Em criação: “Aleksei ou a Fé”

No dia 18 de Janeiro de 2021, começámos a última fase de criação de “Aleksei ou a Fé”, terceiro espectáculo da trilogia do “Projecto Karamázov”. É um acaso muito significativo estarmos a trabalhar neste período sobre este tema: a Fé – do personagem Aliocha e a nossa também. É significativo porque, nestes tempos difíceis, fazer o que estamos a fazer tem tudo a ver com a Fé, pelo menos a Fé como eu a vejo: a Fé como o acto comprometido de acreditar, no futuro, uns nos outros, na arte, no teatro, na possibilidade de continuar a fazer, em dias melhores que virão.

Como nos outros processos deste “Projecto Karamázov” começámos com um período de pesquisa sobre o texto literário e a nossa relação com ele, um período onde toda a equipa artística é chamada a criar, improvisar, colocar as suas ideias e intuições na matéria que constituirá este espectáculo. E avançámos para a construção da dramaturgia e daquilo que é o objecto cénico que aqui toma forma. E é aí que nos encontramos agora, nesse momento mágico em que tudo toma forma e se constitui naquilo que é a linguagem teatral, com os seus corpos, as suas palavras, os seus movimentos, as suas sonoridades, as suas músicas, os seus espaços, os seus objectos, as suas luzes, as suas sombras, as suas profundidades, as suas emoções, as suas intenções, as suas imagens, os seus silêncios… É feita de tudo isto e mais ainda a arte do teatro, complexa, cheia de camadas, multifacetada e misteriosa. Há quem diga que é a arte da vida, eu acho que é isso mas com mais intensidade e talvez mais intencionalidade.

Estamos ansiosos por vos encontrarmos ali, na sala do Teatro Viriato, presencialmente, sim, para esse momento onde tudo se consuma, num encontro.

Até lá!

Sónia Barbosa

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico

Residência de criação de “Aleksei ou a Fé” | Fotos © Ana Bento

Boca a Boca #36 – A Tua Presença

Crónica de Patrícia Portela

A partir desta semana, os operadores de telecomunicações podem limitar ou mesmo bloquear o acesso a serviços de banda larga de internet considerados não essenciais. 

O objetivo é dar prioridade e proteger os serviços críticos do Estado, como os hospitais, as forças de segurança, a transmissão de avisos à população ou a distribuição de sinais de televisão linear e televisão digital terrestre. 

O congestionamento das redes é uma preocupação crescente neste novo estado de emergência, e as empresas de telecomunicações, sempre que necessário, podem, a partir de agora, interromper o acesso a plataformas digitais como a Netflix, o Youtube, ou as plataformas de videojogos. Neste grupo de plataformas prescindíveis, podem mesmo estar as plataformas escolares de aulas online ou mesmo o nosso SubPalco que, como tantas novas plataformas, transmite espectáculos, conferências e outras actividades que gostaríamos de partilhar ao vivo. Nesta lista não estão os livros, nem os espectáculos ao vivo que agora ensaiamos mas não podemos partilhar na nossa sala.

O ser humano tem esta tendência para carregar no acelerador quando se vê perante abismo. Parece ser mais difícil dar meia volta e regressar a um lugar onde se pode ser feliz. Preferimos alternativas e sucedâneos que nos entretenham a mudanças de rumo e de fundo para a vida que levamos.

As ruas estão desertas. E os seus habitantes obrigados a recolherem-se em casa, saindo apenas para adquirir os tais bens essenciais (medicamentos e alimentação).  

Dentro de casa, todos nós, de formas mais ou menos obsessivas, procuramos formas de continuar a viajar e a encontrar o que nos faz falta. Através de conversas com os vizinhos, telefonemas intermináveis com amigos distantes, devorando episódios de séries na internet, começando aqueles cursos de yoga ou de culinária online para os quais nunca tivemos tempo antes.

O mundo lá fora grita por uma desaceleração, grita para que notemos o seu desmoronamento, e nós, com saudades desse mesmo mundo, partimos para um outro, paralelo, que nos preencha o espaço vazio que sentimos neste.

Ocupamos um espaço virtual que na verdade não nos satisfaz nem nos pertence e entretemo-nos com sucedâneos anestesiantes que nos relembram, não sem alguma crueldade, do que se passa lá fora. 

Somos um bicho com mais de cinco sentidos que nunca poderá exercitar a sua condição humana na íntegra apenas frente a um ecrã. 

Ocupamos o espaço virtual porque nos é essencial regressar ao espaço físico.

A um jantar a dois, a um passeio a quatro, a um salão de festas a abarrotar, a um concerto numa sala sem cadeiras, a uma performance onde podemos cheirar e sentir as actrizes e os actores, próximos, que para nós representam.

É para esse regresso que continuamos, no Teatro Viriato, a ocupar e a testar espaços de reencontro, acrescentando, a cada peça, a cada obra, mais uma possibilidade, microscópica ou gigante, de uma experiência ao vivo. 

Em criação: “A Fragilidade de Estarmos Juntos”

A – A democracia foi implementada.

B – Oh meu Deus, o que é que nos vai acontecer?

A – É simples. O mundo mudou.

B – O que é que ele disse?

C – Que o mundo mudou.

B – O mundo mudou?

“A Fragilidade de Estarmos Juntos”, Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa

Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa em residência artística |  ©Carlos Fernandes

Aleksei e a nossa perspectiva sobre ele

Residência de criação “Aleksei ou a fé” |© Ana Bento

“Projeto Karamázov” é um projeto de pesquisa e de criação teatral da encenadora Sónia Barbosa a partir da obra literária “Os Irmãos Karamázov” de Fiodor Dostoiévski, que tinha como objetivo a criação de três espetáculos teatrais a partir de três pontos de vista sobre a obra: “Ivan ou a Dúvida”, “Dimitri ou o Pecado” e, por último, “Aleksei ou a Fé”. Em breve, o “Projeto Karamázov” estará em residência artística no Teatro Viriato com a criação deste último espetáculo.


Aliocha (Aleksei) é o protagonista de “Os Irmãos Karamázov” – é assim que Dostoiévski o apresenta no início do romance. O seu carácter e comportamento não são explicados de modo psicológico, dando a entender que há alguma inspiração nele talvez de tipo sobrenatural: “a pureza moral da sua natureza e o amor que inspira em todos (…) são atributos tradicionais dos Santos”1. A fé, como a entendemos em Dostoiévski, não se pode reduzir apenas ao tema da religião – ele mesmo reconhecia que a questão não se resolvia dessa forma e por isso dizia que até ao fim dos seus dias a luta interior entre a dúvida e a fé iria persistir2.

A nós também, mais do que armar uma fé, interessa-nos interrogar-nos de onde vem essa fé e porque temos necessidade dela. Em que podemos acreditar?

Olhando para Aliocha, quais são os elementos que nos fazem equacionar a presença de uma fé no mundo? Uma resposta possível, parece-nos, está na sua relação com as crianças – elas podem personificar essa possibilidade de fé, de acreditar e imaginar a criação do (de um) mundo (novo). Aliocha parece ter, ele próprio, alguma coisa de criança: a sua ingenuidade, a sua capacidade de ouvir os outros sem os julgar, a sua curiosidade perante o mundo, a sua alegria e a sua energia criativa.

Outro aspecto importante na perspectiva de Aliocha é a sua relação com a memória. A ideia de que há memórias poderosas capazes de nos guiar, e até mesmo salvar, nos momentos mais difíceis da vida, é apresentada diversas vezes e é sublinhada quando Dostoiévski termina o romance com o discurso de Aliocha às doze crianças, amigas do falecido Iliúcha, feito junto à sua pedra preferida, em que ele lhes pede que se lembrem para sempre desse momento.

“Saibam que não há nada mais sublime, nem mais forte, nem mais saudável, nem mais útil para
a nossa vida no futuro, do que uma boa recordação, em especial da infância, da casa paterna. Falam-vos muito da vossa educação, mas uma bela memória, uma lembrança sagrada, guardada desde a infância, é talvez a melhor educação. Se uma pessoa juntar muitas dessas recordações, estará salva para toda a vida.”
3

Para além destes dois elementos, o ponto de vista das crianças e a força da memória, gostaríamos de explorar a crise de fé de Aliocha, associada à morte do seu Mestre Zóssima, o sábio monge. A gura de Zóssima pode ser lida como uma espécie de personificação da religiosidade de Dostoiévski. A sua morte, e todo o livro dedicado à sua vida4, sugerem uma elevação em relação à vida material. Esta morte assume ainda, para Aliocha, o peso da morte do Pai – evento-chave da obra e também da nossa visão sobre ela.

Neste último espectáculo, interessa-nos investigar a presença da Morte. A consciência da mortalidade é talvez aquilo que, em última análise, nos coloca o problema da fé – se não tivéssemos consciência de que vamos morrer, talvez não tivéssemos necessidade da fé. Mas é o confronto com a realidade da morte que muitas vezes põe à prova a natureza dessa fé.

SÓNIA BARBOSA

(A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico)

1 FRANK, J. Dostoiévski. Um escritor em seu tempo. Tradução Pedro Maria Soares. Edição Mary Petrusewicz. Companhia das Letras. p. 1000.

2 FRANK, J. Dostoiévski. Um escritor em seu tempo. Tradução Pedro Maria Soares. Edição Mary Petrusewicz. Companhia das Letras. p. 274.

3 DOSTOIÉVSKI, F. Os irmãos Karamázov. Tradução de António Pescada. Relógio D’Água Editores. Março, 2012, Lisboa. p. 762.
4 Idem, ibidem. Livro Sexto, O Monge Russo. pp. 287-327.

A Fragilidade de Estarmos Juntos

De Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa

Sónia Barbosa, Miguel Castro Caldas e António Alvarenga| © DR

Com o espectáculo “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” de Tiago Rodrigues, a cena artística entrou de rompante, com convicção, ousadia, temeridade e estrondo, no debate sobre as fracturas observáveis no mundo (e, mais recentemente, em Portugal). E, se calhar, é esse o seu lugar, se a entendermos como espaço de experimentação, de geração de possíveis, de prototipagem. 

“A Fragilidade de Estarmos Juntos” parte de uma vontade de participar nessa geração de possíveis e estender a reflexão
e o debate, num diálogo entre enunciados em torno de temas que consideramos absolutamente atuais, complexos e estruturantes do nosso futuro coletivo e individual: a democracia, o liberalismo, o populismo e a (re)ascensão de modelos autoritários (“hipercompetentes” na utilização da alavanca da digitalização e no novo jogo do Capitalismo de Estado em contexto de fragmentação geoeconómica). 

Porque acreditamos em múltiplas possibilidades de análise do real, pensamos que talvez a alternativa à ditadura não resulte de um duelo. Talvez não seja construída pelo combate e pela identidade. Talvez seja mais por uma atitude de estranheza sobre a pessoa diferente que nos aparece à frente. Por ser diferente coloca em crise a nossa identidade, e dá-nos a possibilidade de revermos os nossos valores. Não a hesitação, mas a criação convicta de condições para o diálogo, para a divergência, para o desenvolvimento de futuros singulares, eternamente provisórios. A democracia vive tanto da luta de poder como da capacidade de dele abdicar. Luta e abdicação em doses que não se anulem, que se misturem. 

Queremos reflectir sobre como a força da democracia reside nas suas fragilidades. Sobre a possibilidade dos seus elementos de fragilidade e porosidade, as suas fracturas e falhas serem precisamente o que nos permite estar juntos sem futuro predefinido (sem que o futuro esteja escrito), viver juntos, criar juntos. 

Queremos reflectir sobre a forma como olhamos para a posição do outro e a possibilidade (e riscos) da empatia. Quem somos nós para nos colocarmos no lugar dos outros? Será que temos na vida e no mundo uma posição que nos permita dizer que quem pensa diferente de nós (e quem vota diferente de nós) não tem razão? 

Não queremos fazer as perguntas do tempo, queremos recuar e fazer as perguntas ao tempo, sabendo que o tempo não responde, mas devolve em eco. Queremos, portanto, escutar as perguntas que fazemos ao tempo. 

Anima-nos a ideia de construir um espectáculo que se afirma como um enunciado que conversa com outro enunciado identificável e contemporâneo. Anima-nos ainda a possibilidade de estes dois enunciados poderem coexistir ao mesmo tempo. 

Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa

(Os autores escrevem segundo o antigo acordo ortográfico)