidianas que descrevem os nossos dias resulta da compra, venda, montagem e colagem de bocados de imagens, umas reais outras fabricadas, histórias que nos conduzem a viver por vezes mais do que uma vida em paralelo: a que o corpo sente e se obriga, voluntária ou involuntariamente, e a que construímos para nos mostrarmos aos outros. 

Foi num tempo que tem na fotografia múltiplas realidades existentes e não existentes que uma pandemia ceifou a presença imediata nos palcos um pouco por todo o globo. E foi nesse mesmo contexto que Marco Martins convocou a fotografia enquanto memória e como presença de uma realidade só que já existiu (bem ao jeito de Roland Barthes em Câmara Clara) e criou a instalação “Natureza Fantasma” para a Companhia Maior.   

A Companhia Maior é um projeto de artes performativas desenvolvido por artistas séniores e que, anualmente, desde 2010, convida um artista ou um coletivo por ano a criar uma obra original  — Pedro Penim, Jorge de Andrade, Sofia Dias e Vítor Roriz, Mónica Calle, Joana Craveiro ou Tiago Rodrigues foram já alguns dos artistas convidados. 

Em 2020 o convite foi endereçado a Marco Martins. E em março do mesmo ano, uma pandemia pôs em causa a natureza dos espetáculos ao vivo e considerou a maior idade um grupo de alto risco. As impossibilidades pareciam muitas e pertinentes, mas as questões que o projeto levantava, exigiam respostas mais urgentes: Que sociedade é esta que isola os mais velhos? Em que sociedade nos tornamos quando deixamos de velar os mortos? O que somos quando aceitamos a suspensão do tempo para que o tempo passe sem nós? E que espectáculo se pode fazer para continuar a convocar a presença no tempo presente? Até onde vai o compromisso, até onde pode ir a transformação de um objecto sem desvirtuar a vontade e a paixão que o originaram? 

Marco Martins decide conversar. Decide descobrir e pensar as realidades de cada um dos seus intérpretes através de velhos álbuns de fotografias de família. Inicia um processo de combustão entre as histórias que ouve e as fotografias que todos podemos ver. Marco Martins converte memórias privadas em fantasmas coletivos e descobre o ouro indispensável de que as artes vivas são feitas: A presença no presente. A confusão, neste caso necessária, entre o Real e o Vivo. Através da emoção, da recordação e do encontro: com o passado, com os outros e com que ainda está para vir. 

Afinal, ainda há muitas maneiras de se habitar um espaço que reclama distância. Há muitas formas de estarmos colados uns aos outros por corpos intangíveis e no entanto muito reais. A fotografia e a imagem em movimento são um encontro com esses corpos. 

Tal como Roland Barthes olhava uma fotografia de 1852 do irmão mais novo de Napoleão e se deslumbrava com a ideia daquele olhar já ter olhado para o Imperador, também nós em “Natureza Fantasma” olhamos para pessoas que já olharam para os intérpretes e criadores desta peça, que já conviveram ou ainda convivem com quem tem agora voz nesta instalação. 

Ou seja, Marco Martins reinventa a presença no teatro convocando a sua mais antiga missão: o ritual de passagem entre a vida e a morte através da convocação da presença dos nossos fantasmas. E tudo isto perante a ausência de um tempo de acção presente que se viveu em 2020 e 2021. Haverá algo mais crucial no Teatro do que a sua eterna relação com o culto da vida mas também da morte?  

Foi uma felicidade do destino ver-me atravessada no percurso desta obra que me caiu no regaço quando cheguei ao Teatro Viriato. Aquilo que começou por ser uma co-produção que previa uma companhia com duas dezenas de actores em palco, transformou-se num clássico grego com centenas de figurantes e intérpretes que transformam a garagem no piso -3 do parque de estacionamento do Forum Viseu num anfiteatro no cume de uma montanha olímpica. É lá que assistimos à história de todos nós.  

Patrícia Portela 

Boca a Boca #62 – Tristany acorda-nos

Crónica de Patrícia Portela

Enquanto um estudo de dois anos intitulado Pandora Papers, envolvendo 600 jornalistas em 117 países, revela a riqueza oculta de centenas de líderes e celebridades mundiais, António Saraiva, Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa considera irracional o plano do Governo Português de aumentar o salário mínimo em 2022 para 705€. 

Enquanto se discute a irracionalidade de aumentar um salário tão mínimo, professores de todo o país escolhem leccionar no Algarve na esperança de entrarem mais cedo para os quadros, e alugam quartos minúsculos por preços absurdos com a garantia de serem despejados antes de cada verão para que os seus senhorios ganhem o dobro alugando-o a turistas. 

Enquanto os senhorios aproveitam as últimas semanas para albergarem os turistas que agora enchem os aeroportos e cumprem as city trips em falta, centenas de pessoas no aeroporto de Cabul já correram atrás de aviões que descolaram sem lhes abrirem as portas. Enquanto a Europa continua a discutir se deve ou não abandonar o Afeganistão à sua sorte uma explosão junto à mesquita de Cabul faz cinco mortos  e um estudo das Nações Unidas denuncia que apenas 5% da população afegã consegue pôr comida no prato todos os dias. Enquanto uns não conseguem pôr comida no prato com o salário que têm, outros esquecem-se da vida que levam assistindo à final do campeonato de Futsal de onde saem campeões mundiais ou ao último James Bond com Daniel Craig no papel principal, um filme que celebra uma era que teima em não se finar. Enquanto uns fazem o que outros desfazem, e uns têm a mais e outros nada terão, passa mais um fim de semana.  

O fim de semana em que fui ao Teatro ver Tristany pela primeira vez ao vivo.  

Em palco, na companhia de mais quatro músicos, Tristany habitou Viseu como se viajasse pela linha de Sintra. Puxou a meia por cima da calça, abraçou os seus parceiros como se fosse um fauno, cantou de pé, de costas, de cócoras, sentado no chão do palco, ouvindo os outros tocar e enquanto cantava perguntou-nos:  

Vocês acordaram hoje com vocês? E o sol? Acordou com vocês hoje?  

