A Fragilidade de Estarmos Juntos

De Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa

Sónia Barbosa, Miguel Castro Caldas e António Alvarenga| © DR

Com o espectáculo “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” de Tiago Rodrigues, a cena artística entrou de rompante, com convicção, ousadia, temeridade e estrondo, no debate sobre as fracturas observáveis no mundo (e, mais recentemente, em Portugal). E, se calhar, é esse o seu lugar, se a entendermos como espaço de experimentação, de geração de possíveis, de prototipagem. 

“A Fragilidade de Estarmos Juntos” parte de uma vontade de participar nessa geração de possíveis e estender a reflexão
e o debate, num diálogo entre enunciados em torno de temas que consideramos absolutamente atuais, complexos e estruturantes do nosso futuro coletivo e individual: a democracia, o liberalismo, o populismo e a (re)ascensão de modelos autoritários (“hipercompetentes” na utilização da alavanca da digitalização e no novo jogo do Capitalismo de Estado em contexto de fragmentação geoeconómica). 

Porque acreditamos em múltiplas possibilidades de análise do real, pensamos que talvez a alternativa à ditadura não resulte de um duelo. Talvez não seja construída pelo combate e pela identidade. Talvez seja mais por uma atitude de estranheza sobre a pessoa diferente que nos aparece à frente. Por ser diferente coloca em crise a nossa identidade, e dá-nos a possibilidade de revermos os nossos valores. Não a hesitação, mas a criação convicta de condições para o diálogo, para a divergência, para o desenvolvimento de futuros singulares, eternamente provisórios. A democracia vive tanto da luta de poder como da capacidade de dele abdicar. Luta e abdicação em doses que não se anulem, que se misturem. 

Queremos reflectir sobre como a força da democracia reside nas suas fragilidades. Sobre a possibilidade dos seus elementos de fragilidade e porosidade, as suas fracturas e falhas serem precisamente o que nos permite estar juntos sem futuro predefinido (sem que o futuro esteja escrito), viver juntos, criar juntos. 

Queremos reflectir sobre a forma como olhamos para a posição do outro e a possibilidade (e riscos) da empatia. Quem somos nós para nos colocarmos no lugar dos outros? Será que temos na vida e no mundo uma posição que nos permita dizer que quem pensa diferente de nós (e quem vota diferente de nós) não tem razão? 

Não queremos fazer as perguntas do tempo, queremos recuar e fazer as perguntas ao tempo, sabendo que o tempo não responde, mas devolve em eco. Queremos, portanto, escutar as perguntas que fazemos ao tempo. 

Anima-nos a ideia de construir um espectáculo que se afirma como um enunciado que conversa com outro enunciado identificável e contemporâneo. Anima-nos ainda a possibilidade de estes dois enunciados poderem coexistir ao mesmo tempo. 

Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa

(Os autores escrevem segundo o antigo acordo ortográfico) 

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