Boca a Boca #14 – Sócrates ou a Dança do que não se sabe

No “Boca a Boca” desta semana, a crónica de Patrícia Portela recorda o filósofo Sócrates para nos lembrar que a sabedoria será sempre alimentada pelo convívio com o que se desconhece.
No segmento “Na Boca do Mundo” Albino Moura fala-nos das apresentações das provas de aptidão artística dos alunos da Escola de Dança Lugar Presente, que acontecerão no Teatro Viriato.
Em “À Boca da Bilheteira” apresentamos-lhe a formação em dança “SUMMER LAB – Guests Online”, entramos no nosso palco com os alunos finalistas da Escola de Dança Lugar Presente e regressamos ao nosso blogue para consultar os “Gráficos da Cidade e das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do episódio.

Crónica de Patrícia Portela – Sócrates ou a Dança do que não se sabe

Este homem já tinha percorrido o mundo inteiro antes de chegar ali. Ou pelo menos assim o sentia. Já tinha feito muito, discutido muito, discordado muito, aprendido muito, mas queria saber mais. Não lhe parecendo valer qualquer das soluções encontradas para os problemas colocados, o homem determinou que era mais sensato parar.

E assim o fez. Ficou onde estava, a pensar, o dia inteiro, de pé, sem se mexer, frente a uma árvore. A sua concentração era tanta que conseguia ouvir, dentro do seu pensamento, o mundo inteiro a mover-se. 

Antes de retirar qualquer conclusão, teve o homem tempo de rever a sua longa caminhada até ali. A sua e a de tudo o que se movera com ele até ali. Lembrou-se do oráculo que lhe dissera que ele era o bicho mais sábio do mundo. E como ele acreditou que os deuses não mentiam, partiu à descoberta da sua própria sabedoria pois não a conhecia; quando se deitava à noite, era atormentado pela incerteza e pela dúvida porque, no fundo, sabia que não sabia assim tanto. Lembrou-se do momento em que decidira parar, e de como, após um longo tempo parado, decidira voltar a falar. E partiu de novo. Procurou o ser humano mais sábio de todos e percebeu que  não era assim tão sábio. Decidiu ir falar com um poeta – e também ele não era assim tão sábio. Foi falar com um político, com um governante – e também eles não eram sábios. Decidiu falar com um economista, com um arquitecto, com um médico, e concluiu, com mais desapontamento do que desilusão, que, afinal, ele era o mais sábio de todos. Simplesmente porque sabia que nada sabia, enquanto todos os outros, que sabiam muito, eram inconscientes do seu não saber. Invadiu-o uma felicidade que há muito esquecera. E ali mesmo decidiu que iria ensinar o que não sabia a toda a gente. Que em vez de dar respostas faria perguntas, em vez de certezas lançaria dúvidas, suposições, possibilidades.

Tantas perguntas fez, que arranjou, o homem, muitos inimigos, todos ilustres e poderosos conhecedores das mais variadas matérias, mas todos incomodados com a ideia de alguém sem pedigree poder questionar a sua sabedoria. E porque podiam, prenderam o homem e condenaram-no à morte. E a morte era tema sobre o qual sabia ainda menos do que tudo o que não sabia da vida. Bebeu um copo com uma infusão de flores, fez uma última homenagem a Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade, e fechou os olhos. 

O que terá aprendido com a sua morte não se sabe, mas deixou viva esta vontade de conviver com o que se desconhece. Talvez por isso, hoje, o teatro, filho das musas mas também da filosofia, seja o lugar mais apropriado para se aprender com os que desconhecem e por isso sabem mais do que nós. Talvez por isso, hoje, o Teatro Viriato, alinhado com todos aqueles que preferem perguntar a responder, convide a escola de dança Lugar Presente a habitar o seu palco e a apresentar as provas de aptidão artística dos seus finalistas. 

Os nossos futuros mestres são aqueles que nos fazem perguntas às quais não sabemos ainda responder. E é para o que ainda não sabemos que queremos caminhar. 

Na Boca do Mundo

Albino Moura sobre a Escola de Dança Lugar Presente

Esta quinta-feira iremos apresentar as provas de aptidão artística dos nossos alunos finalistas da Escola de Dança Lugar Presente. Este ano são dois finalistas que terminam o 12º ano do curso secundário de dança e é um privilégio esta relação com o Teatro Viriato, no sentido em que as apresentações destas provas em contexto real, em contexto profissional de apresentação dos espetáculos é de facto uma situação ideal para finalizar um curso deste tipo.

Eu penso, e nós pensamos, que é uma situação muito rara existir, nomeadamente no país, esta relação entre um teatro profissional e uma escola de dança que beneficia muito os nossos alunos e tem beneficiado os nossos finalistas em particular, mas também todos os nossos alunos porque podem assistir regularmente a espetáculos de dança, de teatro, de música e, portanto têm uma formação também como públicos das várias áreas que acompanha a sua formação na área da dança e, portanto é de facto um privilégio e nós estamos muito felizes por ter estas condições.