A plateia, calorosa e em sintonia com a magia do concerto respondeu que sim, mas eu fiquei na dúvida.  

Quantas vezes perdemos o lugar onde acordamos quando o mundo acorda a despenhar-se, a brunir fortunas irracionais e a questionar a subida de salários que mal põem comida na mesa? Quantas vezes não me quero acordar enquanto o mundo se explode em cima daqueles que não podem mas querem viver mais do que outros que procrastinam o seu acordar?  

Tristany acorda. Tristany acorda-nos. Tristany vive e canta acordado. Tristany faz a ligação entre os cheiros, as mágoas, as línguas, as periferias, os centros, os mundos velhos e os sempre novos, os que fazem sentido e os que não fazem sentido nenhum mas habitamos todos os dias. Canta como se fosse uma linha que não sendo reta vai, vermelha, a direito, pelo ar. E acende. Canta como se não se pudesse calar. Até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar. 

Meia Dose com Tristany

MEIA DOSE é o título da rubrica que lhe propomos de setembro a dezembro. Durante 30 a 40 minutos, na loja do Forum Viseu, no piso 0, entre o Ginásio e o supermercado, oferecemos-lhe inesperados encontros com os artistas da programação de cada semana no Teatro Viriato.  Aproveite para respirar fundo e deixe-se inspirar nos intervalos da azáfama  semanal. Todos nós precisamos de musas para aguentar os dias.  

Esta semana a MEIA DOSE dá a conhecer Tristany através de Leveza, um programa de rádio de Sérgio Hydalgo. Será uma antecipação para o programa duplo de 2 de outubro, sábado, que inclui conversa à tarde e concerto à noite, onde vamos ouvir…

 

Artista multifacetado, Tristany estreou-se com “Meia Riba Kalxa”, um dos grandes discos nacionais dos últimos anos. Disco comunitário, abre o rap a uma panorâmica em que cabem a hipnose do r&b, o nervo do rock, a herança africana e a kizomba, cascatas de sintetizador espectrais e uma imaginação prodigiosa feita de memórias, conjeturas e refutações. 

Rapper, músico, artista visual e relator atento e consciente das realidades sociais e quotidianas das periferias de Lisboa, Tristany sonda o percurso da Linha de Sintra até Lisboa para aí recolher peças para construir um mosaico que espelha a vivência, o trabalho, os anseios e as aspirações de toda uma comunidade ainda demasiado arredada dos epicentros de decisão, a clamar por um lugar. 

LEVEZA é um programa de rádio onde Sérgio Hydalgo desafia, em directo, artistas de vários quadrantes (da música à poesia, passando pelas artes visuais e performativas) a criarem peças sonoras únicas com ênfase na palavra dita. 

Boca a Boca #61 – Não chega só fazer teatro

Crónica de Patrícia Portela

Na passada sexta feira recebemos  Paisagens para não colorir do grupo La-Resentida com encenação de Marco Layera, a partir das histórias e entrevistas realizadas a 170 adolescentes vítimas de violência nas ruas do Chile. No palco 9 adolescentes entram em cena. O espetáculo começava assim:

“Temos entre 14 e 17 anos. Somos 9 e entre todas há: Uma que dorme com um peluche. 6 que não acreditam em Deus. 5 que já pensaram em suicidar-se. Uma que nunca deu um beijo. 3 que já tiveram relações sexuais. Uma que viu o pai cuspir na mãe.Duas que foram ameaçadas de norte no thiscrush.com. Uma que abortou com misotrol. 7 que foram vítimas de bullying. 9 que marcharam no 8 de março. 5 que foram agredidas físicamente pelos pais. 9 que sofreram de assédio na rua. 9 que foram chamadas de puta. 9 que querem deixar de ser invisíveis. 9 que precisam urgentemente de ser ouvidas.”

A realidade é excessiva. E contra ou a favor da realidade, já não chega só fazer teatro, afirma o encenador desta peça. Se fazemos uma peça sobre uma comunidade que não vem ao teatro, fazemos esta peça para quem? E para quê? E Para quê?

A pergunta ecoou por toda a sala durante todo o espectáculo. A pergunta fazia ricochete e cada espectador se perguntou certamente? Porque vimos ao teatro, porque estamos sentados a ver este espectáculo? Para que serve estarmos a ver este espectáculo e o que vamos fazer depois de o ter visto? Não chega só ver teatro e reconhecer em cada cena algo que já presenciámos, que sabemos que existe, que sabemos que se perpetua, que, quem sabe, também perpetuamos ou justificamos.

A certa altura em cena um técnico da companhia faz de Pai e lê um jornal enquanto a filha grita: Papá, ouve-me! Papá ouve-me! Papá ouve-me! Cada vez mais alto. 

Não há resposta.

Do outro lado, na plateia, nós, que já fomos todas filhas, algumas são mães, a grande maioria nesta sala adultas, já nos vimos nesta situação. A de não ser ouvidas, mas também a de não ouvir. E já não chega termos voz. Já não chega termos consciência dos nossos erros. Já não chega assinarmos teatro, fazermos teatro, irmos ao teatro. Mas é sem dúvida um princípio fundamental. O começo de uma viagem através de um encontro, através de uma partilha para que todas e todos, juntos, lutemos por um lugar mais igualitário, mais livre, mais democrático, mais empático, mais justo. Assim o fizemos na passada sexta feira, numa sala quase esgotada. A ovação de pé que se ouviu soou a pacto. Ninguém se vai calar, até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar.

UM TEATRO DE CHOCOLATE

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Pedro Vieira. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos de Pedro Vieira, Bárbara Assis Pacheco e Alice Geirinhas para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro Viriato —“Meia Dose”, situado no Forum Viseu —, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Hansel e Gretel”, dos Irmãos Grimm

lido por Gaspar Machado Gomes

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Fotografia dos estudos de Pedro Vieira na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Era uma vez uma família peculiar que vivia num planeta onde mal se podia viver. As geadas davam cabo das searas, as cheias e os incêndios destruíam os campos e cidades, as ondas de calor e de frio matavam os mais velhos e fechavam os mais novos em casa.

