Boca a Boca #12 – As Pedras Dançam por Dentro

No Boca a Boca desta semana, a crónica de Patrícia Portela remete-nos para a adolescência, para lembrar pessoas e projetos que, mesmo quando tudo parece estar do avesso, nos ajudam a ser quem somos.
Na Boca do Mundo apresentamos o projeto PEDRA pelas vozes de Vera Mantero, coreógrafa convidada desta terceira edição, Leonor Barata, coreógrafa assistente no Teatro Viriato e alguns dos participantes de Viseu, Lisboa e Porto.
Em À Boca da Bilheteira reforçamos o convite para assistir à apresentação de PEDRA no nosso SubPalco, falamos-lhe sobre o regresso de Noite Fora com o encenador Alex Cassal e lembramos que, todas as segundas-feiras, pode acompanhar Gráficos da Cidade e das Coisas, de Gonçalo M. Tavares.
Boca a Boca 
é o novo magazine radiofónico semanal do Teatro Viriato para ouvir em todo o lado, na Rádio Jornal do Centro (à quarta-feira, às 08h50 e às 20h50) e desde 27 de maio para ler também no site do Jornal do Centro e na Sala de Ensaios, o Blogue do Teatro Viriato. A voz de um Teatro que vai à montanha porque não pode esquecer a mais elementar premissa de uma casa de espetáculos: a partilha.

Leia abaixo a transcrição do podcast.

Crónica de Patrícia Portela – As Pedras Dançam por Dentro

Alguém, como eu, ou tu, acaba de celebrar 16 anos quando o mundo, lá fora, furioso e sem aviso, lhe puxa o tapete e lhe mostra que não é o que sempre foi, como aliás, há muito já se suspeitava. 

Alguém, como tu, ou como eu, passa agora o seu tempo fechado no quarto por causa de um vírus. Não passa as quartas-feiras com os avós nem as sextas-feiras com os amigos do skate. A pessoa que mais vê acaba por ser aquela professora, de olheiras até ao queixo, que, sem conseguir disfarçar as recorrentes insónias, crasha à tua frente, no ecrã do computador, enquanto te dá uma aula sobre uma matéria em que nenhum dos dois, neste momento, acredita. 

Alguém, como tu, ou como eu, de 16 anos, fechado num quarto, conclui que ninguém o deixa fazer nada do que o faz feliz, e que todos fazem questão de o obrigar àquilo que, tem a certeza, não lhe vai fazer falta nenhuma nem para concretizar os seus sonhos, nem para amar, nem para ser melhor pessoa. 

Já nem faz sentido trancar-se no quarto como forma de protesto. 

Há uma diferença entre não poder sair e não querer sair. E alguém, como tu, ou como eu, está agora fechado à chave num castigo sem culpa. E telefona todos os dias quando acorda àquele amigo com quem começou mesmo há dias a jogar à bola. E passa a noite a conversar com aquela amiga que fez já depois da pandemia, numa reunião de um projecto estranho, com um nome estranho, sobre uma dança estranha. Um projecto que juntou, em abril passado, muitos alguéns como tu, ou como eu, de Viseu, de Lisboa, e do Porto, mesmo com um vírus pelo meio a querer estragar tudo. 

– Onde já se viu uma pedra dançar?! – Estranhaste tu, em Viseu, antes de começares os ensaios a partir do repertório da coreógrafa Vera Mantero. – As pedras dançam por dentro – esclareceu ela, que já participava no projecto pela segunda vez. 

E por vezes precisamos só disto, não é? De alguém que nos ajude a ser quem somos, mesmo quando estamos obrigados a ser quase nada, fechados num quarto, a tentar dançar por dentro. 

Durante dois meses e meio desarrumámos esse quarto sem tapete, fizémos do chão um palco, e colocámos a música no máximo (e os auriculares). O resultado são três vídeos fora da caixa. 

PEDRA foi um projecto com a duração de três anos que teria terminado com um grande encontro em Lisboa. Dadas as circunstâncias, só terminará quando os participantes assim o entenderem. 

E enquanto houver musas e hígias, deusas da limpeza, da sanidade e da saúde, haverá sempre pedradas no charco. Venham ver o resultado, e participem na conversa de 14 de Junho, pelas 18h nas plataformas digitais da Culturgest, em Lisboa, do Teatro Municipal do Porto, no Porto, e do Teatro Viriato em Viseu. 

Até já!

