Boca a Boca #61 – Não chega só fazer teatro

Crónica de Patrícia Portela

Na passada sexta feira recebemos  Paisagens para não colorir do grupo La-Resentida com encenação de Marco Layera, a partir das histórias e entrevistas realizadas a 170 adolescentes vítimas de violência nas ruas do Chile. No palco 9 adolescentes entram em cena. O espetáculo começava assim:

“Temos entre 14 e 17 anos. Somos 9 e entre todas há: Uma que dorme com um peluche. 6 que não acreditam em Deus. 5 que já pensaram em suicidar-se. Uma que nunca deu um beijo. 3 que já tiveram relações sexuais. Uma que viu o pai cuspir na mãe.Duas que foram ameaçadas de norte no thiscrush.com. Uma que abortou com misotrol. 7 que foram vítimas de bullying. 9 que marcharam no 8 de março. 5 que foram agredidas físicamente pelos pais. 9 que sofreram de assédio na rua. 9 que foram chamadas de puta. 9 que querem deixar de ser invisíveis. 9 que precisam urgentemente de ser ouvidas.”

A realidade é excessiva. E contra ou a favor da realidade, já não chega só fazer teatro, afirma o encenador desta peça. Se fazemos uma peça sobre uma comunidade que não vem ao teatro, fazemos esta peça para quem? E para quê? E Para quê?

A pergunta ecoou por toda a sala durante todo o espectáculo. A pergunta fazia ricochete e cada espectador se perguntou certamente? Porque vimos ao teatro, porque estamos sentados a ver este espectáculo? Para que serve estarmos a ver este espectáculo e o que vamos fazer depois de o ter visto? Não chega só ver teatro e reconhecer em cada cena algo que já presenciámos, que sabemos que existe, que sabemos que se perpetua, que, quem sabe, também perpetuamos ou justificamos.

A certa altura em cena um técnico da companhia faz de Pai e lê um jornal enquanto a filha grita: Papá, ouve-me! Papá ouve-me! Papá ouve-me! Cada vez mais alto. 

Não há resposta.

Do outro lado, na plateia, nós, que já fomos todas filhas, algumas são mães, a grande maioria nesta sala adultas, já nos vimos nesta situação. A de não ser ouvidas, mas também a de não ouvir. E já não chega termos voz. Já não chega termos consciência dos nossos erros. Já não chega assinarmos teatro, fazermos teatro, irmos ao teatro. Mas é sem dúvida um princípio fundamental. O começo de uma viagem através de um encontro, através de uma partilha para que todas e todos, juntos, lutemos por um lugar mais igualitário, mais livre, mais democrático, mais empático, mais justo. Assim o fizemos na passada sexta feira, numa sala quase esgotada. A ovação de pé que se ouviu soou a pacto. Ninguém se vai calar, até que o último lugar na Terra seja o melhor lugar.

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