Esta família, como tantas outras, tinha insónias, e à noite, alguns davam voltas na cama, enquanto elaboravam formas de se sustentar e de sobreviver às intempéries. Mas enquanto outras famílias decidiam partir para outros lugares, mudar de emprego, duplicar os turnos e os trabalhos ou assaltar bancos para melhorar o nível de vida, esta família peculiar teve uma ideia peregrina:

– Ó Zé, e se abandonássemos os nossos filhos à sua sorte, no meio da floresta? Acendemos-lhes uma fogueira, damos-lhes um bocadinho de pão, dizemos que já voltamos e nunca mais aparecemos.

O Zé, que apesar das costas partidas, de um dedo amputado e duas úlceras, ainda tinha um bocadinho de coração, hesitou, mas logo a Elvira o confortou com argumentos imbatíveis:

– Então vamos morrer os quatro para não deixar morrer dois, que nem sequer podem ajudar na labuta por causa das malditas leis contra o trabalho infantil?

O Zé encolheu os ombros, o rabo entre as pernas, e concordou com o plano. Mas porque a fome não deixa só os crescidos insones, João e Maria, no quarto ao lado, ouviram o plano maquiavélico dos pais. Mas não se deixaram ir abaixo. Encheram os bolsos de pedrinhas e, de manhã, já eles estavam preparados.

O Zé e a Elvira levaram os filhos, por muitas voltas, até ao centro mais denso da floresta, acenderam uma fogueira e deram um bocadinho de pão a cada um.

– Não saiam daqui, nós já voltamos.

E nunca mais apareceram…

Mas o João e a Maria, destemidos, não porque tinham um cavalo que só falava inglês (como na canção do Chico) mas porque tinham, mui prevenidos, largado as pedrinhas que traziam nos bolsos para assinalarem o regresso, puseram-se a caminho de casa. Chegaram com o rouxinol (ou terá sido com a cotovia, qual dos dois cantou a aurora a Romeu?) e bateram à porta. Elvira, quando os viu, escondeu o espanto e gritou-lhes com toda a fúria que sempre tinha:

– Ai filhos malditos, que quase nos mataram de angústia, que andaram vocês a fazer toda a noite fora de casa? E chegam de mãos a abanar? Sem lenha rachada para nos aquecer nem nada? Ficam de castigo, hoje não comem!

Nessa mesma noite, os filhos ouviram a gritaria dos pais, a lista das contas por pagar, a falta que a mobília penhorada lhes fazia, mais o anel de rubi, mais o terceiro emprego que tinham perdido, etc. etc. etc…

E, no dia seguinte, a Elvira ordena de novo, como se nada fosse: – Vá, ala para a floresta cortar lenha, que se faz tarde!

O João e a Maria olharam petrificados um para o outro. Não lhes ocorreu que os pais repetissem o plano. Mas não desanimaram. Pegaram no pão que os pais lhes deram como farnel e, migalha a migalha, foram marcando o caminho.

– Não saiam daqui, que nós já voltamos.

E nunca mais apareceram.

Puseram-se os dois de novo a caminho mas, quando olharam em volta não encontraram uma única migalha. Os rouxinóis (ou teriam sido as cotovias?) tinham-se regalado com as migalhinhas de pão e não havia como saber o caminho de volta. O João entrou em pânico. Mas a Maria, que era mais velha, teve uma ideia:

– Oh, para quê regressar a casa? Amanhã põem-nos aqui outra vez. Porque não nos fazemos à estrada?

E lá foram. A chatice é que eles não sabiam onde estavam nem que direção deviam seguir e, depois de andarem um dia inteiro, acabaram no mesmo sítio.

Ainda assim, continuavam destemidos (eram novos) e com muita vontade de fazer alguma coisa pela vida (eram ingénuos). E voltaram a caminhar. E voltaram ao mesmo lugar.

À terceira vez que encontraram as cinzas da sua própria fogueira no caminho, e apesar de ainda destemidos e com vontade de fazer alguma coisa pela vida, veio-lhes um enorme cansaço, a única coisa que consegue atirar os corpos contra a insónia da fome e pesar mais sobre os olhos.

Adormeceram. Debaixo de uma árvore. E como acontece a muitos que assim dormem, sonharam.

Sonharam que ouviam uma cotovia a cantar maviosamente para um rouxinol.

Sonharam que viam no bico do rouxinol as suas migalhinhas. Sonharam que o rouxinol lhes dizia para o seguirem. Sonharam que o seguiam. Sonharam que o rouxinol depositava a migalhinha na boca de Romeu, como uma mãe-pássaro faz a um filhote-pássaro. Sonharam que corriam para a boca de Romeu a tempo de ver que a migalhinha tinha manteiga e que por ela poderiam escorregar. Sonharam que escorregavam pela migalhinha, caindo os dois pela goela do Romeu abaixo. Afinal não era Romeu mas Hamlet.

E, sem saber muito bem o que fazer com essa descoberta, mas ainda destemidos, João e Maria seguiram na sua viagem e aventuraram-se pelas artérias e veias, pelas cartilagens e pelos músculos do Reino da Dinamarca. Era tudo tão bonito, ali dentro daquele corpo que ainda não era um fantasma!

Nunca lhes tinha ocorrido pensar que um corpo era um sítio tão impressionante! Nem um órgão fora do sítio, nem osso sem função! Até a fome lhes pareceu bonita por um momento, e foi nesse momento que avistaram ao longe, na palma da mão direita do príncipe, um teatrinho de chocolate. A barriga apertou, relembrando-lhes da fome que tinham. Deram as mãos, e com muito cuidado desceram pelo braço direito, até às falanges do dedo mindinho, e lá chegaram ao teatrinho de chocolate.

