ESPELHO, ESPELHO MEU, QUEM SOU EU?

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm,

lido por José Carlos Leorne

Espaço para ler e/ou ouvir um conto de Patrícia Portela para as ilustrações de Alice Geirinhas. A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos da Alice Geirinhas, e ainda de Bárbara Asis Pacheco e Pedro Vieira, para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro: “Meia Dose”, situado no Forum Viseu, a exposição pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Clicar na imagem para ouvir

Fotografia dos estudos de Alice Geirinhas na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Num tempo muito anterior a este abril, ainda a neve cobria metade destas terras o ano inteiro, uma rainha costurava, distraída, à janela, quando se picou na agulha. Três gotas de sangue mancharam o manto de neve que se estendia lá fora. O vermelho no branco era tão vivo que ela desejou: “Fosse eu branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira desta janela, e não de uma cor só.” Pouco tempo depois, deu essa rainha à luz uma filha, branca como a neve, intensa como o vermelho do sangue, e com uma farta cabeleira tão negra como a madeira da sua janela. O parto foi demorado e doloroso, e a rainha morreu nesse mesmo dia, nunca chegando a pegar ao colo a sua cria que não era de uma cor só. O pai, o rei, para curar a profunda tristeza em que se afundara e esquecer a ansiedade dos múltiplos negócios de estado, voltou a casar com a dama mais bela do reino, obviamente, uma mulher orgulhosa e prepotente, como sempre são as mulheres de segundas núpcias em contos de fadas, sempre madrastas antes de serem mães.

Essa dama cedo foi votada à mesma solidão da rainha anterior e, não sabendo costurar, perdia os dias à conversa com o seu reflexo, a sua única companhia. Não tendo mais do que a sua beleza, vivia apavorada com a ideia de envelhecer, e passava horas a fio a esconder as rugas que via nascer à volta dos seus belos olhos azuis, a arrancar os cabelos brancos da sua farta cabeleira dourada e a disfarçar as pequena manchas que contrariavam a sua pele de mármore. E, sem ninguém que a elogiasse, a rainha terminava todos os seus dias perguntando ao espelho se era bela, e, julgando ouvir-lhe um elaborado sim, adormecia certa de que valeria a pena acordar.

Por sua vez, o espelho, que há gerações vivia pendurado naqueles aposentos reais e conhecia com detalhe todas as caras que por ali tinham passado, suspirava não raras vezes com saudades de muitos deles porque aprendera a amá-los a todos e, por isso, a mostrar-lhes apenas o que desejavam ver. Foram muitas as gerações de mulheres e de homens que lhe perguntaram se eram belos, que perante ele ensaiaram discursos, que nele confirmaram as certas indumentárias para as muitas celebrações da corte. À sua frente, muitos duvidaram fraquejaram, ganharam forças, choraram, recuperaram confiança.

Apenas esta rainha parecia não querer saber de mais nada que não fosse a sua beleza, e, assim, os dias para este espelho sucediam-se sempre iguais, perante uma mesma face de uma só rainha, sem nenhuma outra faceta.

Até ao dia em que, já crescida, a princesa Branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a janela de sua mãe entrou à  socapa no quarto da rainha, sua madrasta, para procurar uns brincos. Tencionava usá-los para um encontro secreto com alguém que, assim o desejava, fosse na sua vida um príncipe. Vasculhou todas as gavetas, todas as caixas, et voilà!, encontrou o que procurava. Sem hesitar, colocou os brincos e olhou-se ao espelho. Foi nesse momento que ouviu o espelho:

– De quem és tu?

– De quem sou eu? Como assim?

Branca como a neve nunca tinha ouvido um espelho a falar, muito menos para fazer perguntas sem sentido. Fugiu, apavorada, do quarto. E nunca mais ao quarto voltou.

O resto da história já muitos de nós conhecemos. Um dia, o espelho deu uma resposta indesejada à rainha, a rainha julgou poder mudar essa resposta se mandasse um caçador matar a nova mais bela do reino, que por acaso era sua enteada, o caçador matou um javali no lugar da donzela e enganou a rainha com as vísceras do bicho. Branca de Neve fugiu, encontrou sete irmãos, todos do mesmo tamanho e com muita barba, e viveu com eles por uns tempos. O espelho não sabia mentir, e a rainha descobriu que a mais bela de todas ainda vivia. Seguindo um sábio conselho, a rainha acatou a tarefa de a matar com as suas próprias mãos, descobriu onde a Branca de Neve vivia e, disfarçada, tentou, primeiro, vender-lhe um corpete que a asfixiasse, depois um pente que lhe arrancasse os sentidos pelos cabelos, mas, não resultando nenhum destes planos, acabou por lhe oferecer uma bela maçã de um paraíso perdido, ou não fosse esta a eterna e trágica primeira história do fim do mundo de qualquer mulher. Branca de Neve agradeceu, trincou a maçã e engasgou-se. Um príncipe que ia a passar deu-lhe uma palmada nas costas a tempo de a salvar – a história do beijo é o que se conta só porque foi nesse momento que chegaram os sete irmãos e os apanharam em flagrante gesto, já o pior tinha passado.

