Boca a Boca #11 – Desmascarar de Máscara

No Boca a Boca desta semana, Patrícia Portela fala-nos na sua crónica de máscaras que usamos para proteção, não apenas de um vírus, mas de injustiças e outros males da sociedade, outras ainda que se escolhem usar como forma de combate. “Porque o uso da máscara não nos impede de falar, de narrar, nem mesmo de respirar.”


O segmento Na Boca do Mundo traz-nos excertos de Montanhas de Coisas – um conjunto de solos documentais dos alunos do 2º ano da Licenciatura em Teatro da ESAD.CR – com coordenação de Joana Craveiro e que se estreia no Teatro Viriato esta quinta feira.


Em À Boca da Bilheteira espreitamos a programação dos próximos dias, com vários encontros possíveis entre o Teatro, a Montanha e o espaço digital.

Crónica de Patrícia Portela – Desmascarar de Máscara

Há pouco mais de seis meses, o governo de Hong Kong legislava a proibição do uso de máscaras em manifestações públicas. Tal adereço não permitia identificar devidamente os manifestantes, por um lado, nem intoxicá-los com gás lacrimogéneo e assim dispersá-los com eficácia, por outro. Como sinal de protesto, os estudantes, que na altura lutavam contra a lei da extradição para a China, saíram à rua mascarados, com fatiotas completas, no dia das bruxas. 

Na semana passada, milhares de manifestantes, nos Estados Unidos e não só, saíram à rua apesar das restrições e do uso obrigatório de máscaras, em nome de George Floyd, um homem afro-americano de Minneapolis que morreu, depois de ter estado algemado, de cara no chão, com um joelho de um polícia branco a esmagar-lhe o pescoço. 

Há oito meses, um grupo de alunos da disciplina de Interpretação iniciava o seu curso de Teatro em salas de aulas, nunca imaginando que o terminaria em plataformas digitais. Alguns deles talvez nunca tenham pisado um palco, até hoje, e talvez nunca tivessem decorado um texto para uma plateia tão bela como a do Viriato, mas nenhum deles recusou colocar a máscara do Teatro para continuar a desmascarar os males da sociedade, defendendo um futuro em que acreditam, sempre perante um público que se vai revelando cada vez mais ávido de outras vozes.  

Nesta semana, recebemos no Teatro Viriato os exercícios finais destes alunos de Interpretação do segundo ano da Escola Superior de Artes das Caldas da Rainha, sob a direção de Joana Craveiro, artista residente do nosso Teatro. Mas não os recebemos no palco, como acontece, já no próximo sábado, com o espetáculo para a infância Tangerina de Gira Sol Azul. Recebemos, sim, e como anfitriões, os seus mais diversos mundos através da plataforma Zoom. Monólogos na Gafanha da Nazaré, dentro de veículos automóveis em Pombal, confissões em Ansião ou Colmeias, passeios inesperados em Ponte de Sor, ou pela Baixa da Banheira, em Leiria, Altura ou Alcobaça… Lugares onde se encontram hoje, e onde se mantiveram a ensaiar, incansáveis, durante todo o período do confinamento.

Ninguém melhor do que eles para nos confirmarem que o futuro se desenha em aliança. Alianças entre artistas independentes, atores recém-formados e veteranos profissionais, entre instituições culturais, científicas e outras. Entre escolas e teatros. Entre golpes de asa de projetos que nos parecem impossíveis e esse imenso palco que é a rua. 

Porque o tão badalado distanciamento social não é sinónimo de afastamento das causas que nos movem. 

Porque o uso da máscara não nos impede de falar, de narrar, nem mesmo de respirar. 

Juntemo-nos, enquanto público, à garra e à vontade destes artistas do futuro, durante os próximos dias. 

Que outra missão poderá ter uma casa de criação que não a de dar uma mão a todos aqueles que continuam a ecoar as dores silenciadas do mundo,  agarrando com  a outra mão a sorte das musas, e a bênção de Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade?

Na Boca do Mundo

Montanhas de Coisas, um conjunto de solos documentais dos alunos da licenciatura em Teatro da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, com coordenação de Joana Craveiro

(Música America de Simon & Garfunkel)
“Let us be lovers, we’ll marry our fortunes together
I’ve got some real estate here in my bag”

Eles vão à procura norteia-os a frase de Annette Kuhn: “ O passado é como a cena de um crime!” Eles escolhem o que querem investigar, eles fazem-no e fazem-nos a nós de certa forma, constroem-nos, as memórias deles constroem e mapeiam quem nós somos, como chegámos até aqui. Eles escrevem uma peça de teatro a partir disso, de facto, um total de pequenas peças. E o total de pequenas peças que daqui sai perfaz 13, mas não é um número azarado e sim um número justo, eles são 13 e têm estado fechados em casa. E isto foi o que eles quiseram descobrir. 

(Música América de Simon & Garfunkel)

“Laughing on the bus
Playing games with the faces
She said the man in the gabardine suit was a spy
I said, “Be careful, his bowtie is really a camera”

Cada pessoa reconstitui a memória de um acontecimento como quem faz um bolo, cujos ingredientes só eles conhecem. Fico por isso à porta de uma história extraordinária sem maneira de entrar.

