Boca a Boca #70 – O Ser e a Diferença ou O Pão e as Abelhas

Crónica de Patrícia Portela

No dia em que se celebra a morte de um certo Fernandinho que escrevia cartas de amor ridículas, costumo sentar-me no largo do Teatro de São Carlos, em Lisboa, a olhar para a casa onde nasceu o poeta dos muitos heterónimos. Da última vez que lá estive, antes da pandemia, escutei a indignação de um ilustre e sábio senhor que acabara de ver citada, na parede de uma padaria moderna de bairro, a “Oração ao Pão”, de Guerra Junqueiro, como se fosse de Pessoa: ”Num grão de trigo habita/ alma infinita”.

Enquanto relembro este encontro, agora sentada no espaço da Meia Dose no Forum Viseu, leio a notícia de um outro centro comercial, na Austrália, onde uma citação atribuída a David Attenborough foi removida após várias reclamações de um certo estudante de ciências da natureza. A citação é sobejamente conhecida: se as abelhas desaparecessem da face da Terra, os humanos não teriam mais de 4 anos de vida.

A frase pertence, ao que parece, a Maeterlinck, nobilizado poeta belga que um dia escreveu que “se as abelhas desaparecessem da face da Terra, 100 000 plantas não sobreviveriam”. O curioso aqui é que, enquanto o primeiro e mui ilustre senhor, também ele escritor, se preocupava com a autoria, a preocupação deste cientista devia-se ao facto de considerar esta uma propaganda enganosa que defende apenas a abelha europeia e não as abelhas nativas. A primeira reclamação não teve efeito, e a citação continua na parede da fina padaria. A segunda foi parar às páginas dos jornais mundiais e teve direito a confirmação de falsidade do próprio autor injustamente citado.

E isto deu-me que pensar: é verdade que um grão de trigo habita alma infinita e que sem abelhas poderemos não subsistir.

Se por um lado os autores destas frases, ambos já no panteão dos imortais, não podem reclamar a sua autoria, é certo que ambas os ultrapassaram e se tornaram conhecimento comum e mundano, habitando as nossas bocas e as paredes dos nossos centros comerciais, pertencendo-nos e obrigando-nos a ver o pão (e as abelhas!) por um novo prisma: pelo lado que nos alimenta e nos permite sobreviver.

Olho de novo para a fotografia do centro comercial australiano com a citação incorretamente atribuída e leio o título: To Bee (de abelha) or not to be (de ser). Levanto os olhos para a entrada da Meia Dose, o novo espaço do Teatro Viriato no Forum Viseu e relembro a frase da temporada: Ser ou não ser, estar ou não estar, é isto a questão! E penso: estaremos a citar Shakespeare, Alberto Pimenta (quem levantou primeiro esta questão de se poder traduzir “to be” como “ser” ou “estar”), ou estaremos a usar incorretamente a tradução de Sophia de Mello Breyner que traduziu o verso that is the question por: é isso (e não é isto!)  a questão?

E será que, enquanto nós nos debatemos com estas questões, os autores em questão se importam? E o pão? E as abelhas? Passarão mal a noite? Ficariam gratos por serem lembrados?

Se calhar subestimamos a generosidade das espécies, como a dos animais ditos não racionais, ou a dos artistas, quantas vezes dados como loucos. Na verdade, estão para lá da sua própria autoria terrestre, assombrando-nos com as suas visões do mundo.

Preparo-me para assistir à estreia de um filme que fará parte da segunda semana dedicada a um coletivo ou artista, desta vez com o foco na companhia Dançando com a Diferença. Preparo-me para ver Flores em Ti, como se tivesse olhos de estar, um filme realizado em Viseu, como se a cidade fosse um jardim botânico, num Forum Viseu, como se este fosse uma passagem para um mundo imaginário, um teatro que é como se fosse uma estufa de palavras e gestos que passam de mão em mão, reinventando-se com a ousadia libertina dos autores que criam, não para se firmarem no tempo e no espaço eterno mas para se transformarem em vida. Se calhar, temos de deixar de chamar arte efémera ao teatro e de considerar a literatura imortal. É na diferença do pé que nunca mergulha na água duas vezes que habita o tal ser que nunca pode não ser, e a tal alma infinita, a tal sobrevivência comum para lá da inefável diferença dos nossos corpos e mentes limitadamente humanos.

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