O teatrinho era lindo e cheirava muito bem. Tinha um telão com um príncipe igual ao seu e de cada lado, um pendão que dizia: Ser ou não ser? Eis a questão. A Maria, sempre a mais destemida e a mais esfomeada, pegou na maçaneta da porta e tentou abri-la. Ficou com a maçaneta na mão. Qual não foi o seu espanto ao perceber que o interior da maçaneta de chocolate era feito de pão-de-ló.

Comeu a maçaneta. O João era mais tímido, mas fixou o chão e, sem pensar duas vezes, deu duas dentadas num rodapé. Era de massapão.

– Olha, João, os vidros são de algodão-doce!

– Maria, as cadeiras são cavacas de ovos-moles!

– João, os bilhetes são bolachinhas!

– Maria, o palco é feito de sonhos de abóbora e rabanadas! Podemos viver aqui para sempre sem nunca mais passar fome!

Mas dos bastidores, chega-lhes uma voz retumbando:

– Quem está a comer o meu lindo teatrinho de chocolate? Era a bruxa má, claro, disfarçada de velhinha inocente e querida.

– Que lindos meninos! Comam à vontade! Venham comigo, que vou mostrar-vos as melhores guloseimas.

E a bruxa fez-lhes uma visita guiada ao teatrinho de chocolate enquanto lhes oferecia leite morno, bolinhos, maçãs e nozes.

Eles comeram até mais não.

– Ai Maria, adoro a Dinamarca!

– Ai João, eu também, e se ficássemos cá a dormir?

E logo apareceram duas caminhas para eles pernoitarem no teatrinho de chocolate. Caminhas que se podiam comer ao pequeno-almoço quando acordassem.

Tudo indicava que tinham encontrado o paraíso nas vísceras de um príncipe conturbado. No dia seguinte é que foram elas. De chocolate ou de folhado, a maçaneta não rodava e os vidros de açúcar das janelas não abriam. Procuraram outra saída e acabaram por encontrar a porta dos artistas, e, já fora do teatro e quase fora da palma da mão direita do príncipe da

Dinamarca, estava a bruxa a aquecer um grande caldeirão, enquanto se ria:

– Estão tão gordinhos! Vão dar um belo petisco! Já é o terceiro casalinho de garotos que encontro esta semana na floresta! Esta crise tem sido uma festa!

A Maria, que mesmo com excesso de açúcar no sangue continuava destemida, nem pensou duas vezes, correu para a velha bruxa e empurrou-a para dentro do caldeirão que, afinal, era um buraco sem fundo na mão de Hamlet. Ainda foi a tempo de salvar a colher de pau, que era de rebuçado, e ficou a ver a bruxa a cair, qual Alice pelo buraco das maravilhas, até deixar de ouvir os seus gritos.

Maria nunca pensou que pudesse ser tão fácil emancipar-se. Mas Maria também não imaginara encontrar um teatrinho de chocolate. Nem ser abandonada pelos pais. Nem perder o caminho para casa porque um rouxinol lhe comera as migalhinhas que assinalavam o caminho de volta.

Maria fica muito tempo a olhar para o abismo, sem saber o que fazer.

Eis se não quando uma caveira de algodão-doce aparece e lhe pergunta:

– Ser ou não ser, é essa a questão? A sobrevivência? A insistência? Ou a procura do sublime? Do belo? Do transcendente? O que será mais nobre? Aceitar o infortúnio? Ser almejada por setas? Seguir pedras e migalhas que nos vão assinalando o caminho?

Ou devemos insurgir-nos contra as provocações e os impropérios, contra as injustiças e as desigualdades? Estaremos mais à altura quando vamos à luta? Seremos mais altos quando, imóveis, decidimos pôr fim à angústia com o sono, empurrando a dor para o dia seguinte? Comendo apenas em sonhos, portas e janelas de um teatro anatómico de chocolate quando deveríamos comer a vida como se fosse um banquete onde todos se servem à mesma mesa?

A Maria não percebeu.

O João também não percebeu mas decidiu:

– Anda! Vamos construir a nossa própria casa de chocolate!

Capa do programa SET-DEZ’21 do Teatro Viriato, com ilustração de Pedro Vieira

Pedro Vieira

Lisboa, 1975. Licenciado pela Escola Superior de Comunicação Social, trabalhou no Canal Q das Produções Fictícias e é, atualmente, guionista e pivô do programa O Último Apaga a Luz da RTP3 e do podcast [IN]Pertinente da FFMS. É responsável pela Comunicação do Cinema São Jorge.

Trabalha como ilustrador freelancer para a imprensa e meio editorial e escreve livros como se isso fizesse sentido.

Gaspar Machado Gomes

Sou o Gaspar e só chorei quando nasci. Pratico karaté desde os três anos e também andebol. Gosto muito de videojogos, de estar com os amigos e de ver espetáculos que me façam rir. Sou amigo do Teatro Viriato porque vou desde pequenino e adoro ver novo circo.

UM TEATRO A CAMINHO DE BREMEN

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Bárbara Assis Pacheco. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos da Bárbara Assis Pacheco, e ainda de Alice Geirinhas e Pedro Vieira, para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro: “Meia Dose”, situado no Forum Viseu, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Os Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm

lido por Sandra Correia

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Fotografia dos estudos de Bárbara Assis Pacheco na exposição “Temporadas Desenhadas”

Era uma vez o último auroque à face da Terra. Passava os dias escondido ou a fugir de caçadores. Vivia lá para os lados do Côa e carpia noites inteiras, pedindo aos deuses, aos da terra, que o ajudassem na sua tamanha solidão. Um dia, enquanto tricotava um pé de meia com uma moura encantada, o sol bateu de maneira diferente no xisto do seu álbum de família. Um auroque, um outro auroque, robusto, gravado na pedra, um seu igual que nunca tinha visto. Encostou a sua orelha àquele dorso martelado e ouviu:

– Vai-te embora daqui! Vai ser músico em Bremen! Lá encontras outros como tu, montas uma banda e serás feliz para sempre!

