UM TEATRO DE CHOCOLATE

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Pedro Vieira. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos de Pedro Vieira, Bárbara Assis Pacheco e Alice Geirinhas para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro Viriato —“Meia Dose”, situado no Forum Viseu —, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Hansel e Gretel”, dos Irmãos Grimm

lido por Gaspar Machado Gomes

Clicar na imagem para ouvir

Fotografia dos estudos de Pedro Vieira na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Era uma vez uma família peculiar que vivia num planeta onde mal se podia viver. As geadas davam cabo das searas, as cheias e os incêndios destruíam os campos e cidades, as ondas de calor e de frio matavam os mais velhos e fechavam os mais novos em casa.

Esta família, como tantas outras, tinha insónias, e à noite, alguns davam voltas na cama, enquanto elaboravam formas de se sustentar e de sobreviver às intempéries. Mas enquanto outras famílias decidiam partir para outros lugares, mudar de emprego, duplicar os turnos e os trabalhos ou assaltar bancos para melhorar o nível de vida, esta família peculiar teve uma ideia peregrina:

– Ó Zé, e se abandonássemos os nossos filhos à sua sorte, no meio da floresta? Acendemos-lhes uma fogueira, damos-lhes um bocadinho de pão, dizemos que já voltamos e nunca mais aparecemos.

O Zé, que apesar das costas partidas, de um dedo amputado e duas úlceras, ainda tinha um bocadinho de coração, hesitou, mas logo a Elvira o confortou com argumentos imbatíveis:

– Então vamos morrer os quatro para não deixar morrer dois, que nem sequer podem ajudar na labuta por causa das malditas leis contra o trabalho infantil?

O Zé encolheu os ombros, o rabo entre as pernas, e concordou com o plano. Mas porque a fome não deixa só os crescidos insones, João e Maria, no quarto ao lado, ouviram o plano maquiavélico dos pais. Mas não se deixaram ir abaixo. Encheram os bolsos de pedrinhas e, de manhã, já eles estavam preparados.

O Zé e a Elvira levaram os filhos, por muitas voltas, até ao centro mais denso da floresta, acenderam uma fogueira e deram um bocadinho de pão a cada um.

– Não saiam daqui, nós já voltamos.

E nunca mais apareceram…

Mas o João e a Maria, destemidos, não porque tinham um cavalo que só falava inglês (como na canção do Chico) mas porque tinham, mui prevenidos, largado as pedrinhas que traziam nos bolsos para assinalarem o regresso, puseram-se a caminho de casa. Chegaram com o rouxinol (ou terá sido com a cotovia, qual dos dois cantou a aurora a Romeu?) e bateram à porta. Elvira, quando os viu, escondeu o espanto e gritou-lhes com toda a fúria que sempre tinha:

– Ai filhos malditos, que quase nos mataram de angústia, que andaram vocês a fazer toda a noite fora de casa? E chegam de mãos a abanar? Sem lenha rachada para nos aquecer nem nada? Ficam de castigo, hoje não comem!

Nessa mesma noite, os filhos ouviram a gritaria dos pais, a lista das contas por pagar, a falta que a mobília penhorada lhes fazia, mais o anel de rubi, mais o terceiro emprego que tinham perdido, etc. etc. etc…

E, no dia seguinte, a Elvira ordena de novo, como se nada fosse: – Vá, ala para a floresta cortar lenha, que se faz tarde!

O João e a Maria olharam petrificados um para o outro. Não lhes ocorreu que os pais repetissem o plano. Mas não desanimaram. Pegaram no pão que os pais lhes deram como farnel e, migalha a migalha, foram marcando o caminho.

– Não saiam daqui, que nós já voltamos.

E nunca mais apareceram.

Puseram-se os dois de novo a caminho mas, quando olharam em volta não encontraram uma única migalha. Os rouxinóis (ou teriam sido as cotovias?) tinham-se regalado com as migalhinhas de pão e não havia como saber o caminho de volta. O João entrou em pânico. Mas a Maria, que era mais velha, teve uma ideia:

– Oh, para quê regressar a casa? Amanhã põem-nos aqui outra vez. Porque não nos fazemos à estrada?

E lá foram. A chatice é que eles não sabiam onde estavam nem que direção deviam seguir e, depois de andarem um dia inteiro, acabaram no mesmo sítio.

Ainda assim, continuavam destemidos (eram novos) e com muita vontade de fazer alguma coisa pela vida (eram ingénuos). E voltaram a caminhar. E voltaram ao mesmo lugar.

À terceira vez que encontraram as cinzas da sua própria fogueira no caminho, e apesar de ainda destemidos e com vontade de fazer alguma coisa pela vida, veio-lhes um enorme cansaço, a única coisa que consegue atirar os corpos contra a insónia da fome e pesar mais sobre os olhos.

Adormeceram. Debaixo de uma árvore. E como acontece a muitos que assim dormem, sonharam.

Sonharam que ouviam uma cotovia a cantar maviosamente para um rouxinol.

Sonharam que viam no bico do rouxinol as suas migalhinhas. Sonharam que o rouxinol lhes dizia para o seguirem. Sonharam que o seguiam. Sonharam que o rouxinol depositava a migalhinha na boca de Romeu, como uma mãe-pássaro faz a um filhote-pássaro. Sonharam que corriam para a boca de Romeu a tempo de ver que a migalhinha tinha manteiga e que por ela poderiam escorregar. Sonharam que escorregavam pela migalhinha, caindo os dois pela goela do Romeu abaixo. Afinal não era Romeu mas Hamlet.

