Boca a Boca #67 – Haverá flores nas cidades do futuro?

Crónica de Patrícia Portela

Um vídeo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) tornou-se viral ao mostrar um dinossauro (com a voz do ator Jack Black) a discursar na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque: 

– Nós, os dinossauros, fomos extintos por um asteroide. E vocês, humanos? Qual é a vossa desculpa? Caminham para um desastre climático enquanto os vossos governos gastam centenas de milhões a subsidiar combustíveis fósseis? Imaginem que nós tínhamos passado anos a subsidiar meteoritos gigantescos… 

Em setembro passado, a Kantar Public, uma empresa de sondagens, conduziu um estudo em 10 países sobre a crise climática, e as conclusões agora divulgadas são curiosas: 62% das pessoas consideram que as alterações climáticas são o maior desafio que enfrentamos, mas são poucas as que afirmam ter vontade de fazer alterações significativas ao seu estilo de vida; 36% já se reconhecem como estando muito comprometida com ações ambientais; 46% consideram que não são necessárias grandes alterações dos seus hábitos diários enquanto a maioria considera que tanto os média, como o governo e as associações locais deveriam tomar mais decisões sobre o assunto. 

Algumas das razões apresentadas como justificação para não se fazer mais pelo ambiente foram: Estamos orgulhosos do que já fazemos (74%); Não há acordo entre especialistas sobre quais as melhores soluções (72%); e Necessitamos de mais equipamentos e recursos por parte das autoridades públicas (69%); Não temos como financiar individualmente este esforço (60%); ou o clássico “Não temos tempo para pensar sobre este assunto» (33%). 

Nas ruas de Glasgow e um pouco por todo o mundo, ativistas alertam para a necessidade de ter em conta sete gerações na decisão de cada nova medida a tomar.  

Como pensar nas próximas sete gerações quando não queremos sequer pensar no agora? 

Para que serve uma sondagem que nos confirma que a resignação e o conformismo prevalecem mesmo perante a evidência de uma catástrofe? 

Seremos os eternos revoltados que amam a ideia do que pode acontecer e não a ideia do que podemos fazer acontecer? 

Augusto Abelaira escreveu, em 1959, A Cidade das Flores, no qual, num futuro próximo, a Europa não sofreria com o fascismo… Passado em Florença, Abelaira denunciava o que se passava em Portugal para incitar uma geração à resistência e à luta ativa. Três gerações mais tarde, Joana Craveiro pega na obra de Abelaira e leva-a à cena no Teatro Viriato. E com ela volta a colocar as mesmas questões: Como avançamos daqui para a frente? Como se combatem os velhos e novos fascismos, as velhas e novas ameaças, as velhas e novas estratégias que apenas pretendem manter o sistema a funcionar, como se não fosse possível mudá-lo? Não será esta forma de lidar com o planeta uma forma de fascismo antropoceno, o nosso asteroide fatal? Qual a nossa parte de responsabilidade nesta inação? Como sonhamos com a mudança e como nos movemos a caminho da transformação? Haverá flores à nossa espera nas cidades do futuro? 

Estaremos eternamente apaixonados não pelo amor mas pela infância do amor, como diz o autor? Não pela vontade séria e resoluta de mudança mas pela ideia de um horizonte utópico, que nos mantenha sempre o sonho a um palmo de distância, embora a catástrofe seja iminente? 

Este é um espetáculo onde se cruzam gerações, ideias, vontades, propostas, desejos, e dele sairemos, com muita, mas mesmo muita energia. 

E termino com uma nota: hoje, dia 9 de novembro, celebra-se o Dia Internacional contra o Fascismo e o Antisemitismo. É um belo dia para começar a fazer a diferença. 

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