Boca a Boca #10 – O Disfarce da Realidade

No décimo episódio de Boca a Boca, Patrícia Portela reflete sobre a nossa forma de existir, enquanto indivíduos, como profissionais e, sobretudo, como agentes com uma missão que pode e deve, sempre, ser cumprida da melhor forma que encontrarmos.


Em À Boca da Bilheteira falamos da reabertura do edifício do Teatro Viriato com Tangerina, convidamo-vos a visitar o nosso blog para conhecer Gráficos da Cidade e das Coisas, de Gonçalo M. Tavares, e marcamos novos encontros convosco, em casa, no Teatro, ou no espaço digital.

Crónica de Patrícia Portela – O Disfarce da Realidade

Roland Barthes pegou numa fotografia de 1852 de Jérôme, o irmão mais novo de Napoleão, e, denunciando o seu espanto, escreveu, em Camera Lucida: «estou a olhar para uns olhos que já olharam o imperador». O que o impressionava não era estar perante a fotografia de alguém notável, mas a ideia de estar perante alguém que já existira. 

A fotografia, o cinema, o teatro, a dança, são fruto desta mania que os seres humanos têm de capturar bocados do mundo para pensarem sobre ele. A prática artística é o ofício de manter um diálogo vivo e desafiante entre o nosso tempo fugaz no planeta e a realidade incompreensível do universo.

Por estes dias, todos discutimos restrições, incansavelmente. No trabalho, nos transportes públicos, nos cafés e restaurantes, nos museus, e, claro, também nos teatros, e nas salas de cinemas. Frascos de desinfetante nas entradas, uso obrigatório de máscaras, regras de afastamento entre equipas que colaboram, novas regras para a utilização de camarins ou do ar condicionado. A situação é tão desconcertante que é fácil estas discussões técnicas secundarizarem a nossa missão: a de estarmos abertos, criando, produzindo e acolhendo obras que estejam em sintonia com os tempos em que se vive.

Ontem, num raro momento de silêncio mas ainda em frente ao computador, cruzei-me com Ingrid Bergman em Casablanca. Revi um excerto desse filme estreado à pressa, em novembro de 1942, só para se sintonizar com a realidade tumultuosa do seu tempo. Os Estados Unidos juntavam-se a França e a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, e, no filme, o americano Rick Blaine e o inspetor francês Renault iniciavam a sua “nova e bela amizade” num aeroporto semivazio, permitindo a partida de Victor Laszlo, para se juntar à Resistência. Contra todas as impossibilidades, Rick e Ilsa prometem nunca esquecer Paris e beijam-se.

E nesse momento pensei: Um beijo, filmado hoje, não pode ser um beijo a fingir. Terá de ser um beijo entre pessoas que já se amam fora de cena, ou que se querem muito beijar em nome da arte do cinema. Terão de se confinar durante 14 dias, fazer testes antes das filmagens, ou simplesmente arriscar a saúde ao fazê-lo no momento em que se diz: “Ação!”

Num tempo em que podemos construir um filme inteiramente num computador, manipulando imagens pré-gravadas de atores mortos ou de passagens extintas, questionamos hoje, como nunca, qual o lugar de verdade na obra artística. 

Podemos representar a realidade, reinventá-la, refazê-la, repensá-la, mudar o seu curso, mas não a podemos disfarçar. Nem obrigá-la a não acontecer.  

Para a semana reabrimos as portas físicas do Teatro Viriato com um concerto que só pode existir porque é feito por uma família que vive e toca sob o mesmo teto, um grupo de artistas que continuou a abraçar-se e a beijar-se, sem distância, durante estes meses de confinamento. Tangerina, da Gira Sol Azul, é uma das poucas criações que não foi recalendarizada ou transformada noutro objeto artístico, mantendo-se no programa do Teatro Viriato. Venham espreitar. Cá estaremos, na companhia de Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade, para vos acolher de braços abertos, com todo o cuidado e carinho.

Na Boca do Mundo

Introdução ao concerto encenado Tangerina da Gira Sol Azul por Ana Bento com textos de Almada Negreiros pela voz de Artur Pinto e música de Ana Bento e Bruno Pinto.

Ainda hontem o universo me parecia um gigante colossal, capaz de me atropelar sem querer; e emquanto eu procurava a maneira de não ficar espesinhado plo gigante, quem poderia, Mãe, ter-me convencido de que eramos nós-proprios o gigante? 

Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo Universo.

– Almada Negreiros

Inspirados no livro A Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros, partimos numa viagem pelo universo da palavra. A palavra que é, simultaneamente, poesia, prosa e arte poética, numa obra que não foi escrita especificamente para a infância mas que se apresenta num tom de menino pequeno que está a falar com a sua mãe. 

