Boca a Boca #69 – Ideias amigas

Crónica de Patrícia Portela

Ele é um artista coreano nascido em 1931. Ele era um artista austríaco nascido em 1934. Conheceram-se em Paris, o centro da vanguarda artística na altura, em 1961, ambos com uma bolsa de criação da Unesco. Tinham trinta anos e a única língua que tinham em comum era a pintura. A amizade que Park Seo Bo e Adolf Frohner nutriram até ao final dos seus dias alimentou as suas obras, as suas vidas e misturou as suas culturas, entrelaçando budismo e arte ocidental, papel Hanji e acionismo, filosofia zen e arte bruta. Elisabeth Voggeneder, a curadora do museu Frohner, em Krems, na Áustria, decidiu reunir estes dois amigos, para que as suas obras continuassem o diálogo que ambos mantiveram até ao fim.  

“As ideias são amigas umas das outras”, como as pessoas que se amam mesmo quando discordam, dizia-me agora mesmo Marta Bernardes, autora do “Comensal literário”, o espetáculo em cartaz esta semana para um público mais jovem, e uma grande amiga de Afonso Cruz, o autor do texto “Vamos comprar um poeta” que ela encena com humor, delicadeza e loucura. 

Maria Reis teve um fulgurante começo ao lado da sua irmã Júlia Reis, com a Pega Monstro, uma banda de dream-punk, como já lhe chamaram. Depois Maria Reis aventurou-se a solo, em palco, há um ano, no anfiteatro do jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentando pela primeira vez, ao público e à família, a canção “Olívia”, dedicada à sua sobrinha que, na altura, vinha a caminho deste mundo. O álbum “Flor de Urtiga”, do qual esta canção faz parte, foi terminado graças a um email de Noah Lennox, dos Animal Collective, a banda para a qual Maria, ao lado da sua irmã, tinha feito a primeira parte de uma tourné pela Europa, onde este lhe perguntava.: “Queres vir gravar um álbum no meu estúdio em Lisboa?” 

Agora Maria Reis encontra-se em residência no Teatro Viriato, em parceria com a Galeria Zé dos Bois – outra história de uma longa amizade artística e filosófica, que por certo dará origem a muitas e novas oportunidades. O resultado dessa residência será apresentado já 

no próximo sábado, às 21h00, no Teatro e, no espaço Meia Dose, no Forum Viseu, na quinta-feira, pela hora do almoço, em formato de miniconcerto. Depois seguirá até Braga, para a Gneration, onde gravará o disco que daqui nascerá. 

Porque junto estas histórias? Porque são a única e mais íntima história da arte: a da relação entre os seus criadores e espectadores, a da revolução das ideias por causa dos seus encontros, a do fascínio de vermos lado a lado a obra de Frohner e Bo, Marta e Afonso, Maria Reis e um bocadinho de Viseu.

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