Temporadas Desenhadas

Exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

A exposição “Temporadas Desenhadas” reúne os estudos de Bárbara Assis Pacheco, Alice Geirinhas e Pedro Vieira para a imagem de cada uma das três temporadas do Teatro Viriato, em 2021. Patente num novo espaço do Teatro: “Meia Dose”, situado no Forum Viseu, pode ser visitada até 16 de dezembro, de quarta-feira a domingo, das 12h00 às 18h00.

Os três artistas foram convidados a criar uma imagem — a partir dos espetáculos escolhidos e do manifesto de intenções da direção para cada temporada — , com a qual partilhavam a sua leitura da programação e acrescentavam a sua voz à voz dos artistas. Estas ilustrações, que seriam expostas na fachada do Teatro , desencadearam um novo desafio: para cada uma das propostas, Patrícia Portela re-escreveu três contos dos Irmãos Grimm: “Os Músicos de Bremen”, “Branca de Neve” e “Hansel e Gretel”, nestas novas versões publicadas nos programas do Teatro, são “Um Teatro a caminho de Bremen”, “Espelho, espelho meu, quem sou eu?” e “O Teatro de chocolate”.

“Temporadas Desenhadas” nasceu da vontade de colocar, lado a lado, o trabalho dos três artistas e os contos que as suas obras espoletaram, desejando que estes novos diálogos se prolongassem para lá dos meses que foram fachada do Teatro. O que acontece desde já na exposição, onde cada imagem está acompanhada da leitura do respetivo conto pela voz de três espectadores.

UM TEATRO A CAMINHO DE BREMEN

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Os Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm

lido por Sandra Correia

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Fotografia dos estudos de Bárbara Assis Pacheco na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Era uma vez o último auroque à face da Terra. Passava os dias escondido ou a fugir de caçadores. Vivia lá para os lados do Côa e carpia noites inteiras, pedindo aos deuses, aos da terra, que o ajudassem na sua tamanha solidão. Um dia, enquanto tricotava um pé de meia com uma moura encantada, o sol bateu de maneira diferente no xisto do seu álbum de família. Um auroque, um outro auroque, robusto, gravado na pedra, um seu igual que nunca tinha visto. Encostou a sua orelha àquele dorso martelado e ouviu:

– Vai-te embora daqui! Vai ser músico em Bremen! Lá encontras outros como tu, montas uma banda e serás feliz para sempre!

E como uma multidão de caçadores apareceu a correr na sua direção, o auroque não pensou duas vezes e fugiu na direção contrária. Ele não sabia onde ficava Bremen mas estava decidido a fazer-se à estrada sem olhar para trás.

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ESPELHO, ESPELHO MEU, QUEM SOU EU?

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm

lido por José Carlos Leorne

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Fotografia dos estudos de Alice Geirinhas na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Num tempo muito anterior a este abril, ainda a neve cobria metade destas terras o ano inteiro, uma rainha costurava, distraída, à janela, quando se picou na agulha. Três gotas de sangue mancharam o manto de neve que se estendia lá fora. O vermelho no branco era tão vivo que ela desejou: “Fosse eu branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira desta janela, e não de uma cor só.” Pouco tempo depois, deu essa rainha à luz uma filha, branca como a neve, intensa como o vermelho do sangue, e com uma farta cabeleira tão negra como a madeira da sua janela. O parto foi demorado e doloroso, e a rainha morreu nesse mesmo dia, nunca chegando a pegar ao colo a sua cria que não era de uma cor só. O pai, o rei, para curar a profunda tristeza em que se afundara e esquecer a ansiedade dos múltiplos negócios de estado, voltou a casar com a dama mais bela do reino, obviamente, uma mulher orgulhosa e prepotente, como sempre são as mulheres de segundas núpcias em contos de fadas, sempre madrastas antes de serem mães.

Essa dama cedo foi votada à mesma solidão da rainha anterior e, não sabendo costurar, perdia os dias à conversa com o seu reflexo, a sua única companhia. Não tendo mais do que a sua beleza, vivia apavorada com a ideia de envelhecer, e passava horas a fio a esconder as rugas que via nascer à volta dos seus belos olhos azuis, a arrancar os cabelos brancos da sua farta cabeleira dourada e a disfarçar as pequena manchas que contrariavam a sua pele de mármore. E, sem ninguém que a elogiasse, a rainha terminava todos os seus dias perguntando ao espelho se era bela, e, julgando ouvir-lhe um elaborado sim, adormecia certa de que valeria a pena acordar.

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O TEATRO DE CHOCOLATE

Conto de Patrícia Portela, a partir de “Hansel e Gretel”, dos Irmãos Grimm,

lido por Gaspar Machado Gomes

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Fotografia dos estudos de Pedro Vieira na exposição “Temporadas Desenhadas” © Carlos Fernandes

Era uma vez uma família peculiar que vivia num planeta onde mal se podia viver. As geadas davam cabo das searas, as cheias e os incêndios destruíam os campos e cidades, as ondas de calor e de frio matavam os mais velhos e fechavam os mais novos em casa.

Esta família, como tantas outras, tinha insónias, e à noite, alguns davam voltas na cama, enquanto elaboravam formas de se sustentar e de sobreviver às intempéries. Mas enquanto outras famílias decidiam partir para outros lugares, mudar de emprego, duplicar os turnos e os trabalhos ou assaltar bancos para melhorar o nível de vida, esta família peculiar teve uma ideia peregrina:

O Zé e a Elvira levaram os filhos, por muitas voltas, até ao centro mais denso da floresta, acenderam uma fogueira e deram um bocadinho de pão a cada um.

– Não saiam daqui, nós já voltamos.

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