Boca a Boca #62 – Tristany acorda-nos

Crónica de Patrícia Portela

Enquanto um estudo de dois anos intitulado Pandora Papers, envolvendo 600 jornalistas em 117 países, revela a riqueza oculta de centenas de líderes e celebridades mundiais, António Saraiva, Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa considera irracional o plano do Governo Português de aumentar o salário mínimo em 2022 para 705€. 

Enquanto se discute a irracionalidade de aumentar um salário tão mínimo, professores de todo o país escolhem leccionar no Algarve na esperança de entrarem mais cedo para os quadros, e alugam quartos minúsculos por preços absurdos com a garantia de serem despejados antes de cada verão para que os seus senhorios ganhem o dobro alugando-o a turistas. 

Enquanto os senhorios aproveitam as últimas semanas para albergarem os turistas que agora enchem os aeroportos e cumprem as city trips em falta, centenas de pessoas no aeroporto de Cabul já correram atrás de aviões que descolaram sem lhes abrirem as portas. Enquanto a Europa continua a discutir se deve ou não abandonar o Afeganistão à sua sorte uma explosão junto à mesquita de Cabul faz cinco mortos  e um estudo das Nações Unidas denuncia que apenas 5% da população afegã consegue pôr comida no prato todos os dias. Enquanto uns não conseguem pôr comida no prato com o salário que têm, outros esquecem-se da vida que levam assistindo à final do campeonato de Futsal de onde saem campeões mundiais ou ao último James Bond com Daniel Craig no papel principal, um filme que celebra uma era que teima em não se finar. Enquanto uns fazem o que outros desfazem, e uns têm a mais e outros nada terão, passa mais um fim de semana.  

O fim de semana em que fui ao Teatro ver Tristany pela primeira vez ao vivo.  

Em palco, na companhia de mais quatro músicos, Tristany habitou Viseu como se viajasse pela linha de Sintra. Puxou a meia por cima da calça, abraçou os seus parceiros como se fosse um fauno, cantou de pé, de costas, de cócoras, sentado no chão do palco, ouvindo os outros tocar e enquanto cantava perguntou-nos:  

Vocês acordaram hoje com vocês? E o sol? Acordou com vocês hoje?  

A plateia, calorosa e em sintonia com a magia do concerto respondeu que sim, mas eu fiquei na dúvida.  

Quantas vezes perdemos o lugar onde acordamos quando o mundo acorda a despenhar-se, a brunir fortunas irracionais e a questionar a subida de salários que mal põem comida na mesa? Quantas vezes não me quero acordar enquanto o mundo se explode em cima daqueles que não podem mas querem viver mais do que outros que procrastinam o seu acordar?  

Tristany acorda. Tristany acorda-nos. Tristany vive e canta acordado. Tristany faz a ligação entre os cheiros, as mágoas, as línguas, as periferias, os centros, os mundos velhos e os sempre novos, os que fazem sentido e os que não fazem sentido nenhum mas habitamos todos os dias. Canta como se fosse uma linha que não sendo reta vai, vermelha, a direito, pelo ar. E acende. Canta como se não se pudesse calar. Até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar. 

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