O que não se tem contado quando se conta esta história é que o rei soube desta tragédia, e a rainha teve de fugir do reino, e só muitos anos mais tarde pôde voltar a conversar com o espelho no dia em que regressou ao palácio para chorar o rei que acabara de se finar naquele quarto que já não era seu.

O rei deixara para ela o espelho embrulhado num pano de algodão onde se poderia ler, bordado a fio de ouro: a beleza está no olhar de quem a vê.

Mas a rainha tinha a sua própria pergunta para fazer ao espelho e convenceu-se que aquela não seria a sua resposta.

– Espelho, espelho meu, o que viste tu em Branca de Neve que não tinha eu?

E o espelho respondeu. Disse-lhe que vira em Branca de Neve todas as caras que conhecera naquele palácio e das quais tinha saudades. Viu o nariz da sua mãe, os olhos da sua avó, os lábios da sua tia, as orelhas do seu avô, o sorriso de uma prima direita, a tristeza do seu pai, e até a expressão de uma tribo ancestral que desparecera da face da terra, e ainda os cabelos da sua bisavó. Viu nela tantas outras vidas que se entristeceu ao se aperceber de quanta gente sentia falta. Nessa mesma noite, quando a rainha madrasta voltou a perguntar-lhe quem era a mais bela, o espelho respondeu que era ela mas também a Branca de Neve.

Disse-o na esperança de reaver, naqueles aposentos, aquela cara tão cheia de memórias de tantas outras caras, nunca imaginando a tragédia que acabaria por promover.

A conversa entre a rainha e o espelho foi longa, e não contaram as lendas mas hoje sabe-se que foi de uma sinceridade sem precedentes. A rainha percebeu então que não faria sentido aquele espelho terminar os seus dias a olhar sempre a mesma cara e teve uma ideia:

– Gostavas de viver num camarim de um teatro?

E assim foi. Desde então, vive esse espelho nos bastidores do nosso teatro, reencontrando em todos os artistas que por aqui passam, um olhar, um gesto, uma maneira de ser de alguma das mais belas e amadas mulheres e mais belos e amados homens da sua vida.

Capa do Programa do Teatro Viriato ABR-JUL’21 com ilustrações de Alice Geirinhas

Alice Geirinhas

Évora, 1964. No campo da criação e investigação artística tem desenvolvido um corpo de trabalho a partir da teoria feminista intersecional sobre identidade, sexualidade, igualdade de género, resistência ao histórico, da ideia do pessoal é político e da poética do político. Desde os meados dos anos 80, tem vindo a desenvolver um corpo de trabalho traduzido em vários media: desenho, livro de artista, fanzines, vídeo e instalação.

À sua primeira exposição individual, “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer”, Zé dos Bois (ZDB) seguiram-se (entre outras), “Alice”, Bedeteca de Lisboa; “Ce sex qu’est pas un”, Museu do Neo-realismo, Vila Franca de Xira; “Chora”, Gaivotas 6, Lisboa.

De entre as exposições colectivas que integrou destacam-se: “2012-2020 obras da Coleção António Cachola”, MACE, Elvas, “Ponto de Fuga/Vanishing Point”, Cordoaria Nacional, Lisboa, “A Guerra como Modo de Ver”, MACE, Elvas, “Género na Arte: corpo, sexualidade, identidade e resistência”, MNAC, Lisboa, “Re-produtores de Sentido”, SESC Rio, Rio de Janeiro, Portugal: “30 Artists Under 40”, The Stenersen Museum, Oslo.

Está representada em diversas coleções públicas e privadas e o seu trabalho é regularmente publicado em livros e revistas especializadas.

José Carlos Leorne

Antes do Teatro Viriato ser o que é hoje, foi no “Teatro de enormidades apenas críveis à luz elétrica”, em 1985, com textos de Aquilino Ribeiro e encenação de Ricardo Pais, que me apaixonei por este lugar e decidi que queria ser mais do que um espectador, queria fazer parte desta casa, do que se tornasse, e do trouxesse. No início da nova fase, em 1996, com a chegada da Companhia Paulo Ribeiro e o celeiro a ser transformado em palco e plateia, tornei-me (e à Casa Leorne) amigo formal deste Teatro Viriato do qual escolho como espectáculo de sempre, o próximo!

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