Esta viagem começou na forma de oficina que esteve em cena exclusivamente na Casa da Música, no Porto, ao longo de dois anos, e sentimos que a viagem ainda ia a meio, então, lançámos-nos numa nova etapa com desenhos de novos arranjos sobre a música que já tínhamos criado e ainda incluímos dois temas novos. Foi nesta altura que convidámos a Joana, para vir espreitar o material que tínhamos, e desafiámo-la a entrar nesta viagem connosco. A Joana entrou e com ela trouxe uma série de propostas. Juntos começámos a explorar caminhos neste universo de Tangerina, sobre o material que já trazíamos e sobre as propostas da Joana, e agora estreamos e partilhamos mais uma etapa desta viagem, que é um concerto que, para além de palavras e de música, também inclui alguns momentos de vídeo, sombras e um maior cuidado com as movimentações dos corpos que estão em palco.

Sobre estes corpos que estão em palco, estamos uma família, eu e o Bruno e os nossos quatro miúdos que nos têm acompanhado numa série de experiências ao longo destes anos. As mais velhas já integraram de forma permanente os últimos trabalhos que fizemos para a infância, os mais novos apenas pontualmente, mas é agora, em Tangerina, a primeira vez que assumidamente nos apresentamos os seis como coletivo. Portanto este é um espetáculo de uma família para famílias, entretanto temos estado em paralelo a trabalhar no disco, e dia 1 de junho, para além da estreia do espetáculo, disponibilizamos o primeiro single, que é o tema Centenário das Palavras. O disco tem um lado rock/pop como identidade aglomeradora, mas as composições são muito influenciadas quer pela harmonia jazz, música erudita, música étnica… Aliás, esta fusão de estilos é uma característica permanente nos vários trabalhos que eu e o Bruno temos desenvolvido e, na realidade, nunca conseguimos fugir. É um bocado também como o Almada refere na Invenção do Dia Claro, “invento o que já foi inventado”. Procurámos então que a música Tangerina fosse um bocadinho como os escritos de Almada Negreiros, tão simples quanto sofisticada com dinâmicas ricas e contrastantes, com cores luminosas e vitais.

Fica então o convite para fazerem parte desta festa, para virem até ao Teatro Viriato e se deixarem contagiar pela alegria e pelo sabor doce e fresco de Tangerina.

Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras. É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

Festejar todos os dias o centenário das palavras em baixo a Terra, em cima o Sol. Festejar todos os dias o centenário das palavras em baixo a Terra, em cima o Sol.

Excerto da música “Centenário das Palavras

À Boca da Bilheteira

Em semana de estreias, o Teatro Viriato convida todos aqueles que estão em casa a conhecer o primeiro conjunto de “Gráficos da Cidade e das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares. Este é o início de uma criação que pretendemos que seja construída em proximidade com o público, e que resultará num espetáculo final, em 2021. Até lá, e a partir destes gráficos, evoluiremos para outras formas de tradução e expressão da obra de Gonçalo M. Tavares. Contamos consigo, a cada semana, para participar neste exercício imaginário de construir outros mundos possíveis. 

Para isso, basta aceder a http://www.saladeensaiosteatroviriato.blog a nossa mais recente Sala de Ensaios na internet que nasce em formato de blog. Este é um espaço de partilha entre o Teatro, artistas e público, que tornará visível a invisibilidade dos processos criativos. Do esboço, à investigação, à reflexão e ao questionamento. 

Já na próxima semana, a reabertura ao público do edifício do Teatro Viriato coincide também com a estreia de “Tangerina”, um concerto para a infância do coletivo Gira Sol Azul, inspirado no livro “A Invenção do Dia Claro”, de Almada Negreiros. O concerto chega mesmo a tempo do dia da criança com sessões para escolas no nosso SubPalco, mas também ao vivo, na nossa sala.  No dia 6 de junho, o convite para regressar ao Teatro estende-se às famílias, com crianças maiores de 3 anos. Ainda que com lotação limitada e todas as medidas de segurança necessárias para a realização do espetáculo, “Tangerina” sobe ao nosso palco pelas 15h30. Pode reservar bilhete através do número 232 480 110 ou do e-mail bilheteira@teatroviriato.com. 

E não se esqueçam: Quando a montanha não pode ir ao teatro, o teatro continuará a deslocar-se à montanha. Mas é com alegria que podemos dizer que já contamos os dias para que a montanha, com todo o cuidado e atenção, possa descer até ao nosso teatro. Uma coisa é certa: entre estes dois movimentos, encontrar-nos-emos sempre a cada etapa deste caminho, em casa ou no teatro, na rua ou no espaço digital, sempre exercitando o músculo da imaginação. 

Saudações viriáticas e até para a semana.

Boca a Boca – episódio 10
podcast do Teatro Viriato
Crónica Boca a Boca Patrícia Portela
Na Boca do Mundo introdução a Tangerina, da Gira Sol Azul, por Ana Bento com textos de Almada Negreiros pela voz de Artur Pinto e música de Ana Bento e Bruno Pinto
À Boca da Bilheteira Liliana Rodrigues
Genéricos Pedro Pires
Jingles Nuno Veiga e Virgílio Oliveira
Edição Zito Marques
Parceria Rádio Jornal do Centro
Produção Teatro Viriato
O Teatro Viriato é uma estrutura financiada pela República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes e pelo Município de Viseu

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