Boca a Boca #66 – Mais planeta, menos cliques

Crónica de Patrícia Portela

No passado domingo arrancou em Glasgow, na Escócia, a 26ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as alterações climáticas. Os números que estão sobre a mesa são reveladores de uma situação limite: mesmo com a descida de 7% das emissões de CO2 em 2020, devido à pandemia, “no final do ano os valores já estavam a ultrapassar os valores de 2019”.  Perdemos 25,8 milhões de hectares de floresta só em 2020, o equivalente a um campo de futebol por segundo, escrevem os jornais. Temos menos 13% de gelo no Árctico por década e já são frequentes os relatos de ursos polares presos em icebergues flutuantes ou a quebrarem o gelo com o seu peso, de tão fino que é.

O nível médio das águas do mar sobe 3,4mm por ano, a temperatura subiu 1.02 graus celsius e celebrar o verão de são Martinho durante o mês inteiro de outubro arrepia qualquer pessoa mais sensível.

Discutem-se soluções tecnológicas e políticas para reparar a saúde do planeta, enquanto plantar mais árvores e fazer menos parece ser uma das melhores opções que ninguém parece querer, poder, conseguir abraçar.

Ainda neste domingo discutiam-se nos media a denúncia de Frances Haugen a propósito dos Facebook papers.  Segundo esta antiga trabalhadora da empresa – entre 2019 a maio de 2021 “Corrigir o Facebook não é assim tão difícil: os problemas da empresa devem-se, em primeiro lugar a uma “pequena parte do conteúdo” nas suas plataformas. Para os resolver, basta deixar de dar o microfone ao conteúdo a quem dá mais cliques.”  Traduzindo, é um problema de escolha: no caso das redes sociais, a escolha de um algoritmo em relação ao que VAMOS ver, QUANDO a nossa escolha É ler e seguir os nossos amigos, familiares e associações ou clubes preferidos.

Da mesma maneira que em relação ao clima, talvez seja mais prudente apostar no que podemos deixar de fazer e está ao nosso alcance do que apostar em novas tecnologias e eternos movimentos de progresso, tecnológico e outros, como se o paradigma de crescimento contínuo continuasse a ser uma possibilidade real.

Queremos resolver uma pandemia enquanto queremos melhorias económicas permanentes. Queremos aceder a tudo a toda a hora de forma gratuita e com a maior qualidade. Queremos água límpida nos nossos rios e cidades verdes ao mesmo tempo que nos queremos deslocar de automóvel até ao café. Temos acesso a tanto quando a maioria do planeta não tem acesso nem a  tratamento das águas, nem a ferramentas digitais decentes.

Penso no programa que temos esta semana no Viriato. E penso que todas as propostas oferecem uma possibilidade de nos desligarmos da rede e de pensarmos no planeta: seja porque vos convidamos já esta quarta-feira a ouvir “Fêmeo” do dramaturgo Rubén Sabbadini em “Noite Fora”. Seja porque vos desafiamos a espreitar o trabalho do grupo de teatro jovem K Cena com o músico santomense Guilherme de Carvalho na Meia Dose de sexta-feira no Forum Viseu. Seja porque vos dizemos que não podem perder os conselhos de “Madame” no Café do Teatro já no sábado, a partir das 16h, um projeto de António Alvarenga e Leonor Barata que nos convida a ver quase tudo de uma perspetiva ligeiramente diferente. Em todas as propostas temos mais chão, mais planeta, e muito menos cliques.

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