Boca a Boca #63 – A Presença e o Presente (em Natureza Fantasma) 

Crónica de Patrícia Portela

O que fascinava Roland Barthes numa fotografia era o facto de tudo o que se via nela ter acontecido. Corpos reais em lugares reais cumprindo ações reais num tempo e espaço reais eram capturados por olhos mecânicos e podiam ser revisitados infinitamente quando só tinham acontecido uma vez. A fotografia repete na imagem aquilo que não se pode repetir na existência. É a presença da ausência, tal como os raios de luz de estrelas há muito emitidas no universo e só agora visíveis, diria Sontag. No século que inventou ao mesmo tempo a história e a fotografia, olhava-se para uma imagem fotográfica e sabia-se que determinada realidade já tinha existido. 

Hoje não é bem assim. Hoje temos a manipulação da imagem e a sua transmissão e difusão em direto e em diferido, dentro e fora de contexto. Hoje temos o Deep Fake e a rede de histórias quotidianas que descrevem os nossos dias resulta da compra, venda, montagem e colagem de bocados de imagens, umas reais outras fabricadas, histórias que nos conduzem a viver por vezes mais do que uma vida em paralelo: a que o corpo sente e se obriga, voluntária ou involuntariamente, e a que construímos para nos mostrarmos aos outros. 

Foi num tempo que tem na fotografia múltiplas realidades existentes e não existentes que uma pandemia ceifou a presença imediata nos palcos um pouco por todo o globo. E foi nesse mesmo contexto que Marco Martins convocou a fotografia enquanto memória e como presença de uma realidade só que já existiu (bem ao jeito de Roland Barthes em Câmara Clara) e criou a instalação “Natureza Fantasma” para a Companhia Maior.   

A Companhia Maior é um projeto de artes performativas desenvolvido por artistas séniores e que, anualmente, desde 2010, convida um artista ou um coletivo por ano a criar uma obra original  — Pedro Penim, Jorge de Andrade, Sofia Dias e Vítor Roriz, Mónica Calle, Joana Craveiro ou Tiago Rodrigues foram já alguns dos artistas convidados. 

Em 2020 o convite foi endereçado a Marco Martins. E em março do mesmo ano, uma pandemia pôs em causa a natureza dos espetáculos ao vivo e considerou a maior idade um grupo de alto risco. As impossibilidades pareciam muitas e pertinentes, mas as questões que o projeto levantava, exigiam respostas mais urgentes: Que sociedade é esta que isola os mais velhos? Em que sociedade nos tornamos quando deixamos de velar os mortos? O que somos quando aceitamos a suspensão do tempo para que o tempo passe sem nós? E que espectáculo se pode fazer para continuar a convocar a presença no tempo presente? Até onde vai o compromisso, até onde pode ir a transformação de um objecto sem desvirtuar a vontade e a paixão que o originaram? 

Marco Martins decide conversar. Decide descobrir e pensar as realidades de cada um dos seus intérpretes através de velhos álbuns de fotografias de família. Inicia um processo de combustão entre as histórias que ouve e as fotografias que todos podemos ver. Marco Martins converte memórias privadas em fantasmas coletivos e descobre o ouro indispensável de que as artes vivas são feitas: A presença no presente. A confusão, neste caso necessária, entre o Real e o Vivo. Através da emoção, da recordação e do encontro: com o passado, com os outros e com que ainda está para vir. 

Afinal, ainda há muitas maneiras de se habitar um espaço que reclama distância. Há muitas formas de estarmos colados uns aos outros por corpos intangíveis e no entanto muito reais. A fotografia e a imagem em movimento são um encontro com esses corpos. 

Tal como Roland Barthes olhava uma fotografia de 1852 do irmão mais novo de Napoleão e se deslumbrava com a ideia daquele olhar já ter olhado para o Imperador, também nós em “Natureza Fantasma” olhamos para pessoas que já olharam para os intérpretes e criadores desta peça, que já conviveram ou ainda convivem com quem tem agora voz nesta instalação. 

