UM TEATRO A CAMINHO DE BREMEN

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Bárbara Assis Pacheco. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos da Bárbara Assis Pacheco, e ainda de Alice Geirinhas e Pedro Vieira, para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro: “Meia Dose”, situado no Forum Viseu, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Os Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm

lido por Sandra Correia

Clicar na imagem para ouvir

Fotografia dos estudos de Bárbara Assis Pacheco na exposição “Temporadas Desenhadas”

Era uma vez o último auroque à face da Terra. Passava os dias escondido ou a fugir de caçadores. Vivia lá para os lados do Côa e carpia noites inteiras, pedindo aos deuses, aos da terra, que o ajudassem na sua tamanha solidão. Um dia, enquanto tricotava um pé de meia com uma moura encantada, o sol bateu de maneira diferente no xisto do seu álbum de família. Um auroque, um outro auroque, robusto, gravado na pedra, um seu igual que nunca tinha visto. Encostou a sua orelha àquele dorso martelado e ouviu:

– Vai-te embora daqui! Vai ser músico em Bremen! Lá encontras outros como tu, montas uma banda e serás feliz para sempre!

E como uma multidão de caçadores apareceu a correr na sua direção, o auroque não pensou duas vezes e fugiu na direção contrária. Ele não sabia onde ficava Bremen mas estava decidido a fazer-se à estrada sem olhar para trás.

*

Era uma vez um ser humano que se queria livrar de um burro-de-miranda, que durante muito tempo lhe carregara os fardos, o levara a todos os cantos da aldeia e ainda lhe entretera filhos e netos. Mas agora o burro estava velho e cansado, e o dono achou que o bicho já não lhe podia prestar serviço e queria substituí-lo rapidamente por um burro mais novo. Começou a diminuir a ração do bicho, para que passasse fome e definhasse. Mas o burro-de-miranda, que não era nada burro, ou não fosse ele de Miranda, percebeu logo a marosca e em bom tempo se fez à estrada.

– Se não posso mais ser burro de carga, quero ser músico! Vou para Bremen! Lá encontrarei outros músicos, e juntos faremos uma banda!

Mal disse isto, deu de caras com o auroque solitário.

– Também vais para Bremen? – perguntou o burro-de-miranda.

– Como é que sabes? – perguntou o auroque, começando a acreditar em magia.

Sem trocarem sequer um relinchar, fizeram-se os dois à estrada, lado a lado, a caminho de Bremen.

Já tinham caminhado um bom bocado quando encontraram um pangolim ofegante:

– Porque estás tão ofegante, pangolim? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oooh – reclamou o pangolim. – Ando a fugir. Uns querem vender-me no mercado, outros querem as minhas escamas para curas médicas, outros ainda acham que sou a causa de uma doença que todos têm e querem dar cabo de mim. Não tenho poiso nem sei como fazer para ganhar o pão de cada dia.

– Olha, nós vamos para Bremen – disse o burro-de-miranda.

– Vamos ser músicos e tocar numa banda.

Eu toco alaúde, ele toca adufe. E tu? Queres vir? – convidou o auroque.

E fizeram-se os três à estrada.

Não durou muito até encontrarem uma marta encharcada, a carpir à beira-rio.

– Que se passa, amiga, porque estás tão desanimada? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Como posso eu estar animado se todos querem dar cabo de mim? Vivi sempre em cativeiro, vi os meus familiares e amigos partir, um a um, para servirem de casacos a senhoras que vão ao teatro. E agora procuram-me por causa de uma doença que todos os humanos têm e que acham que é por minha causa. E agora? Para onde ir?

– Vem connosco para Bremen. Já percebemos que cantas bem quando choras, podes juntar-te à nossa banda municipal!

E fizeram-se à estrada para logo encontrarem um pato-mudo branco.

– Então, que grasnar é esse? Estás aflito? – perguntou-lhe o burro-de-miranda.

– Oh, nem sabes da desgraça da minha vida – disse o pato-mudo.