E, sem saber muito bem o que fazer com essa descoberta, mas ainda destemidos, João e Maria seguiram na sua viagem e aventuraram-se pelas artérias e veias, pelas cartilagens e pelos músculos do Reino da Dinamarca. Era tudo tão bonito, ali dentro daquele corpo que ainda não era um fantasma!

Nunca lhes tinha ocorrido pensar que um corpo era um sítio tão impressionante! Nem um órgão fora do sítio, nem osso sem função! Até a fome lhes pareceu bonita por um momento, e foi nesse momento que avistaram ao longe, na palma da mão direita do príncipe, um teatrinho de chocolate. A barriga apertou, relembrando-lhes da fome que tinham. Deram as mãos, e com muito cuidado desceram pelo braço direito, até às falanges do dedo mindinho, e lá chegaram ao teatrinho de chocolate.

O teatrinho era lindo e cheirava muito bem. Tinha um telão com um príncipe igual ao seu e de cada lado, um pendão que dizia: Ser ou não ser? Eis a questão. A Maria, sempre a mais destemida e a mais esfomeada, pegou na maçaneta da porta e tentou abri-la. Ficou com a maçaneta na mão. Qual não foi o seu espanto ao perceber que o interior da maçaneta de chocolate era feito de pão-de-ló.

Comeu a maçaneta. O João era mais tímido, mas fixou o chão e, sem pensar duas vezes, deu duas dentadas num rodapé. Era de massapão.

– Olha, João, os vidros são de algodão-doce!

– Maria, as cadeiras são cavacas de ovos-moles!

– João, os bilhetes são bolachinhas!

– Maria, o palco é feito de sonhos de abóbora e rabanadas! Podemos viver aqui para sempre sem nunca mais passar fome!

Mas dos bastidores, chega-lhes uma voz retumbando:

– Quem está a comer o meu lindo teatrinho de chocolate? Era a bruxa má, claro, disfarçada de velhinha inocente e querida.

– Que lindos meninos! Comam à vontade! Venham comigo, que vou mostrar-vos as melhores guloseimas.

E a bruxa fez-lhes uma visita guiada ao teatrinho de chocolate enquanto lhes oferecia leite morno, bolinhos, maçãs e nozes.

Eles comeram até mais não.

– Ai Maria, adoro a Dinamarca!

– Ai João, eu também, e se ficássemos cá a dormir?

E logo apareceram duas caminhas para eles pernoitarem no teatrinho de chocolate. Caminhas que se podiam comer ao pequeno-almoço quando acordassem.

Tudo indicava que tinham encontrado o paraíso nas vísceras de um príncipe conturbado. No dia seguinte é que foram elas. De chocolate ou de folhado, a maçaneta não rodava e os vidros de açúcar das janelas não abriam. Procuraram outra saída e acabaram por encontrar a porta dos artistas, e, já fora do teatro e quase fora da palma da mão direita do príncipe da

Dinamarca, estava a bruxa a aquecer um grande caldeirão, enquanto se ria:

– Estão tão gordinhos! Vão dar um belo petisco! Já é o terceiro casalinho de garotos que encontro esta semana na floresta! Esta crise tem sido uma festa!

A Maria, que mesmo com excesso de açúcar no sangue continuava destemida, nem pensou duas vezes, correu para a velha bruxa e empurrou-a para dentro do caldeirão que, afinal, era um buraco sem fundo na mão de Hamlet. Ainda foi a tempo de salvar a colher de pau, que era de rebuçado, e ficou a ver a bruxa a cair, qual Alice pelo buraco das maravilhas, até deixar de ouvir os seus gritos.

Maria nunca pensou que pudesse ser tão fácil emancipar-se. Mas Maria também não imaginara encontrar um teatrinho de chocolate. Nem ser abandonada pelos pais. Nem perder o caminho para casa porque um rouxinol lhe comera as migalhinhas que assinalavam o caminho de volta.

Maria fica muito tempo a olhar para o abismo, sem saber o que fazer.

Eis se não quando uma caveira de algodão-doce aparece e lhe pergunta:

– Ser ou não ser, é essa a questão? A sobrevivência? A insistência? Ou a procura do sublime? Do belo? Do transcendente? O que será mais nobre? Aceitar o infortúnio? Ser almejada por setas? Seguir pedras e migalhas que nos vão assinalando o caminho?

Ou devemos insurgir-nos contra as provocações e os impropérios, contra as injustiças e as desigualdades? Estaremos mais à altura quando vamos à luta? Seremos mais altos quando, imóveis, decidimos pôr fim à angústia com o sono, empurrando a dor para o dia seguinte? Comendo apenas em sonhos, portas e janelas de um teatro anatómico de chocolate quando deveríamos comer a vida como se fosse um banquete onde todos se servem à mesma mesa?

A Maria não percebeu.

O João também não percebeu mas decidiu:

– Anda! Vamos construir a nossa própria casa de chocolate!

Capa do programa SET-DEZ’21 do Teatro Viriato, com ilustração de Pedro Vieira

Pedro Vieira

Lisboa, 1975. Licenciado pela Escola Superior de Comunicação Social, trabalhou no Canal Q das Produções Fictícias e é, atualmente, guionista e pivô do programa O Último Apaga a Luz da RTP3 e do podcast [IN]Pertinente da FFMS. É responsável pela Comunicação do Cinema São Jorge.

Trabalha como ilustrador freelancer para a imprensa e meio editorial e escreve livros como se isso fizesse sentido.

Gaspar Machado Gomes

Sou o Gaspar e só chorei quando nasci. Pratico karaté desde os três anos e também andebol. Gosto muito de videojogos, de estar com os amigos e de ver espetáculos que me façam rir. Sou amigo do Teatro Viriato porque vou desde pequenino e adoro ver novo circo.

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