–  Eu, sou uma pessoa sem memória, ou seja, em mim as memórias perdem-se

Todos falam sobre a vida em Angola, menos o Gito, o segundo filho mais velho, talvez seja mais fácil cantar. 

– Neste hotel, existem chaves, e existem quartos, quartos que possuem cada um deles uma história

(Música Mona Ki Ngi Xica de Bonga)

“Alukenn n’golafua
N’ga mu binga kia
Muene ondo kala beniaba
Eme n’gondodiame
Eme n’gondodiame
Mona mona muene
Kissueia weza
Mona mona muene
Kalunga n’gumba
N’zambi awani banack mona
N’ga muvalele
Muene ondo kala beniaba”

Tradução:
“Atenção! Estou em perigo mortal
E eu já te avisei
Ela vai ficar aqui e eu vou embora
Essa filha minha
Pessoas más estão atrás dela
Essa filha minha
Em uma maré de infortúnio
Deus me deu essa prole
Que eu trouxe ao mundo
E ela vai ficar aqui
Quando eu me for.”

E agora, aquilo que resta, são estas histórias…

Boa noite, ou boa tarde, ou bom dia… todas as horas do dia neste momento às vezes nos parecem uma mesma única hora. Bem-vindos a Montanhas de Coisas, um conjunto de pequenas peças a que chamámos solos documentais. Estes são alunos de segundo ano de teatro da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, eles vão apresentar o resultado da sua investigação, vão apresentá-lo sob forma artística porque eles pensaram muito nisto, eles de facto estiveram dois meses fechados em casa a pensar, não só a pensar, como a investigar, a entrevistar,  a ir à procura, a procurar, a abrir gavetas, caixas, a destapar… Destapar, acho que é assim que se diz, destapar memórias. Algumas estavam envoltas em plástico, outras estavam guardadas dentro das pessoas, outras nem chegaram a ser encontradas. Houve muitas histórias que se pensou que eram uma coisa, e afinal acabam revelando uma outra coisa. Este é também o percurso de pessoas que se encontram a meio caminho, na busca destas histórias que se encontram a si próprias nisso.

Boa viagem, não é preciso apertar os cintos, as regras de segurança estão garantidas e ainda assim pedimos-vos: aproximem-se.

(Música “Friend of the Devil” de Grateful Dead)

“I lit up from Reno
I was trailed by twenty hounds
Didn’t get to sleep that night
Till the morning came around
Set out running but I’ll take my time
A friend of the Devil is a friend of mine
If I get home before daylight”

À Boca da Bilheteira

No dia em que reabrimos as portas do Teatro Viriato ao público Tangerina, da Gira Sol Azul, estreou no nosso placo. Precisamente no dia da criança, este concerto para a infância foi transmitido para escolas do 1º e 2º ciclo através do nosso SubPalco e visto na nossa sala, com todas os cuidados necessários. No próximo sábado, dia 6, convidamos as famílias com crianças maiores de 3 anos a ocuparem o seu lugar na plateia para mais uma sessão de Tangerina

O segundo conjunto de Gráficos da Cidade e das Coisas, de Gonçalo M. Tavares chegou também no dia 1 à nossa Sala de Ensaios – o blogue do Teatro Viriato, com acesso restrito para os inscritos. Se ainda não fez, inscreva-se para receber acesso à publicação semanal que nos convoca a participar no exercício imaginário de construir novos mundos possíveis. 

Entre quinta-feira e sábado, nos dias 4, 5 e 6, o Teatro Viriato acolhe Montanhas de Coisas através da plataforma zoom, um conjunto de solos documentais dos alunos do segundo ano da licenciatura em Teatro da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Raínha, com coordenação de Joana Craveiro, artista residente do Teatro Viriato.

Já no dia 14 de junho, pelas 18h00, será o dia da apresentação final de PEDRA – Projeto Educativo em Dança de Repertório para Adolescentes que, nesta terceira edição, desafiou jovens em Viseu, Porto e Lisboa a apropriarem-se do repertório de Vera Mantero, a coreógrafa convidada. O projeto, criado e produzido pelo Teatro Viriato, o Teatro Municipal do Porto e a Culturgest, terá apresentação dos três grupos no nosso SubPalco. 

Para reservar bilhetes para Tangerina, para assistir a Montanhas de Coisas ou para ter acesso a Gráficos da Cidade e das Coisas lembre-se destes contactos: bilheteira@teatroviriato.com ou 232 480 110. 

E não se esqueçam: Ainda que a montanha desça ao teatro, o Teatro continuará a deslocar-se à montanha. E entre entres dois movimentos encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho.

Saudações viriáticas e até para a semana.

Boca a Boca – episódio 11
podcast do Teatro Viriato
Crónica Boca a Boca Patrícia Portela
Na Boca do Mundo Montanha de Coisas, por Joana Craveiro e alunos do 2º ano da Licenciatura em Teatro da ESAD.CR
À Boca da Bilheteira Liliana Rodrigues
Genéricos Pedro Pires
Jingles Nuno Veiga e Virgílio Oliveira
Edição Zito Marques
Parceria 
Rádio Jornal do Centro
Produção Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Viseu

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