Estas apresentações são o culminar de um trabalho que é feito ao longo do ano. Portanto, estas provas são constituídas por uma prova de interpretação de uma coreografia já existente, de um coreógrafo à escolha dos alunos, e de um trabalho de composição que é feito pelos próprios alunos a partir de um tema, que eles próprios decidem, desenvolvem e depois projetam numa coreografia que é explorada ao longo do ano, terminando numa apresentação pública em contexto profissional, portanto neste caso no Teatro Viriato, onde também terão que defender por escrito e com uma prova oral, incluindo uma apresentação de um PowerPoint onde defendem todo o seu trabalho e toda a sua, digamos, tese de exploração.

Este ano temos dois alunos finalistas, o Tiago e a Mafalda que têm percursos muito diferentes. A Mafalda começou na nossa escola com três anos de idade, portanto muito pequenina. O Tiago começou mais tarde. Começou com treze ou catorze anos, no oitavo ano, teve ali um intervalo em que foi para Lisboa por razões familiares e também teve uma experiência no Chapitô, nas artes circenses, portanto, ele está um bocadinho dividido entre a dança e o circo. Mas são ambos alunos muito especiais.

Estes alunos têm já, com base nas suas pretensões, têm já algumas ideias de como é que vão prosseguir os estudos. No caso da Mafalda, em princípio ela irá para a Escola Superior de Dança, já tentou algumas escolas no estrangeiro e ainda está à espera de resposta, mas com certeza que terá entrada na Escola Superior de Dança, como tem acontecido até a alguns alunos dos nossos cursos secundários dos últimos anos. No caso do Tiago, ele eventualmente irá prosseguir mas na área do circo que é uma área que o fascina também bastante e já fez provas para isso e, portanto, em princípio irá para uma escola dentro dessa área. Em termos de carreira penso que a escola tem feito um trabalho adequado que lhes permite prosseguir tanto os estudos como iniciar uma carreira e eles têm aproveitado bem essa oportunidade.

Gostava ainda de referir que estas provas têm na sua composição um júri externo e interno. O interno é formado por docentes da nossa escola e pela direção e o júri externo são pessoas que normalmente convidamos de vários setores. Neste caso vamos ter a Patrícia Portela, que é a Diretora Artística atual do Teatro Viriato, temos a Leonor Keil que é a Diretora Artística do Festival “Lugar Futuro” e o João Fernandes que é um dos membros da direção da Escola Superior de Dança. Portanto, este ano temos um painel bastante diversificado que eu penso que será uma mais valia para a avaliação dos nossos finalistas.

Termino só desejando boa sorte para os nossos finalistas e esperando que corra tudo bem e certo que irão ter um futuro que corresponde às suas expectativas porque são ambos alunos muito especiais e penso que vão ter a maior sorte na suas carreiras e desejo-lhes as maiores felicidades.

À Boca da Bilheteira

Este verão, a formação em dança regressa ao Teatro Viriato mas, desta vez, através da plataforma zoom com “SUMMER LAB – Guests Online”. 

Ainda que a realização presencial do “SUMMER LAB” tenha sido adiada para 2021, entre os dias 13 e 17 de julho acolhemos um conjunto de aulas diárias com os formadores que integravam o programa de formação em dança deste ano: Cyril Baldy, Kristian LEver, Barbara Griggi, Hugo Marmelada e Sadé Alleyne (da Akram Khan Company).  A cada dia, entre as 18h00 e as 19h30, serão explorados: o método de improvisação de William Forsythe, a linguagem de movimento e pedagogia Gaga desenvolvida por Ohad Naharin, o repertório da Akram Khan Company, mas também outros estilos de dança de presença regular no “SUMMER LAB”, como Laboratório Coreográfico ou Dança Clássica.

As inscrições estão abertas até dia 06 de julho, e cada aula está limitada a 25 participantes, por isso, faça a sua inscrição atempadamente. 

O “SUMMER LAB – Guests Online” é um iniciativa do Teatro Viriato e da Companhia Paulo Ribeiro.

Amanhã, dia 25 de junho, será também a dança que ocupará o nosso palco, com as provas de aptidão artística dos finalistas da escola Lugar Presente. Por algumas horas, o palco será dos alunos que se apresentarão perante um júri e seus convidados. 

Chegados à quinta semana de “Gráficos da Cidade e Das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares, analisamos razões para um ser vivo se apaixonar ou o grau de sensatez na cabeça em diferentes situações quotidianas. Estarão estas questões relacionadas? 

Para saber, e conhecer na íntegra esta nova criação, faça a sua inscrição junto da nossa bilheteira e aceda a http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog. Todas as segundas feiras, pelas 18h00, serão publicados novos conjuntos de gráficos, símbolos ou tabelas para imaginar outros mundos possíveis e pequenas histórias humanas.

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do email bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

Não se esqueçam: Agora a montanha pode descer até ao teatro, mas o Teatro continuará a deslocar-se até à montanha. E entre estes dois movimentos, descobriremos novas formas de estarmos juntos, de desfrutarmos a vida em conjunto e de criarmos novas possibilidades de vislumbrar quem somos e para onde vamos, a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

Boca a Boca – episódio 14
podcast do Teatro Viriato
Crónica Boca a Boca 
Patrícia Portela
Na Boca do Mundo Albino Moura sobre a Escola de Dança Lugar Presente
À Boca da Bilheteira Liliana Rodrigues
Genéricos 
Pedro Pires
Jingles Nuno Veiga e Virgílio OliveiraEdição Zito Marques
Parceria Rádio
 Jornal do Centro
Produção Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Vise

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