E como uma multidão de caçadores apareceu a correr na sua direção, o auroque não pensou duas vezes e fugiu na direção contrária. Ele não sabia onde ficava Bremen mas estava decidido a fazer-se à estrada sem olhar para trás.

*

Era uma vez um ser humano que se queria livrar de um burro-de-miranda, que durante muito tempo lhe carregara os fardos, o levara a todos os cantos da aldeia e ainda lhe entretera filhos e netos. Mas agora o burro estava velho e cansado, e o dono achou que o bicho já não lhe podia prestar serviço e queria substituí-lo rapidamente por um burro mais novo. Começou a diminuir a ração do bicho, para que passasse fome e definhasse. Mas o burro-de-miranda, que não era nada burro, ou não fosse ele de Miranda, percebeu logo a marosca e em bom tempo se fez à estrada.

– Se não posso mais ser burro de carga, quero ser músico! Vou para Bremen! Lá encontrarei outros músicos, e juntos faremos uma banda!

Mal disse isto, deu de caras com o auroque solitário.

– Também vais para Bremen? – perguntou o burro-de-miranda.

– Como é que sabes? – perguntou o auroque, começando a acreditar em magia.

Sem trocarem sequer um relinchar, fizeram-se os dois à estrada, lado a lado, a caminho de Bremen.

Já tinham caminhado um bom bocado quando encontraram um pangolim ofegante:

– Porque estás tão ofegante, pangolim? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oooh – reclamou o pangolim. – Ando a fugir. Uns querem vender-me no mercado, outros querem as minhas escamas para curas médicas, outros ainda acham que sou a causa de uma doença que todos têm e querem dar cabo de mim. Não tenho poiso nem sei como fazer para ganhar o pão de cada dia.

– Olha, nós vamos para Bremen – disse o burro-de-miranda.

– Vamos ser músicos e tocar numa banda.

Eu toco alaúde, ele toca adufe. E tu? Queres vir? – convidou o auroque.

E fizeram-se os três à estrada.

Não durou muito até encontrarem uma marta encharcada, a carpir à beira-rio.

– Que se passa, amiga, porque estás tão desanimada? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Como posso eu estar animado se todos querem dar cabo de mim? Vivi sempre em cativeiro, vi os meus familiares e amigos partir, um a um, para servirem de casacos a senhoras que vão ao teatro. E agora procuram-me por causa de uma doença que todos os humanos têm e que acham que é por minha causa. E agora? Para onde ir?

– Vem connosco para Bremen. Já percebemos que cantas bem quando choras, podes juntar-te à nossa banda municipal!

E fizeram-se à estrada para logo encontrarem um pato-mudo branco.

– Então, que grasnar é esse? Estás aflito? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oh, nem sabes da desgraça da minha vida – disse o pato-mudo.

– A vida corria lindamente, vivia na fonte do jardim central da minha aldeia, um senhor muito simpático visitava-me todos os dias, alimentava-me, falava comigo e até tocava guitarra ao final da tarde, mas agora, por causa de uma doença que todos têm, as ruas estão desertas e o senhor simpático perdeu o emprego e já não cuida de mim. E hoje ouvi-o mesmo murmurar: «Ah! Que bela canja posso fazer contigo! Anda cá que já te torço o pescoço.» E eu desatei a grasnar e nunca mais parei!

– Deixa-te disso, pato-mudo branco – disse o burro-de-miranda. – Traz a guitarra que já não toca e vem connosco ser músico em Bremen.

E lá se fizeram os cinco à estrada, seguindo as curvas de um rio, as suas vinhas douradas e as suas amendoeiras em flor. E atravessaram um planalto. E uma serra. E tudo isto sem ver vivalma, muito menos humana. Mas perceberam que não chegariam a Bremen antes de escurecer. Por isso, quando avistaram, ao longe, um teatro com as luzes acesas, lá para os lados de Viseu, aproximaram-se, encavalitaram-se uns sobre os outros e espreitaram por uma janela.

– Epá, tantas iguarias! – partilhou o pato-mudo branco.

– Ah! Essas iguarias seriam perfeitas para nós – salivou o auroque.

– Ah! Se conseguíssemos entrar! – suspirou a marta.

– Até abríamos as portas a todos os bichos que quisessem entrar, humanos ou não – prometeu o burro-de-miranda.

– Era bom, sim, mas como conseguimos entrar? – alertou o pangolim.

Nisto, caíram com grande estardalhaço e assustaram um morcego-vampiro que há muito ali vivia, pendurado de cabeça para baixo. Em tempos, um guardador de almas e longevidades, era agora odiado pelos demais por causa de uma doença que todos os humanos têm.

– Saiam todos daqui! Já! – ralhou o morcego, que não era Drácula mas conhecia bem a escuridão dos tempos que esta Europa atravessava.

– Chiiiu! – pediram o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco. – Nós não somos perigosos. Ajuda-nos a entrar e nós prometemos abrir o teatro a toda cidade, e ainda te podes juntar à nossa banda. Vamos todos para Bremen.

E assim foi, reuniram-se e desenharam um plano para entrar.

Num silêncio pétreo, estes equilibristas estavam todos preparados para dar um concerto mágico que abriria as portas desta casa das artes.

Concentrados na mais profunda das suas dores, o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco cantaram em silêncio com toda a sua força. E o morcego, que ouvia o que os humanos ainda não sabiam ouvir, emitiu a bela composição, através de ondas ultrassónicas, para dentro do Teatro, mapeando todos os obstáculos que os impediam de entrar. O eco era tão encantador que os obstáculos se afastaram e a porta se abriu.

Conta o resto da história que os músicos nunca chegaram a Bremen nem a porta do teatro se voltou a fechar. Desde então, todos são bem-vindos naquela casa, bichos, pessoas e plantas, e conta-se que, juntos, em conversa, em concerto ou através de equilíbrios mágicos, lá vão encontrando, juntos, a cura para todos os males.