Ou seja, Marco Martins reinventa a presença no teatro convocando a sua mais antiga missão: o ritual de passagem entre a vida e a morte através da convocação da presença dos nossos fantasmas. E tudo isto perante a ausência de um tempo de acção presente que se viveu em 2020 e 2021. Haverá algo mais crucial no Teatro do que a sua eterna relação com o culto da vida mas também da morte?  

Foi uma felicidade do destino ver-me atravessada no percurso desta obra que me caiu no regaço quando cheguei ao Teatro Viriato. Aquilo que começou por ser uma co-produção que previa uma companhia com duas dezenas de actores em palco, transformou-se num clássico grego com centenas de figurantes e intérpretes que transformam a garagem no piso -3 do parque de estacionamento do Forum Viseu num anfiteatro no cume de uma montanha olímpica. É lá que assistimos à história de todos nós.  

Patrícia Portela 

Boca a Boca #62 – Tristany acorda-nos

Crónica de Patrícia Portela

Enquanto um estudo de dois anos intitulado Pandora Papers, envolvendo 600 jornalistas em 117 países, revela a riqueza oculta de centenas de líderes e celebridades mundiais, António Saraiva, Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa considera irracional o plano do Governo Português de aumentar o salário mínimo em 2022 para 705€. 

Enquanto se discute a irracionalidade de aumentar um salário tão mínimo, professores de todo o país escolhem leccionar no Algarve na esperança de entrarem mais cedo para os quadros, e alugam quartos minúsculos por preços absurdos com a garantia de serem despejados antes de cada verão para que os seus senhorios ganhem o dobro alugando-o a turistas. 

Enquanto os senhorios aproveitam as últimas semanas para albergarem os turistas que agora enchem os aeroportos e cumprem as city trips em falta, centenas de pessoas no aeroporto de Cabul já correram atrás de aviões que descolaram sem lhes abrirem as portas. Enquanto a Europa continua a discutir se deve ou não abandonar o Afeganistão à sua sorte uma explosão junto à mesquita de Cabul faz cinco mortos  e um estudo das Nações Unidas denuncia que apenas 5% da população afegã consegue pôr comida no prato todos os dias. Enquanto uns não conseguem pôr comida no prato com o salário que têm, outros esquecem-se da vida que levam assistindo à final do campeonato de Futsal de onde saem campeões mundiais ou ao último James Bond com Daniel Craig no papel principal, um filme que celebra uma era que teima em não se finar. Enquanto uns fazem o que outros desfazem, e uns têm a mais e outros nada terão, passa mais um fim de semana.  

O fim de semana em que fui ao Teatro ver Tristany pela primeira vez ao vivo.  

Em palco, na companhia de mais quatro músicos, Tristany habitou Viseu como se viajasse pela linha de Sintra. Puxou a meia por cima da calça, abraçou os seus parceiros como se fosse um fauno, cantou de pé, de costas, de cócoras, sentado no chão do palco, ouvindo os outros tocar e enquanto cantava perguntou-nos:  

Vocês acordaram hoje com vocês? E o sol? Acordou com vocês hoje?  

A plateia, calorosa e em sintonia com a magia do concerto respondeu que sim, mas eu fiquei na dúvida.  

Quantas vezes perdemos o lugar onde acordamos quando o mundo acorda a despenhar-se, a brunir fortunas irracionais e a questionar a subida de salários que mal põem comida na mesa? Quantas vezes não me quero acordar enquanto o mundo se explode em cima daqueles que não podem mas querem viver mais do que outros que procrastinam o seu acordar?  

Tristany acorda. Tristany acorda-nos. Tristany vive e canta acordado. Tristany faz a ligação entre os cheiros, as mágoas, as línguas, as periferias, os centros, os mundos velhos e os sempre novos, os que fazem sentido e os que não fazem sentido nenhum mas habitamos todos os dias. Canta como se fosse uma linha que não sendo reta vai, vermelha, a direito, pelo ar. E acende. Canta como se não se pudesse calar. Até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar.