Boca a Boca #15 – Da Boca Para Fora

Na crónica semanal de “Boca a Boca”, Patrícia Portela reflete sobre a natureza da verdade versus realidade em tempos de pandemia, e como esta dinâmica influencia o empenho e a energia com que se constrói um projeto cultural.
Em “À Boca da Bilheteira” reforçamos o convite de subscrição dos “Gráficos da Cidade e das Coisas” de Gonçalo M. Tavares, e partilhamos mais informação sobre como podem efetuar as inscrições no “Summer Lab – Guests Online”.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do episódio.

Crónica de Patrícia Portela – Da Boca Para Fora

Uma afirmação pode não ser correta e ser generalizadamente aceite e até celebrada como solução; basta que seja capaz de se afirmar.

É mais incómodo reconhecer a validade a um facto que se julga não ter acontecido (ou que se deseja que não tenha acontecido) do que acreditar numa mentira que sirva uma convicção. Com inesperada regularidade, construímos histórias paralelas, optamos por rotinas complexas ou evitamos determinados tópicos, só para podermos enfrentar os dias com algum grau de certeza do que somos e do que andamos por aqui a fazer.

Podemos chamar-lhe negação, descrença, indiferença, cinismo, estratégia política, ilusão. Depende da situação e do lugar que ocupamos a cada momento… Não é fácil viver em dias de epidemia e manter uma rotina que nos dita “normalidade”.

A capacidade de ver apenas aquilo em que se crê  é um dos maiores fascínios e uma das maiores tragédias da condição humana. Seja essa crença num Deus, num amante ou numa missão de vida. O que nos leva a perseguir um sonho, uma profissão ou uma forma de estar não é a garantia de que essa escolha seja a melhor ou a mais vantajosa mas sim a possibilidade de a sentirmos como a mais certa. 

A “verdade”, na verdade, nunca foi uma prioridade para o ser humano, e, no entanto, a realidade, secretamente, sempre o foi, sobretudo a da morte, sobretudo a de cada dia. E essa realidade treina-se, disciplina-se, contorna-se, reformula-se, imagina-se, melhora-se.

Penso em tudo isto enquanto estou sentada numa sala onde em breve vou ouvir, discutir e decidir, entre pares, a atribuição de uma bolsa a um novo artista, para um novo projeto , entre setenta e oito candidaturas. Uma decisão que mudará por certo a vida de quem escolhermos (e, inevitavelmente, dos restantes 77), mas também a nossa, que teremos de assumir o resultado. Na sala ao lado, ensaiam São Castro e António M. Cabrita, diretores artísticos da nossa companhia de dança residente. Treinam arduamente o gesto que ainda desconhecem e que irão partilhar connosco em novembro, na estreia da sua nova peça intitulada “Sinais de Pausa”. No palco, mais tarde, estará a equipa inteira do Teatro a receber uma formação em primeiros socorros. De uma perna partida à falta de ar (ou de ideias), estaremos todos preparados para acolher todo o tipo de espectadores e de artistas nesta casa, na próxima temporada.

Uma afirmação pode não ser correta e ser aceite, sendo celebrada e até espalhada como solução; mas uma ação necessita de energia, de impulso e de mestria para se concretizar da melhor maneira. Energia e vontade, que pertencem aos audazes, aos lutadores e aos que, mesmo no mais negro dos cenários, acreditam no que fazem e acreditam que o que fazem deve ser partilhado com o próximo. Trabalho num desses lugares, cheios de audazes, onde essa chama olímpica arde. Chama guardada pelas musas, é certo. Cuidada, felizmente, por Hígia, deusa da saúde e sanidade. Mas sobretudo acesa e a vibrar, graças àqueles que não afirmam, apenas, não sonham, apenas, mas fazem, constroem os nossos dias, mesmo que, por vezes, essa construção nos pareça invisível.

À Boca da Bilheteira

Este mês, fechamos esta temporada da melhor maneira: O Teatro Viriato e a Companhia Paulo Ribeiro promovem o “SUMMER LAB – Guests Online”. De 13 a 17 de julho os bailarinos e coreógrafos Cyril Baldy, Kristian Lever, Barbara Griggi, Hugo Marmelada e Sadé Alleyne (Akram Khan Company) partilham, através da plataforma Zoom, linguagens, metodologias e técnicas de dança, numa aula diária, das 18h00 às 19h30.

As inscrições para este programa de formação em dança online estão abertas até dia 06 de julho.

Cada aula está limitada a 25 participantes, por isso, faça a sua inscrição atempadamente. 

No dia 18, regressamos ao Museu Nacional Grão Vasco com Leonor Barata para a última visita guiada “Às Cegas” desta temporada. Os bilhetes estão disponíveis na BOL e na nossa bilheteira.

Esta semana, o conjunto de “Gráficos da Cidade e Das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares, traz-nos tabelas, inquéritos e diagramas que exploram temas como as razões para a impureza do mundo, a utilidade de um tremor de terra ou a melhor localização para um farol.

Conheça esta nova criação na íntegra em http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog e faça a sua inscrição

junto da nossa bilheteira. Todas as segundas feiras, pelas 18h00, serão publicados novos conjuntos de gráficos, símbolos ou tabelas para imaginar outros mundos possíveis e pequenas histórias humanas.

Se está ansioso por espreitar o futuro, pode também começar a planear uma visita ao Teatro Viriato para assistir a um dos espetáculos que foram adiados para a próxima temporada. Já pode comprar bilhetes para Aurora Negra, de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema e para os concertos de Dino D’Santiago ou de Luís Lapa. Os bilhetes estão disponíveis na BOL e na nossa bilheteira.

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do email bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110.

Não se esqueçam: Mesmo quando a montanha pode descer até ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se até à montanha. E entre estes dois movimentos, descobriremos novas formas de estarmos juntos, de desfrutarmos a vida em conjunto e de criarmos novas possibilidades de vislumbrar quem somos e para onde vamos, a cada etapa deste caminho. Assistindo a uma peça num palco. Lendo um gráfico que nos altera a percepção dos dias,  espreitando uma peça no subpalco online, recebendo em casa um postal, um telefonema e, muito em breve, um novo programa para uma nova temporada cheia de curiosas propostas.

Saudações viriáticas e até para a semana.

“Boca a Boca”
podcast do Teatro Viriato
Crónica “Boca a Boca”: Patrícia Portela
“À Boca da Bilheteira”: Liliana Rodrigues
Genéricos: Pedro Pires
Jingles: Nuno Veiga e Virgílio Oliveira
Edição: Zito Marques
Parceria: Rádio Jornal do Centro
Produção: Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Viseu