– A vida corria lindamente, vivia na fonte do jardim central da minha aldeia, um senhor muito simpático visitava-me todos os dias, alimentava-me, falava comigo e até tocava guitarra ao final da tarde, mas agora, por causa de uma doença que todos têm, as ruas estão desertas e o senhor simpático perdeu o emprego e já não cuida de mim. E hoje ouvi-o mesmo murmurar: «Ah! Que bela canja posso fazer contigo! Anda cá que já te torço o pescoço.» E eu desatei a grasnar e nunca mais parei!

– Deixa-te disso, pato-mudo branco – disse o burro-de-miranda. – Traz a guitarra que já não toca e vem connosco ser músico em Bremen.

E lá se fizeram os cinco à estrada, seguindo as curvas de um rio, as suas vinhas douradas e as suas amendoeiras em flor. E atravessaram um planalto. E uma serra. E tudo isto sem ver vivalma, muito menos humana. Mas perceberam que não chegariam a Bremen antes de escurecer. Por isso, quando avistaram, ao longe, um teatro com as luzes acesas, lá para os lados de Viseu, aproximaram-se, encavalitaram-se uns sobre os outros e espreitaram por uma janela.

– Epá, tantas iguarias! – partilhou o pato-mudo branco.

– Ah! Essas iguarias seriam perfeitas para nós – salivou o auroque.

– Ah! Se conseguíssemos entrar! – suspirou a marta.

– Até abríamos as portas a todos os bichos que quisessem entrar, humanos ou não – prometeu o burro-de-miranda.

– Era bom, sim, mas como conseguimos entrar? – alertou o pangolim.

Nisto, caíram com grande estardalhaço e assustaram um morcego-vampiro que há muito ali vivia, pendurado de cabeça para baixo. Em tempos, um guardador de almas e longevidades, era agora odiado pelos demais por causa de uma doença que todos os humanos têm.

– Saiam todos daqui! Já! – ralhou o morcego, que não era Drácula mas conhecia bem a escuridão dos tempos que esta Europa atravessava.

– Chiiiu! – pediram o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco. – Nós não somos perigosos. Ajuda-nos a entrar e nós prometemos abrir o teatro a toda cidade, e ainda te podes juntar à nossa banda. Vamos todos para Bremen.

E assim foi, reuniram-se e desenharam um plano para entrar.

Num silêncio pétreo, estes equilibristas estavam todos preparados para dar um concerto mágico que abriria as portas desta casa das artes.

Concentrados na mais profunda das suas dores, o auroque, o burro-de-miranda, o pangolim, a marta e o pato-mudo branco cantaram em silêncio com toda a sua força. E o morcego, que ouvia o que os humanos ainda não sabiam ouvir, emitiu a bela composição, através de ondas ultrassónicas, para dentro do Teatro, mapeando todos os obstáculos que os impediam de entrar. O eco era tão encantador que os obstáculos se afastaram e a porta se abriu.

Conta o resto da história que os músicos nunca chegaram a Bremen nem a porta do teatro se voltou a fechar. Desde então, todos são bem-vindos naquela casa, bichos, pessoas e plantas, e conta-se que, juntos, em conversa, em concerto ou através de equilíbrios mágicos, lá vão encontrando, juntos, a cura para todos os males.

Capa do Programa JAN-MAR do Teatro Viriato, com ilustração de Bárbara Assis Pacheco

Bárbara Assis Pacheco

Lisboa, 1973. Vive e trabalha em Lisboa. Licenciou-se em Arquitectura (FAUTL, Lisboa) e em Filosofia (FCSHUNL, Lisboa), entre as duas fez Desenho e o Curso Avançado de Artes Plásticas no Ar.Co (Lisboa). Participou na primeira edição do curso de Fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística.

Faz desenhos e coisas.

Sandra Correia

© Carlos Fernandes

A primeira personagem a que dei voz tinha o nome de Karin Thimm, de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, de Rainer Werner Fassbinder, numa encenação de Paulo Castro para o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Dei voz a outras personagens, mas ouvi muitas mais ao longo dos quase últimos 30 anos. Sou agora uma espetadora a quem foi lançado o desafio de ir “a caminho de Bremen”.

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