Capa do Programa JAN-MAR do Teatro Viriato, com ilustração de Bárbara Assis Pacheco

Bárbara Assis Pacheco

Lisboa, 1973. Vive e trabalha em Lisboa. Licenciou-se em Arquitectura (FAUTL, Lisboa) e em Filosofia (FCSHUNL, Lisboa), entre as duas fez Desenho e o Curso Avançado de Artes Plásticas no Ar.Co (Lisboa). Participou na primeira edição do curso de Fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística.

Faz desenhos e coisas.

Sandra Correia

© Carlos Fernandes

A primeira personagem a que dei voz tinha o nome de Karin Thimm, de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, de Rainer Werner Fassbinder, numa encenação de Paulo Castro para o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Dei voz a outras personagens, mas ouvi muitas mais ao longo dos quase últimos 30 anos. Sou agora uma espetadora a quem foi lançado o desafio de ir “a caminho de Bremen”.

ESPELHO, ESPELHO MEU, QUEM SOU EU?

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm,

lido por José Carlos Leorne

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Alice Geirinhas. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos da Alice Geirinhas, e ainda de Bárbara Asis Pacheco e Pedro Vieira, para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro: “Meia Dose”, situado no Forum Viseu, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

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Fotografia dos estudos de Alice Geirinhas na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Num tempo muito anterior a este abril, ainda a neve cobria metade destas terras o ano inteiro, uma rainha costurava, distraída, à janela, quando se picou na agulha. Três gotas de sangue mancharam o manto de neve que se estendia lá fora. O vermelho no branco era tão vivo que ela desejou: “Fosse eu branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira desta janela, e não de uma cor só.” Pouco tempo depois, deu essa rainha à luz uma filha, branca como a neve, intensa como o vermelho do sangue, e com uma farta cabeleira tão negra como a madeira da sua janela. O parto foi demorado e doloroso, e a rainha morreu nesse mesmo dia, nunca chegando a pegar ao colo a sua cria que não era de uma cor só. O pai, o rei, para curar a profunda tristeza em que se afundara e esquecer a ansiedade dos múltiplos negócios de estado, voltou a casar com a dama mais bela do reino, obviamente, uma mulher orgulhosa e prepotente, como sempre são as mulheres de segundas núpcias em contos de fadas, sempre madrastas antes de serem mães.

Essa dama cedo foi votada à mesma solidão da rainha anterior e, não sabendo costurar, perdia os dias à conversa com o seu reflexo, a sua única companhia. Não tendo mais do que a sua beleza, vivia apavorada com a ideia de envelhecer, e passava horas a fio a esconder as rugas que via nascer à volta dos seus belos olhos azuis, a arrancar os cabelos brancos da sua farta cabeleira dourada e a disfarçar as pequena manchas que contrariavam a sua pele de mármore. E, sem ninguém que a elogiasse, a rainha terminava todos os seus dias perguntando ao espelho se era bela, e, julgando ouvir-lhe um elaborado sim, adormecia certa de que valeria a pena acordar.

Por sua vez, o espelho, que há gerações vivia pendurado naqueles aposentos reais e conhecia com detalhe todas as caras que por ali tinham passado, suspirava não raras vezes com saudades de muitos deles porque aprendera a amá-los a todos e, por isso, a mostrar-lhes apenas o que desejavam ver. Foram muitas as gerações de mulheres e de homens que lhe perguntaram se eram belos, que perante ele ensaiaram discursos, que nele confirmaram as certas indumentárias para as muitas celebrações da corte. À sua frente, muitos duvidaram fraquejaram, ganharam forças, choraram, recuperaram confiança.

Apenas esta rainha parecia não querer saber de mais nada que não fosse a sua beleza, e, assim, os dias para este espelho sucediam-se sempre iguais, perante uma mesma face de uma só rainha, sem nenhuma outra faceta.

Até ao dia em que, já crescida, a princesa Branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a janela de sua mãe entrou à  socapa no quarto da rainha, sua madrasta, para procurar uns brincos. Tencionava usá-los para um encontro secreto com alguém que, assim o desejava, fosse na sua vida um príncipe. Vasculhou todas as gavetas, todas as caixas, et voilà!, encontrou o que procurava. Sem hesitar, colocou os brincos e olhou-se ao espelho. Foi nesse momento que ouviu o espelho:

– De quem és tu?

– De quem sou eu? Como assim?

Branca como a neve nunca tinha ouvido um espelho a falar, muito menos para fazer perguntas sem sentido. Fugiu, apavorada, do quarto. E nunca mais ao quarto voltou.

O resto da história já muitos de nós conhecemos. Um dia, o espelho deu uma resposta indesejada à rainha, a rainha julgou poder mudar essa resposta se mandasse um caçador matar a nova mais bela do reino, que por acaso era sua enteada, o caçador matou um javali no lugar da donzela e enganou a rainha com as vísceras do bicho. Branca de Neve fugiu, encontrou sete irmãos, todos do mesmo tamanho e com muita barba, e viveu com eles por uns tempos. O espelho não sabia mentir, e a rainha descobriu que a mais bela de todas ainda vivia. Seguindo um sábio conselho, a rainha acatou a tarefa de a matar com as suas próprias mãos, descobriu onde a Branca de Neve vivia e, disfarçada, tentou, primeiro, vender-lhe um corpete que a asfixiasse, depois um pente que lhe arrancasse os sentidos pelos cabelos, mas, não resultando nenhum destes planos, acabou por lhe oferecer uma bela maçã de um paraíso perdido, ou não fosse esta a eterna e trágica primeira história do fim do mundo de qualquer mulher. Branca de Neve agradeceu, trincou a maçã e engasgou-se. Um príncipe que ia a passar deu-lhe uma palmada nas costas a tempo de a salvar – a história do beijo é o que se conta só porque foi nesse momento que chegaram os sete irmãos e os apanharam em flagrante gesto, já o pior tinha passado.

O que não se tem contado quando se conta esta história é que o rei soube desta tragédia, e a rainha teve de fugir do reino, e só muitos anos mais tarde pôde voltar a conversar com o espelho no dia em que regressou ao palácio para chorar o rei que acabara de se finar naquele quarto que já não era seu.

