Boca a Boca #36 – A Tua Presença

Crónica de Patrícia Portela

A partir desta semana, os operadores de telecomunicações podem limitar ou mesmo bloquear o acesso a serviços de banda larga de internet considerados não essenciais. 

O objetivo é dar prioridade e proteger os serviços críticos do Estado, como os hospitais, as forças de segurança, a transmissão de avisos à população ou a distribuição de sinais de televisão linear e televisão digital terrestre. 

O congestionamento das redes é uma preocupação crescente neste novo estado de emergência, e as empresas de telecomunicações, sempre que necessário, podem, a partir de agora, interromper o acesso a plataformas digitais como a Netflix, o Youtube, ou as plataformas de videojogos. Neste grupo de plataformas prescindíveis, podem mesmo estar as plataformas escolares de aulas online ou mesmo o nosso SubPalco que, como tantas novas plataformas, transmite espectáculos, conferências e outras actividades que gostaríamos de partilhar ao vivo. Nesta lista não estão os livros, nem os espectáculos ao vivo que agora ensaiamos mas não podemos partilhar na nossa sala.

O ser humano tem esta tendência para carregar no acelerador quando se vê perante abismo. Parece ser mais difícil dar meia volta e regressar a um lugar onde se pode ser feliz. Preferimos alternativas e sucedâneos que nos entretenham a mudanças de rumo e de fundo para a vida que levamos.

As ruas estão desertas. E os seus habitantes obrigados a recolherem-se em casa, saindo apenas para adquirir os tais bens essenciais (medicamentos e alimentação).  

Dentro de casa, todos nós, de formas mais ou menos obsessivas, procuramos formas de continuar a viajar e a encontrar o que nos faz falta. Através de conversas com os vizinhos, telefonemas intermináveis com amigos distantes, devorando episódios de séries na internet, começando aqueles cursos de yoga ou de culinária online para os quais nunca tivemos tempo antes.

O mundo lá fora grita por uma desaceleração, grita para que notemos o seu desmoronamento, e nós, com saudades desse mesmo mundo, partimos para um outro, paralelo, que nos preencha o espaço vazio que sentimos neste.

Ocupamos um espaço virtual que na verdade não nos satisfaz nem nos pertence e entretemo-nos com sucedâneos anestesiantes que nos relembram, não sem alguma crueldade, do que se passa lá fora. 

Somos um bicho com mais de cinco sentidos que nunca poderá exercitar a sua condição humana na íntegra apenas frente a um ecrã. 

Ocupamos o espaço virtual porque nos é essencial regressar ao espaço físico.

A um jantar a dois, a um passeio a quatro, a um salão de festas a abarrotar, a um concerto numa sala sem cadeiras, a uma performance onde podemos cheirar e sentir as actrizes e os actores, próximos, que para nós representam.

É para esse regresso que continuamos, no Teatro Viriato, a ocupar e a testar espaços de reencontro, acrescentando, a cada peça, a cada obra, mais uma possibilidade, microscópica ou gigante, de uma experiência ao vivo. 

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