Boca a Boca #13 – A Minha Vida por um Zombie

No décimo terceiro episódio do “Boca a Boca”, a crónica de Patrícia Portela reflete sobre o papel dos que se deparam com uma sociedade no limite e se atrevem a imaginar uma outra realidade, e questiona: “quando o escritor executa a tarefa hérculea de reimaginar o mundo fá-lo por necessidade de procurar a mudança, ou fá-lo porque não tem como não o fazer?”
No segmento “Na Boca do Mundo” ouvimos Alex Cassal, que nos dá o contexto do momento da sua vida em que escreveu “Ex-zombies: uma conferência”, o texto que será encenado e interpretado na oitava edição de Noite Fora.
Em “À Boca da Bilheteira” falamos-lhe de noites no Teatro Viriato, de segredos partilhados dentro de armários, sobre visitas guiadas e gráficos que nos desafiam a imaginar novos mundos possíveis.
“Boca a Boca” é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do Podcast.

Crónica de Patrícia Portela – A Minha Vida por um Zombie

Um grupo de cientistas franceses, num centro de controlo de doenças contagiosas, está muito próximo de encontrar a cura para zombies, mas uma “falha de energia” não permite avançar na pesquisa. Sem acesso a eletricidade, todos os aparelhos no laboratório deixam de funcionar e, por razões de segurança, o edifício prepara-se para se autodestruir em 1 minuto e, com ele, o futuro da humanidade. Um dos cientistas, sem poder sair, comenta com os outros antes de morrer: 

– Quem é que teve esta tão estúpida ideia de alimentar computadores a energia fóssil?

Estes eram os últimos minutos do sexto e último episódio da primeira temporada da série norte-americana “Walking Dead”, em 2010, uma série baseada no livro gráfico com o mesmo nome, de Robert Kirkman e Tony Moore.

Surgem sempre mortos-vivos, vampiros, fantasmas ou extraterrestres todo-poderosos quando a sociedade parece atingir um limite. Como em 1815, após a erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, que colocou a Europa às escuras e lançou Mary Shelley na escrita de “Frankenstein” e John William Polidori na escrita de “O Vampiro”, ambos a pernoitar em Villa Diodati, no lago de Genebra. Como em 1897, quando Bram Stoker imagina “Drácula” a partir da história e da geografia de uma região como a Transilvânia e revela uma escuridão imensa por trás das glórias industriais da era vitoriana. Ou ainda como em 1968, onde “A Noite dos Mortos-Vivos” se filma durante a revolução Flower Power nos Estados Unidos e a revolta dos estudantes em França. Ou como hoje, dia em que sobe ao palco do Teatro Viriato a leitura encenada de “Ex-Zombies: uma conferência”, de Alex Cassal. A emigração forçada, as alterações do clima, o pré e o pós-apocalipse, são alguns dos temas regulares deste dramaturgo e encenador brasileiro a viver em Lisboa. 

A tarefa daquele que escreve é captar o que há de virtual no atual, compreender o que já lá está mas ainda não é visível, criticar a sociedade presente. Mas quando o escritor executa a tarefa hercúlea de reimaginar o mundo, fá-lo por necessidade de procurar a mudança ou fá-lo porque não tem como não o fazer? E o que escreve tem impacto naquele que lê?

Numa das últimas entrevistas feitas a Fidel Castro perguntaram-lhe:

Se lhe dessem a escolher entre escrever a obra da sua vida e com ela mudar o mundo dramaticamente, sem que o mundo alguma vez soubesse quem tinha promovido essa mudança, ou ser considerado o melhor escritor do seu tempo, tornar-se famoso, escrever obras-primas lidas por muito poucos mas consideradas por muitos como um retrato rigoroso da sociedade como ela é mas sem a alterar, o que escolheria? 

Alex Cassal talvez respondesse: mais do que saber onde estamos ou para onde vamos enquanto escrevemos, “é importante escolher ao lado de quem queremos estar”. Presentes. Fisicamente. Apesar de uma pandemia. 

Venha ler o mundo pelo olhar de Cassal. Quem sabe, pode chegar a casa com um antídoto contra a atitude contagiante de carregar o seu telemóvel na corrente elétrica para ver mais uma série na Netflix. Mas antes contagiado, sim, pelo encontro com as musas e com Hígia, deusa da saúde, limpeza e sanidade, para muitos também chamada de Lua, que hoje, se reparar, está quase nova.

Na Boca do Mundo

Ex-zombies: uma conferência”, por Alex Cassal

Comecei a escrever este texto em 2016, depois de estrear um espetáculo sobre três refugiados à deriva numa balsa no meio do mar Mediterrâneo que passam o tempo a imaginar “As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. Eu próprio era mais um migrante recém-chegado à Europa e via por todo o lado sinais de que as pessoas estavam a armar-se com cacetes para enfrentar ameaças desconhecidas. 

Era como se estivéssemos a viver numa das distopias cinematográficas que marcaram a minha adolescência: nós contra extraterrestres invasores, nós contra robôs assassinos, nós contra macacos falantes, nós contra mutantes deformados. Nenhuma possibilidade de acordo, apenas a destruição (o mais das vezes mútua). 

Agora, quatro anos depois, os números de africanos e árabes mortos no mar Mediterrâneo (e ao redor do mundo) continuam a crescer, bufões fascistas como Trump e Bolsonaro inundam as manchetes dos jornais com mentiras, o aquecimento global já é uma realidade inegável. E uma pequena pandemia mostrou-nos como o nosso modo de vida pode mudar de um momento para o outro. Não sei se estamos no pré ou no pós-apocalipse. Mas sei que estes são tempos em que devemos escolher ao lado de quem queremos estar.

À Boca da Bilheteira

Esta noite, pelas 21h30, a nossa sala recebe a oitava edição de “Noite Fora: Leitura e Conversas sobre Teatro”, um projeto do Teatro Viriato e Sónia Barbosa que, desta vez, convida o encenador Alex Cassal para conduzir a sessão.

“Ex-Zombies – uma conferência”, da autoria de Alex Cassal será o texto encenado e interpretado por Guilherme Gomes, Leonor Barata, Roberto Terra e Sónia Barbosa. Uma obra que reflete sobre temas como a alteridade, a xenofobia, a tortura e a banalização do mal.

No próximo sábado, dia 20, a companhia Amarelo Silvestre convida-nos a “entrar” num guarda-fatos montado  no palco do nosso Teatro. Através de uma videochamada, assistimos a “Guardar Segredo”. Um conjunto de espetáculos que serão apresentados ao longo de cinco horas. Cada espetáculo terá apenas um espectador, a medida certa para se presenciar um segredo. O que se irá passar lá dentro é coisa que não deve ser sabida por mais ninguém. 

Também no sábado, às 16h00, regressamos à coleção do Museu Nacional Grão Vasco, com “Às Cegas”, de Leonor Barata. Uma visita sensorial para conhecermos os Tesouros Nacionais e Acervo do museu sem o vermos. 

E como tem sido habitual, a próxima semana começará com “Gráficos da Cidade e Das Coisas”. Todas as segundas-feiras, pelas 18h00, a nossa Sala de Ensaios digital, o blogue do Teatro Viriato, permite partilhar, na íntegra, esta nova criação de Gonçalo M. Tavares. Não perca o quarto conjunto de gráficos, já publicados, basta inscrever-se junto da nossa bilheteira e aceder a http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog. 

Todas as inscrições e reservas deverão ser feitas através do e-mail bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

E não se esqueçam: Ainda que a montanha desça ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se à montanha. E entre estes dois movimentos encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

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