O rei deixara para ela o espelho embrulhado num pano de algodão onde se poderia ler, bordado a fio de ouro: a beleza está no olhar de quem a vê.

Mas a rainha tinha a sua própria pergunta para fazer ao espelho e convenceu-se que aquela não seria a sua resposta.

– Espelho, espelho meu, o que viste tu em Branca de Neve que não tinha eu?

E o espelho respondeu. Disse-lhe que vira em Branca de Neve todas as caras que conhecera naquele palácio e das quais tinha saudades. Viu o nariz da sua mãe, os olhos da sua avó, os lábios da sua tia, as orelhas do seu avô, o sorriso de uma prima direita, a tristeza do seu pai, e até a expressão de uma tribo ancestral que desparecera da face da terra, e ainda os cabelos da sua bisavó. Viu nela tantas outras vidas que se entristeceu ao se aperceber de quanta gente sentia falta. Nessa mesma noite, quando a rainha madrasta voltou a perguntar-lhe quem era a mais bela, o espelho respondeu que era ela mas também a Branca de Neve.

Disse-o na esperança de reaver, naqueles aposentos, aquela cara tão cheia de memórias de tantas outras caras, nunca imaginando a tragédia que acabaria por promover.

A conversa entre a rainha e o espelho foi longa, e não contaram as lendas mas hoje sabe-se que foi de uma sinceridade sem precedentes. A rainha percebeu então que não faria sentido aquele espelho terminar os seus dias a olhar sempre a mesma cara e teve uma ideia:

– Gostavas de viver num camarim de um teatro?

E assim foi. Desde então, vive esse espelho nos bastidores do nosso teatro, reencontrando em todos os artistas que por aqui passam, um olhar, um gesto, uma maneira de ser de alguma das mais belas e amadas mulheres e mais belos e amados homens da sua vida.

Capa do Programa do Teatro Viriato ABR-JUL’21 com ilustrações de Alice Geirinhas

Alice Geirinhas

Évora, 1964. No campo da criação e investigação artística tem desenvolvido um corpo de trabalho a partir da teoria feminista intersecional sobre identidade, sexualidade, igualdade de género, resistência ao histórico, da ideia do pessoal é político e da poética do político. Desde os meados dos anos 80, tem vindo a desenvolver um corpo de trabalho traduzido em vários media: desenho, livro de artista, fanzines, vídeo e instalação.

À sua primeira exposição individual, “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer”, Zé dos Bois (ZDB) seguiram-se (entre outras), “Alice”, Bedeteca de Lisboa; “Ce sex qu’est pas un”, Museu do Neo-realismo, Vila Franca de Xira; “Chora”, Gaivotas 6, Lisboa.

De entre as exposições colectivas que integrou destacam-se: “2012-2020 obras da Coleção António Cachola”, MACE, Elvas, “Ponto de Fuga/Vanishing Point”, Cordoaria Nacional, Lisboa, “A Guerra como Modo de Ver”, MACE, Elvas, “Género na Arte: corpo, sexualidade, identidade e resistência”, MNAC, Lisboa, “Re-produtores de Sentido”, SESC Rio, Rio de Janeiro, Portugal: “30 Artists Under 40”, The Stenersen Museum, Oslo.

Está representada em diversas coleções públicas e privadas e o seu trabalho é regularmente publicado em livros e revistas especializadas.

José Carlos Leorne

Antes do Teatro Viriato ser o que é hoje, foi no “Teatro de enormidades apenas críveis à luz elétrica”, em 1985, com textos de Aquilino Ribeiro e encenação de Ricardo Pais, que me apaixonei por este lugar e decidi que queria ser mais do que um espectador, queria fazer parte desta casa, do que se tornasse, e do trouxesse. No início da nova fase, em 1996, com a chegada da Companhia Paulo Ribeiro e o celeiro a ser transformado em palco e plateia, tornei-me (e à Casa Leorne) amigo formal deste Teatro Viriato do qual escolho como espectáculo de sempre, o próximo!

Boca a Boca #60 – Menus inteiros, almas preenchidas

Crónica de Patrícia Portela

Começamos a nossa temporada de braço dado com o Dino D’Santiago. Ao primeiro segundo estávamos de pé, ao segundo estávamos a dançar, ao terceiro estávamos a gritar com ele:

Saibamos ser Nós!

Se nos estivéssemos esquecido do que era estar numa plateia, do que era sentir esta ligação inesperada através da música e da energia que cresce quando estamos todos juntos a partilhar um concerto ou um espectáculo, Dino D’Santiago fez arrepiar uma sala inteira que, com ele, celebrou estar vivo no Teatro Viriato. Não poderíamos começar melhor. Talvez por isso tenhamos sido ambiciosos e tenhamos subido a parada. E decidimos dar o braço ao FORUM Viseu  e abrir temporariamente uma loja no seu piso 0 entre o fitness e o supermercado, para marcarmos encontros fora de horas e fora da nossa casa com os nossos espectadores. Como explicar o que é esta MEIA DOSE que abrimos já quarta feira pelas 12h 30?

Imaginem que, como sempre, vamos a correr ao supermercado para comprar algo embalado, que vamos comer a correr, sentados num banco do centro comercial, enquanto, também a correr, espreitamos nos nossos telemóveis as últimas notícias que já conhecemos. Imaginem que nessa pausa, em vez de nos perdermos mais  uma vez nos comentários das redes sociais, ou de continuarmos a matutar naquele  documento que já não conseguimos (re)ler…. Imaginem que nesse curto espaço de tempo de paragem no dia podemos assistir a um mini concerto, ou ouvri uma pequena conversa, ver um filme que está a passar na nossa loja, ouvir/ler os contos que acompanham a exposição dos desenhos dos telões de Alice Geirinhas, Bárbara Assis Pacheco e Pedro Vieira que desenharam as imagens das nossas três temporadas?  Ou que espreitamos um livro que desconhecíamos e nos sentamos nos belos assentos de uma sala acolhedoramente Pela movecho para nos receber?