Na Boca do Mundo

Projeto PEDRA pela coreógrafa Vera Mantero, pela voz dos participantes e pela coreógrafa e assistente em Viseu Leonor Barata, via Zoom

Vera Mantero

Eu fiquei muito contente quando me convidaram para o PEDRA porque me parece muito importante que haja pessoas destas idades que contactam com a dança contemporânea. Fiquei muito contente por poder também – como já tinham feito a Clara e o Francisco – participar nesta aventura. Também é preciso ver que dentro dos grupos há pessoas com experiência e pessoas sem experiência e isso cria mais um lado aventureiro, porque toda a gente tem que se adaptar às diferentes experiências de cada um.  Depois este nosso PEDRA atravessou uma ocasião histórica – que ninguém que nós conheçamos tenha alguma vez atravessado e que nós não sabemos quando se irá atravessar outra vez –  e de repente ficámos neste isolamento e para mim foi muito interessante a forma como fomos passando para este formato que vamos apresentar no dia 14, porque foi uma descoberta gradual. E uma das coisas que ajudou a caminharmos para este formato foi o facto de alguns alunos terem ficado com trabalhos para fazerem em casa, que iriam mostrar na próxima aula, nos estúdios, e como ficaram sem poder sair de casa começaram a enviar esses trabalhos de casa por vídeo. E isso foi uma coisa muito importante de ter acontecido e muito reveladora e despoletadora de começarmos a achar que este projeto tem uma hipótese à distância, tem uma hipótese em imagem e vídeo, tem uma hipótese online. 

Leonor Barata

O PEDRA é um projeto absolutamente fundamental no panorama artístico na área da dança porque permite esta ideia de cruzar linguagens com adolescentes, ou seja, a criação artística passa para eles, sendo mediada por um contexto que tem a ver com o coreógrafo que é escolhido – que este ano é a Vera – mas também por esta possibilidade de praticarem com os seus próprios corpos e reinventarem com os seus próprios corpos um património que já é da nova dança portuguesa e, portanto, esta ideia de partilhar com eles um passado que já não é deles, mas que se vai tornando deles, que eles se apropriam dele, é muito importante, parece-me.

Participantes

– Para mim o PEDRA é uma grande pedra que se deconstrói em pedacinhos e esses pedacinhos somos nós. E somos leves e flexíveis porque podemo-nos juntar à pedra grande, a pedra mãe. E é isso para mim, o PEDRA somos todos nós. 

– O PEDRA está a ser uma experiência fantástica e eu tenho a certeza que assim o será até ao final. Mesmo com estes obstáculos do corona vírus.

– O PEDRA é renovação e imaginação. 

– Sair da caixa, sim, sair da caixa. Foi isso que o projeto PEDRA me trouxe. Aprender a ver a dança de outra forma, comunicar através da arte e romper todas as suas barreiras convencionais e descobrirmos a nossa identidade através das emoções sentidas. Sair da caixa, sim, sair da caixa. 

À Boca da Bilheteira

Este domingo, convidamos todos aqueles que estão em casa a acompanhar-nos na apresentação final de PEDRA – Projeto Educativo em Dança de Reportório para Adolescentes

Passados 3 anos chegamos ao fim deste projeto coproduzido pelo Teatro Viriato, a Culturgest e o Teatro Municipal do Porto, desta vez, online, através do nosso SubPalco, das redes sociais da Culturgest e do Teatro Municipal do Porto. 

No dia 14 de junho, pelas 18h00, será transmitido um encontro nacional com a apresentação do exercício final de cada grupo e uma conversa entre Vera Mantero, a coreógrafa convidada desta edição, os coreógrafos assistentes – Henrique Furtado Vieira, Vera Santos e Leonor Barata – e os participantes. A conversa será moderada por Pedro Santos Guerreiro.

Já no próximo dia 17 de junho, voltamos a uma produção que nos traz muitas memórias felizes: Noite Fora. Desta vez, a leitura encenada terá lugar na nossa sala de espetáculos e Alex Cassal como encenador convidado, que nos apresenta um texto da sua autoria: Ex-Zombies – uma conferência. Leonor Barata, Sónia Barbosa, Guilherme Gomes e Roberto Terra serão os intérpretes. 

Às segundas-feiras continuaremos na companhia de Gonçalo M. Tavares e Gráficos da Cidade e das Coisas na nossa Sala de Ensaios, o blogue do Teatro Viriato, que pode conhecer através do endereço http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog.

Para reservar um lugar na plateia para Noite Fora ou para ter acesso a Gráficos da Cidade e das Coisas contacte a nossa bilheteira através do e-mail bilheteira@teatroviriato.com ou do número 232 480 110. 

E não se esqueçam: Ainda que a montanha desça ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se à montanha. E entre estes dois movimentos encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

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