É tudo isto o nosso novo espaço! Entre setembro e dezembro 21 a MEIA DOSE estará aberta a todos os visitantes de quarta a domingo, entre as 12h e as 18h. Durante esse período poderá descansar no nosso espaço, ver a nossa exposição, assistir a um vídeo ou ouvir um conto, falar com um dos membros do Teatro Viriato presentes no espaço, consultar a nossa programação, ou só sentar-se para respirar e descansar, ou ainda, acompanhar a nossa programação gratuita elaborada de surpresa e com todo o carinho pelos artistas desta temporada, especialmente para si, que vai a passar, na sua azáfama, e se deixa surpreender por aqueles que desejam conhecê-lo, ou conhecê-la e actuar para si. Porque sim. Porque o encontro e a presença são a maior dádiva que se leva desta vida. São as musas que nos fazem aguentar os dias.

Tudo pode acontecer a cada semana. Para participar, basta lá passar à hora combinada… e entrar!

Contamos com a sua visita?

Boca a Boca #59 – Ser e não estar? Estar e não ser?

Crónica de Patrícia Portela

Ser ou não ser,  

Estar ou não estar 

Ser mas não estar 

Estar sem o ser. 

Hoje estamos ausentes na presença, ligados à corrente, ao telemóvel, à plataforma digital que nos deixa cumprir o horário de trabalho no local da família e do lazer. 

E estamos presentes na ausência, relembrados pelas cadeiras vazias em teatros e cinemas, em jantares e aniversários. Passamos o tempo a pensar que queríamos estar noutro lado, porque longe daqueles que amamos e que estão doentes. Distantes. 

Ser e não estar 

Estar sem o ser,  

Será mais nobre aceitar o infortúnio, resignada. 

Ou insurgir-me contra as provocações e os impropérios, contra as injustiças e as desigualdades? 

Estaremos mais à altura quando vamos à luta 

Ou quando, imóveis, decidimos pôr fim à angústia com o sono, empurrando a dor para o dia seguinte, até à morte? 

Dormir, talvez sonhar, com a presença dos ausentes,  

Com a ausência de um contágio que não convidámos a entrar no nosso estar. 

Ser e não ser 

Estar e não estar. 

Este trimestre convocamos a sua presença – física, grande, pronta, decidida, de todo o ser – no nosso teatro. Queremos ouvir a plateia, aplaudindo, pateando, discordando, acrescentando, sempre, a tudo o que apresentamos. 

Queremos saber a altura e o cheiro do nosso público, como se ri, como entra na sala, se sai a correr ou se fica para conhecer os artistas e dar a sua opinião. 

Queremos conversar. Através da arte e através do encontro, antes e depois de cada espetáculo. 
Porque são as cogitações que constroem os obstáculos e a melancolia, a vontade de escapar ao tumulto da existência através do repouso e da morte. Mas também são, na presença de outro, daquele que de nós difere, o que nos acorda, o que nos faz amenizar o cenário mais negro, o que nos dá coragem para enfrentar todos os males, a irrisão do mundo, 

O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, o desprezo do amor, a insolência oficial, as dilações da lei, a impaciência dos tempos, o mérito imerecido dos traidores. 

É o pensamento que nos acobarda perante a possibilidade da morte, e é esse medo, na companhia de outros que connosco partilham tantas ansiedades, o que nos conduz à possibilidade da ação. 

O teatro é esse lugar onde todas as noites se está para se poder ser, e onde se é tanta coisa, quando não se pode estar em mais lado nenhum. 

Ação, Palavra, Missão. É esta a nossa questão! 

Consulte toda a programação desta nova temporada do Teatro Viriato nos locais habituais. E pode procurar-nos, queremos a vossa presença nas perguntas e nas respostas. 

Blind Book Date

Abril a julho 2021

Marque o seu encontro às cegas com os livros escolhidos pelos nossos artistas para si. 

À sua espera temos um conjunto de enigmas que o ajudarão a escolher o companheiro ideal de leitura. Depois de ler os enigmas, basta contactar a bilheteira do Teatro Viriato e referir qual o texto que mais despertou a sua curiosidade. Até julho, pode conhecer os livros escolhidos por Pedro Sousa Loureiro, Tiago Lima, Tânia Carvalho, Patrícia Portela e a sugestão de poesia do Dr. Changuito. 

Enigma 1: 

Um apelo ao retorno às origens, à procura da paz interior, através do contacto com a natureza.

Recomendação de Patrícia Portela

Enigma 2: 

Uma utopia sobre o conhecimento, por um autor vencedor do Prémio Nobel da Literatura.

Recomendação de Tânia Carvalho

Enigma 3: 

Um livro para perceber outros livros. Para amantes do pós-modernismo, de linguística e da literatura francesa do séc. XX.

Nota: Livro em idioma inglês.

Recomendação de Janaína Leite

Enigma 4: 

Um grande nome da poesia surrealista portuguesa, num livro que reúne textos de outros géneros literários.

Recomendação de Pedro Sousa Loureiro

Enigma 5: 

Um dos grandes humoristas franceses do século XIX, num tratado sobre a arte da oratória.

Recomendação de Tiago Lima

Enigma 6: 

Uma colectânea de um poeta contemporâneo alemão, sobre as contradições e a história do progresso.

Recomendação de Dr. Changuito

Os interessados podem entrar em contacto com a bilheteira do Teatro Viriato, através do e-mail bilheteira@teatroviriato.com ou através do contacto telefónico 924 454 409, das 13h00 às 19h00, de segunda a sexta-feira.

“Blind Book Date” é uma iniciativa do Teatro Viriato com curadoria de Susana Cardoso, em parceria com as livrarias Leya/Pretexto e Poesia Incompleta. 

“Blind Book Date” 

Uma iniciativa do Teatro Viriato 

Com curadoria de Susana Cardoso 

Em parceria com as livrarias Leya/Pretexto e Poesia Incompleta